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13 de jan. de 2011

Como falhamos? – John Piper



1) Deus nos criou para a sua glória.


2) Portanto é nossa obrigação viver para a sua glória.




1) Deus nos criou para a sua glória


Trazei meus filhos de longe e minhas filhas, das extremidades da terra, a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória (Is 43.6, 7).


A compreensão correta de tudo na vida começa com Deus. Ninguém jamais entenderá a necessidade da conversão se não souber por que Deus nos criou. Ele nos criou "à sua imagem", para difundirmos sua glória no mundo. Fomos feitos para sermos prismas que refratam a luz da glória de Deus em tudo na vida. Por que Deus quis deixar que ajudássemos a refletir sua gloria é um grande mistério. Chame-o graça, ou misericórdia, ou amor —é urna maravilha indizível. Antes não éramos. Passamos a existir —para a glória de Deus!

2) Portanto é nossa obrigação viver para a sua glória

Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus (ICo 10.31).

Se Deus nos fez para a sua glória, é evidente que devemos viver para a sua glória. Nosso dever vem do desígnio de Deus.

Que significa glorificar a Deus?
Não significa torná-lo mais glorioso. Significa reconhecer sua glória, valorizá-la acima de todas as coisas e fazê-la conhecida. Implica gratidão de coração: "Aquele que me traz ofertas de gratidão, esse me honra" (Si 50.23, BLH). Também implica confiança: Abraão, "pela fé, se fortaleceu, dando glórias a Deus" (Rm4.20).

Glorificar a Deus é dever não apenas dos que ouviram a pregação do evangelho, mas também dos povos que têm apenas o testemunho da natureza e da sua própria consciência:

Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, tanto o seu poder eterno como a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso no que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. Embora conheçam a Deus, não lhe dão a honra que merece e não lhe são agradecidos (Rm 1.20, 21, BLH).

Deus não julgará alguém por deixar de cumprir um dever se a pessoa não teve acesso ao conhecimento desse dever. Mas mesmo sem a Bíblia, todas as pessoas têm acesso ao conhecimento de que fomos criados por Deus e por isso dependemos dele para tudo, devendo-Lhe gratidão e confiança do nosso coração. Bem dentro de nós todos sabemos que é nosso dever glorificar nosso Criador agradecendo-lhe tudo o que temos, confiando nele para tudo o que precisamos e obedecendo a toda a sua vontade revelada.

27 de out. de 2010

O Mais Sublime Conhecimento. - C. H.Spurgeon



O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte. - Daniel 11.32


Todo crente sabe que conhecer a Deus é a melhor e mais sublime forma de conhecimento. Este conhecimento espiritual é uma fonte de fortalecimento para o crente. Fortalece a sua fé. As Escrituras constantemente se referem aos crentes como pessoas iluminadas e ensinadas pelo próprio Senhor. As Escrituras afirmam que os crentes possuem a unção do Santo (ver 1 João 2.20) e que o ofício peculiar do Espírito Santo é guiá-los em toda a verdade; tudo para o incremento e a nutrição de sua fé. O conhecimento fortalece o amor, assim como revigora a fé. O conhecimento abre a porta; e, por meio desta porta, vemos nosso Salvador. Ou, empregando outra figura, o conhecimento pinta um retrato do Senhor Jesus. E, quando vemos esse retrato, passamos a amar a Jesus. Pelo menos em algum grau, não podemos amar um Cristo a quem não conhecemos. Se conhecemos pouco das excelências de Jesus, o que Ele fez e o que está fazendo agora por nós, não podemos amá-Lo tanto. No entanto, quanto mais conhecemos a Jesus, tanto mais nós O amamos.

O conhecimento também revigora a esperança. Como podemos esperar algo, se não temos conhecimento da sua existência? A esperança pode ser o telescópio, mas, até que recebamos instruções, nossa ignorância se coloca na frente da lente, e nada podemos ver. O conhecimento remove o objeto interferente e quando olhamos através da brilhante lente, discernimos a glória a ser revelada e a antecipamos com confiança jubilante. O conhecimento nos fornece razões para sermos pacientes. Como teremos paciência, a menos que saibamos algo da compaixão de Cristo e entendamos o bem que é sair da disciplina na qual nosso Pai celeste nos corrige? Não existe uma única virtude do crente que, nos desígnios de Deus, não será fomentada e trazida à perfeição por meio do conhecimento. Quão importante é que cresçamos não somente em graça, mas também "no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!" (2 Pedro 3.18).

21 de out. de 2010

Calvino e o zelo de expor a glória de Deus - por John Piper



Em 1538, o cardeal italiano Sadoleto escreveu aos líderes de Genebra tentando reconquistá-los novamente para a Igreja Católica Romana, depois de terem se voltado aos ensinamentos reformados. Ele começou sua carta com um longo parágrafo conciliatório sobre a preciosidade da vida eterna, antes de começar com suas acusações contra a Reforma. Calvino escreveu a resposta a Sadoleto em seis dias no outono de 1539. Foi uma das suas primeiras obras, que espalhou seu nome como reformador por toda a Europa. Lutero a leu e disse: "Eis aqui uma obra que possui mãos e pés. Alegro-me em saber que Deus levanta homens como este".

A resposta de Calvino a Sadoleto é importante, pois revela a raiz da disputa de Calvino com Roma, que definiria toda a sua vida. O assunto não inclui, principalmente, os pontos característicos e bem conhecidos da Reforma: justificação, abuso sacerdotal, transubstanciação, oração aos santos e autoridade papal. Todos esses itens serão discutidos. Mas, sob todos estes, o assunto fundamental para João Calvino, desde o começo até o fim da sua vida, era a centralidade, a supremacia e a majestade da glória de Deus. Ele vê na carta de Sadoleto a mesma coisa que Newbigin vê no evangelicalismo moderno cheio de si.

Aqui está o que Calvino disse ao cardeal: "[Teu] zelo por uma vida santa [é] um zelo que mantém um homem inteiramente devoto a si mesmo e não o desperta, em nenhum momento, a santificar o nome de Deus". Em outras palavras, mesmo a verdade preciosa a respeito da vida eterna pode ser bastante distorcida e deslocar Deus do centro e do alvo. Esta era a principal contenda de Calvino com Roma. Isso sempre aparece em seus escritos. Ele continua e diz a Sadoleto o que ele deveria fazer — e o que Calvino almeja fazer toda sua vida — "colocar à frente [do homem], como motivo primordial de sua existência, zelo para demonstrar a glória de Deus".

Esse seria o tema apropriado de toda vida e trabalho de João Calvino - -zelo para ilustrar a glória de Deus. O significado essencial da vida e da pregação de João Calvino é que ele recuperou e incorporou uma paixão pela realidade e pela majestade absoluta de Deus. Meu desejo é que vejamos isso mais claramente. Benjamin Warfield disse o seguinte acerca de Calvino: "Nenhum homem jamais teve um senso tão profundo de Deus como ele". Eis aqui a chave para a vida e teologia de Calvino.

Geerhardus Vos, estudioso do Novo Testamento, em Princeton, no ano de 1891, perguntou: Por que, ao contrário de muitos outros ramos da cristandade, a teologia reformada foi capaz de compreender a plenitude da Escritura? Ele responde: "Porque a teologia da Reforma apropriou-se das Escrituras em sua raiz, em sua idéia mais profunda (...) Essa idéia arraigada que serviu como chave para desvendar os ricos tesouros das Escrituras foi a preeminência da glória de Deus na consideração de tudo o que havia sido criado". É essa orientação inflexível para a glória de Deus que dá coerência à vida de João Calvino e à tradição reformada que o seguiu. G. Vos disse que "o lema mais amplo da fé reformada, que a tudo abrange, é esse: a obra da graça no pecador é um espelho para a glória de Deus". Espelhar a glória de Deus é o sentido da vida e do ministério de João Calvino.

Quando Calvino chegou ao assunto da justificação em sua resposta a Sadoleto, ele disse: "Você (...) menciona a justificação pela fé, o tema primeiro e mais agudo da nossa controvérsia (...) Onde o conhecimento desse tema é removido, a glória de Cristo é extinta".8 Portanto, aqui podemos ver novamente o que é fundamental. Justificação pela fé é crucial. Mas há uma razão profunda que a torna tão crucial. A glória de Cristo está em jogo. Sempre que a compreensão da justificação é removida, a glória de Cristo é extinta. Esta sempre é a questão mais pro¬funda para Calvino. Que verdade e que comportamento irão "demonstrar a glória de Deus"?

Para Calvino, a necessidade da Reforma era fundamentalmente essa: Roma tinha "destruído a glória de Cristo de muitas maneiras — apelando aos santos para interceder, quando Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e o homem; adorando a Virgem Santa, quando somente Cristo deve ser adorado; oferecendo um contínuo sacrifício na Missa, quando o sacrifício de Cristo na cruz foi completo e suficiente", elevando a tradição ao nível das Escrituras e até mesmo tornando a palavra de Cristo dependente da palavra do homem para sua autoridade.  Calvino pergunta, no seu Comentário aos colossenses: "Por que acontece que sejamos 'levados pelos diversos ensinamentos estranhos' (Hb 13.9)?" E ele responde: "Porque a excelência de Cristo não é compreendida por nós". Em outras palavras, o grande guardião da ortodoxia bíblica por todos os séculos é a paixão pela glória e pela excelência de Deus em Cristo. Quando Deus não está no centro, tudo começa a mudar de lugar. Esse fato — não estar no centro - não prediz boas coisas para a fidelidade doutrinária em nossos próprios dias.

Portanto, a raiz unificante de todos os trabalhos de Calvino é sua paixão para expor a glória de Deus em Cristo. Aos 30 anos, descreveu uma cena imaginária na qual, ao final da sua vida, ao acertar as contas com Deus, dizia: "O Deus, o alvo a que dei primazia, e para o que diligentemente trabalhei, foi que a glória da tua bondade e da tua justiça (...) pudessem resplandecer claramente, para que a virtude e as bênçãos do teu Cristo (...) sejam plenamente expostas".

Vinte e quatro anos mais tarde, tendo permanecido inalterado em suas paixões e alvos, e um mês antes de dar, verdadeiramente, um relato a Cristo no céu (ele morreu com 54 anos), Calvino mencionou no seu último testamento: "Nada tenho escrito por ódio a ninguém, mas sempre tenho proposto com fidelidade o que considero contribuir para a glória de Deus".

Fonte: [Josemar Bessa]

29 de jun. de 2010

Nossa Grande Necessidade – Josemar Bessa







O apóstolo Paulo diz que o mundo pagão desonrava e desonra profundamente a Deus: “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu”. (Rm 1.21) – Esse povo vivia na escuridão – Como diz Francis Scheaffer, é o povo sem a Palavra, sem Bíblia – Resultado? Desonra a Deus! – “...não glorificaram a Deus”.

Mas e o povo com a Palavra? Com acesso a Palavra, os Judeus? (Que podem ser comparados a nós que temos a Bíblia) – “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2.23) – O povo com a Bíblia, segundo Francis Scheaffer – Desonraram a Deus também. – Devemos manter os olhos fixos naquilo que é o grande mal nos homens –Eles desonram Deus – Pagãos (Rm 1.21) e Judeus ( Rm 2.23).

O que é o mal então? É o sentimento arraigado no coração, é o modo e esquema de todos os pensamentos, é a ação diária que trata o Deus infinito como infinitamente menos valioso e gratificante. Devemos estar atentos então, pois nossa definição de pecado está muito aquém da definição bíblica; da definição que nos leva a uma vida de verdadeira santidade. Paulo nos dá a definição perfeita daquilo que é o pecado: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23) – A essência do pecado pode estar grandemente presente nos que não tem e nos que tem a Bíblia – Pois a essência do pecado é não tratar a glória de Deus como aquilo que ela realmente é; como aquilo que Deus realmente é digno - a realidade e o Ser mais valioso e que traz mais satisfação e prazer do que qualquer tesouro no universo.

É por isso – e por nenhum motivo centrado em nós mesmos (seres humanos)que precisamos ser salvos. É tão somente por isso que precisamos do dom da justiça que só Deus pode dar. É por isso que precisamos de um justiça que não é nossa. Todos nós temos ficado muito aquém da glória de Deus – da glória devida ao Seu Nome Eterno. Como Paulo diz do mundo sem a Palavra: “...não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21) – E diz também do povo que teve a revelação: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2.23).

Esse ponto deve ser enfatizado grandemente hoje pois pensamos em pecado como aquilo que destrói e atrapalha o homem – Mesmo quando pensamos em como o pecado deve ser vencido, o fazemos de modo antropocêntrico.Falamos em pecado pensando no homem e não em Deus. Vemos o mal como algo que fere o homem e não como algo que desonra a Deus – é este pensamento que o apóstolo Paulo denuncia e mostra claramente na sua declaração contra a humanidade.

O mal, no visão atual, é o que me faz sofrer, e não o que desonra Deus. O mal é quando as circunstâncias e situações me ameaçam e não quandodesonram Deus. Precisamos ouvir o testemunho incansável e inspirado pelo Espírito do apóstolo Paulo para termos uma verdadeira percepção do pecado e da justiça de Deus, que em nossos dias foi completamente perdida.

Sem isso, receber a dom da justiça que o evangelho traz não faz nenhum sentido. Se sequer conseguimos entender o problema, não podemos receber a dádiva da solução divina trazida em Cristo. As multidões nos ‘igrejas” não podem compreender e receber o Evangelho da Graça – sem uma percepção verdadeira quando a essência do pecado e da justiça de Deus.


Fonte: [Josemar Bessa]

19 de jun. de 2010

O Gozo de Saber que Deus é Deus - John Piper


Deus pode ser impressionado pelo homem?

O esforço humano nunca pode impressionar um Deus onipotente, e a grandeza dos homens jamais pode impressionar um Deus de grandeza infinita. Isto é má notícia para aqueles que competem com Deus, mas boa notícia para aqueles que querem viver pela fé.

O Salmo 147 é uma emocionante declaração de esperança para um povo que desfruta do gozo e certeza de que Deus é Deus. O salmista afirma: "Conta o número das estrelas, chamando-as todas pelo seu nome" (v. 4). Ora, isto é mais do que podemos apreender! "Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir" (SI 139.6).

A Terra, onde vivemos, é um pequeno planeta que gira em torno de uma estrela chamada Sol, que tem o volume um milhão e trezentas vezes maior do que o da Terra. Existem estrelas milhões de vezes mais luminosas do que o Sol. Existem aproximadamente cem bilhões de estrelas em nossa galáxia, a Via Láctea, que tem cem mil anos-luz de extensão. (Um ano-luz equivale a 299.792.458 km/s.) O Sol viaja a 249 km/s, e, por isso, seriam necessários, duzentos milhões de anos para que o sol cumprisse apenas uma órbita em volta da Via Láctea. Existem milhões de outras galáxias além da nossa.

Agora, ouça novamente: o Salmo 147 afirma que Deus conta o número de todas as estrelas. Não somente isso, afirma também que Ele as chama pelo nome que lhes deu, tal como se faz a animais de estimação. Você os olha, observa suas características e chama-os por algum nome que se enquadre nas diferenças. Quando cantamos o hino "Let Ali Things Now Living", de Katherine Davis, eu sorrio com grande satisfação quando chego às palavras:

Ele estabelece a sua lei:
 As estrelas, em seus cursos,
 O Sol, em sua órbita, 
Resplandecem obedientemente.

Sim, eu penso, "obedientemente" é a palavra correta! O sol tem um nome na mente de Deus. Ele chama o sol por seu nome, diz a ele o que fazer e ele obedece. E assim o fazem trilhões de estrelas. (Assim como todos os elétrons, em todas as moléculas dos elementos das estrelas e dos planetas, incluindo os elementos que se encontram nas guelras de um tubarão que vive embaixo das rochas, na costa da ilha de Rhode.)

Ora, o que impressionaria um Deus como este? Salmo 147.10-11 nos mostra com clareza:

Não faz caso da força do cavalo, nem se compraz 
nos músculos do guerreiro. Agrada-se o SENHOR dos 
que o temem e dos que esperam na sua misericórdia.

Imagine um levantador de peso, nas Olimpíadas, que se orgulha de haver levantado duzentos e vinte e cinco quilos. Ou imagine algum cientista se orgulhando de que descobriu como uma molécula é afetada por outra. Não precisamos ser gênios para saber que Deus não se deixa impressionar por essas coisas.

As boas-novas para aqueles que desfrutam do gozo de saber que Deus é Deus é que Ele tem prazer nessas pessoas. Deus se agrada daqueles que esperam no imensurável poder dEle. Não é uma coincidência literária o fato de que os versículos referentes a outro aspecto da grandeza de Deus (nos versículos 4 e 5), mostram-No cuidando do fraco (vv. 3 e 6):

3          sara os de coração quebrantado e lhes pensa as feridas.
4          Conta o número das estrelas, chamando-as todas pelo seu nome.
5          Grande é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento não se pode medir.
6          O SENHOR ampara os humildes e dá com os ímpios em terra.

Oh! que prenda a nossa atenção a verdade de que Deus é Deus e trabalha onipotentemente em favor daqueles que esperam nEle (Is 64.4), bem como na sua misericórdia (SI 147.11) e O amam (Rm 8.28). Ele ama ser Deus para os fracos e desamparados, que O buscam para tudo o que necessitam.




18 de jun. de 2010

Cristo morreu por nós ou por Deus? - John Piper


“A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:25-26)

Introdução

Uma das razões que torna difícil comunicar a realidade bíblica às pessoas modernas e seculares é que a mentalidade bíblica e a mentalidade secular se movem de pontos de partida radicalmente diferentes.

O que eu quero dizer por mentalidade secular não é necessariamente uma mentalidade que rejeite a Deus ou que negue em princípio que a Bíblia seja verdadeira. É uma mentalidade que começa com o homem como a realidade básica no universo. Todo o seu pensar começa com a suposição de que o homem tem direitos básicos, necessidades básicas e expectativas básicas. Então, a mente secular se move a partir deste centro e interpreta o mundo, com o homem, seus direitos e necessidades, como a medida de todas as coisas.

O que a mentalidade secular vê como problemas são vistos como problemas por causa de como tais coisas se ajustam ou não com o centro - o homem e seus direitos, necessidades e expectativas. E o que esta mentalidade vê como sucessos são vistos como sucessos porque eles se ajustam ao homem e seus direitos, necessidades e expectativas.

Esta é a mentalidade com a qual nascemos e que toda a sociedade secular reforça virtualmente em cada momento de nossas vidas. O Apóstolo Paulo chama esta mentalidade de “a inclinação da carne” (Romanos. 8:6-7), e diz que este é o modo que a “pessoa natural” pensa (1 Coríntios 2:14, tradução literal). Ela está tão arraigada a nós que dificilmente sabemos que está lá. Nós apenas temos sua presença como certo - até que colida com outra mentalidade, a saber, a exposta na Bíblia.

A mentalidade bíblica não é uma que simplesmente inclui Deus em algum lugar no universo e afirma que a Bíblia é verdadeira. A mentalidade bíblica começa com um ponto de partida radicalmente diferente, isto é, Deus. Deus é a unidade básica no universo. Ele estava lá antes que nós viéssemos à existência - ou antes que qualquer outra coisa existisse. Ele é simplesmente a realidade mais absoluta.

E assim, a mentalidade bíblica começa com a suposição de que Deus é o centro da realidade. Todo o pensamento começa com a suposição de que Deus tem direitos básicos como o Criador de todas as coisas. Ele tem metas que se adequam à sua natureza e caráter perfeito. Então a mentalidade bíblica se move deste centro e interpreta o mundo, com Deus, seus direitos e objetivos, como a medida de todas as coisas.

O que a mentalidade bíblica vê como problemas básicos no universo não são normalmente os mesmos problemas que a mentalidade secular vê. A razão para isto é que o que faz algo ser um problema não é, primeiramente, o fato dele não se ajustar aos direitos e necessidades humanas, mas sim o de não se adequar aos direitos e objetivos divinos. Se você começa com o homem, seus direitos e vontades, em lugar de começar com o Criador, seus direitos e objetivos, os problemas que você verá no universo serão muito diferentes.

O enigma básico do universo é como preservar os direitos humanos e resolver seus problemas (diga-se, o direito de autodeterminação, e o problema de sofrimento)? Ou é: como um Deus infinitamente digno, em completa liberdade, pode exibir a plenitude de suas perfeições – o que Paulo chama de “riquezas da sua glória” (Romanos 9:23) - sua santidade, poder, sabedoria, justiça, ira, bondade, verdade e graça?

Como você responde a tal pergunta irá afetar profundamente o modo como você entende o evento central da história humana – a morte de Jesus, o Filho de Deus.

Eu introduzi nosso texto (Romanos 3:25-26) com esta longa meditação sobre o poder de nossos pontos de partida, porque o mais profundo problema ao qual a morte de Jesus foi designada para resolver é virtualmente incompreensível à mentalidade secular. É por isso que esta verdade a respeito do propósito da morte de Cristo é raramente conhecida, para não dizer apreciada, como parte da devoção evangélica cotidiana. Nossa mentalidade cristã é tão tendenciosa e marcada pela centralização do homem natural e secular que dificilmente podemos compreender ou amar a centralidade em Deus da cruz de Cristo.


“O Significado Profundo da Cruz”

Nosso enfoque está muito limitado. Nós iremos afundo no assunto de justificação, reconciliação e perdão como o início e a fundação de tudo isso. E.B. Cranfield chama “o significado profundo da cruz” (The Epistle to the Romans, Vol. 1, I.C.C., Edinburgh: T.&T. Clark, 1975, p. 213).

O que você deve compreender ao ler este texto é o problema no universo que a mentalidade bíblica (a mentalidade de Deus) está tentando resolver por meio da morte de Cristo. Como isto difere dos problemas que a mentalidade secular diz que Deus tem de resolver?

“A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” (Romanos 3:25)

Reduza isso ao problema mais básico ao qual a morte de Cristo se propõe a resolver. Deus propôs Cristo (ele lhe enviou para morrer) para demonstrar sua retidão (ou justiça). O problema que carecia de uma solução era que Deus, por alguma razão, parecia ser injusto, e quis exaltar e limpar seu nome. Este é o tema base. A retidão de Deus está em jogo. Seu nome, reputação ou honra devem ser vindicados. Antes que a cruz possa ser por nossa causa, deve ser por causa de Deus.

Mas o que criou aquele problema? Por que Deus enfrentou o problema de precisar dar uma demonstração pública de sua retidão? A resposta está na última frase de versículo 25: “por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”.

O que isso significa? Significa que durante séculos Deus continuou fazendo o que o Salmo 103:10 diz: “[Deus] Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui segundo as nossas iniqüidades”. Ele tinha ignorado milhares de pecados. Ele os tinha perdoado, lhes permitindo continuar, não os castigando.


Como o Davi Desprezou Deus

O Rei Davi é um bom exemplo. Em 2 Samuel 12, ele é confrontado pelo profeta Natã por cometer adultério com Bateseba e matado seu marido. Natã diz: “Por que desprezaste a palavra do SENHOR?” (2 Samuel 12:9).

Davi sente a repreensão de Natã, e no versículo 13 diz: “Pequei contra o Senhor”. A isto Natã responde: “Também o SENHOR traspassou o teu pecado; não morrerás” (ARA). Apenas isso! Adultério e assassinato são “ignorados”. É quase incrível. Nosso senso de justiça urge: “Não! Você não pode apenas o deixar ir assim. Ele merece morrer ou ser aprisionado por toda sua vida!” Mas Natã não diz isso. Ele diz: “Também o SENHOR traspassou o teu pecado; não morrerás”.


Por que o Perdão é um Problema?

Isso é o que o Paulo quer dizer em Romanos 3:25 com por deixar de lado os pecados cometidos. Mas por que isso é um problema? É percebido como um problema pela mentalidade secular - que Deus é bondoso para com os pecadores? Quantas pessoas fora do escopo da influência b íblica lutam com o problema de um Deus santo e íntegro que faz o sol nascer para maus e bons, e envia chuva para justos e injustos (Mateus 5:45)? Quantos lutam com a aparente injustiça de Deus ser indulgente para com os pecadores? Quantos dos cristãos lutam com fato de ser seu próprio perdão uma ameaça à retidão de Deus?

A mentalidade secular não consegue avaliar as situações do modo como a mentalidade bíblica o faz. Por que isso? Porque a mentalidade secular inicia seu pensamento de um ponto de partida radicalmente diferente da bíblico. Não começa com os direitos de Criador inerentes a Deus - o direito de ostentar e exibir o valor infinito de sua retidão e glória. Ela começa com o homem e assume que Deus se moldará aos nossos direitos e desejos.


O Pecado é um Depreciador da Glória de Deus

Veja o versículo 23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. O que está em jogo em meio ao pecado é a glória de Deus. Quando Natã confronta Davi, ele cita Deus como que dizendo: “Por que você me desprezou?” Nós poderíamos imaginar Davi respondendo: “O que você quer dizer com ‘eu o desprezei'? Eu não o desprezei. Eu nem mesmo estava pensando em você. Apenas me interessei por esta mulher e então me apavorei com a possibilidade de outros descobrirem. Seu nome nem mesmo foi citado”.

E Deus teria dito: “O Criador do universo, o arquiteto do matrimônio, a fonte da vida, aquele que a tua existência, aquele que te fez rei - sim, eu, o Senhor, não estava nem mesmo na cena! Está certo, Davi. Isso é exatamente o que eu quero dizer. Você me desprezou”. Todo o pecado é um desprezo a Deus, antes mesmo de ser um dano ao homem. Todo o pecado é uma preferência aos prazeres passageiros do mundo à alegria perpétua do companheirismo de Deus. Davi rebaixou a glória de Deus. Ele depreciou o valor de Deus. Ele desonrou o nome do Senhor. Esse é o significado de pecado – o erro de não amar a glória de Deus acima de tudo mais. “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.

Portanto, o problema quando Deus ignora o pecado é que ele parece concordar com esses que desprezam seu nome e depreciam a sua glória. Ele parece estar dizendo que é uma questão indiferente que sua glória que seja menosprezada. Ele parece tolerar a baixa estipulação de seu valor.


O Insulto de Absolver os Anarquistas

Suponhamos um grupo de anarquistas com o intuito de assassinar o Presidente dos Estados Unidos e todo o seu gabinete, e quase tenham sucesso. Suas bombas destroem parte da Casa Branca e matam algumas pessoas, mas o Presidente por pouco consegue escapar. Os anarquistas são presos e o tribunal os condena. Entretanto os anarquistas dizem que estão arrependidos, e assim, o tribunal suspende sua sentença e os liberta. Agora, o que tal atitude comunicaria ao resto do mundo a respeito do valor da vida do Presidente e de seu governo? A mensagem transmitida seria que eles são de pouco valor.

É isso que o ignorar dos pecados comunica: a glória de Deus e seu íntegro governo são de valor ínfimo, ou mesmo de nenhum valor.

Aparte da revelação divina, a mente natural – a mente secular - não vê ou sente tal problema. Que pessoa secular perde seu sono pela aparente injustiça de ser Deus benigno para com os pecadores?

Mas, de acordo com Romanos, este é o problema mais básico que Deus resolveu pela morte de seu Filho. Leiamos novamente: “ara manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente...” (vv. 25b-26a) Deus seria injusto se ele ignorasse os pecados como se o valor de sua glória fosse nulo.

Deus viu a sua glória sendo desprezada por pecadores (como Davi) - ele viu seu valor depreciado e seu nome desonrado por nossos pecados - e em lugar de vindicar o valor de sua glória matando seu povo, ele vindicou sua glória matando o seu Filho.

Deus poderia ter quitado o débito condenando todos os pecadores ao inferno. Isto teria demonstrado que Ele não minimiza nossa carência da sua glória - nosso depreciar de sua honra. Mas Deus desejou nos destruir. “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:17).


Nós Conhecemos (e Partilhamos!) a mais profunda paixão de Deus?

Isso verdade, nós bem sabemos. Sabemos que Deus é por nós. Sabemos que nossa salvação é o objetivo da vinda de Jesus. Mas nós conhecemos os alicerces de tudo isso? Sabemos que há um objetivo ainda mais profundo no envio do Filho? Sabemos que o amor de Deus para conosco depende de um amor ainda mais profundo, isto é, o amor de Deus por sua glória? Sabemos que a paixão de Deus para salvar os pecadores reside em uma paixão ainda mais intensa, isto é, a paixão de Deus para vindicar sua própria retidão? Nós temos consciência de que a realização da nossa salvação não está centrada em nós, mas na glória de Deus? A vindicação da glória de Deus é o fundamento de nossa salvação (Romanos 3:25-6), e a exaltação da glória de Deus é o objetivo de nossa salvação. “Cristo foi feito ministro da circuncisão ... para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia” (Romanos 15:8-9).


Pode a auto-exaltação ser um Ato de Amor?

Alguém poderia perguntar: “Como pode ser amoroso Deus se auto-exaltar na obra da cruz? Se ele está realmente exaltando sua própria glória e vindicando a própria retidão, então como a cruz é realmente um ato de amor por nós?”.

Temo que a pergunta esteja presa a uma mentalidade secular comum, com o homem no centro. Ela assume que, para que sejamos amados, Deus tem que nos tornar o centro. Ele tem que destacar nosso valor. Se nosso valor não é acentuado, então não somos amados. Se nosso valor não é a base da cruz, então não somos estimados. A suposição de tal questionamento é que a exaltação do valor e da glória de Deus acima do homem não tem a mesma essência que o amor de Deus para com o homem.

Porém, a mentalidade bíblica afirma o exato oposto. A cruz é o apogeu do amor de Deus para com os pecadores, não porque demonstra o valor dos pecadores, mas porque vindica o valor de Deus para alegria dos pecadores. O amor de Deus pelo homem não consiste em fazer do homem o centro, mas de tornar a si mesmo centro para o homem. A cruz não dirige a atenção do homem para seu próprio valor, mas para a retidão de Deus.

Isto é amor, pois a única felicidade eterna para o homem é a felicidade focada nas riquezas da glória de Deus. “Na tua presença há plenitude de alegria; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmo 16:1 1). A auto-exaltação de Deus é amor, porque nos preserva e nos oferece o único Objeto de desejo capaz de nos satisfazer por completo - o Deus todo-glorioso, o Deus todo-justo.


Por que a Cruz é Loucura?

A razão primária do porquê a cruz é loucura para o mundo é que ela significa o fim da auto-exaltação humana, e um compromisso radical para com a exaltação divina. Não – “compromisso” não é exatamente a palavra certa. Antes, a cruz é um chamado à “exultação” radical na exaltação de Deus. A cruz é a morte da nossa demanda para sermos amados e feitos o centro. E ela é o nascimento da alegria em fazer de Deus o centro.


Como a Cruz é sua Alegria?

Teste a si mesmo. Qual é a sua mentalidade? Você começa com Deus, seus direitos e objetivos? Ou você começa com você mesmo, seus direitos e desejos?

E quando você olha para a morte de Cristo, o que acontece? Sua alegria realmente brota a partir de uma tradução desta impressionante obra divina num incentivo para a auto-estima? Ou você é tomado para fora de si mesmo e se enche de reverência e adoração ao ver aqui, na morte de Jesus, a declaração mais profunda e clara da estima infinita de Deus por sua glória e por seu Filho?

Aqui está um grande fundamento objetivo pra a plena certeza da esperança: o perdão dos pecados está fundamentado, finalmente, não em meu trabalho ou valor finito, mas no valor infinito da retidão de Deus - a inabalável determinação de Deus em sustentar e vindicar a glória do seu nome.

Eu imploro a você, com todo meu coração, permaneça nisto. Baseie sua vida sobre isto. Alicerce sua esperança nisto. Você será livre da mentalidade fútil do mundo. E você nunca cairá. Enquanto a exaltação divina de Deus em Cristo for sua alegria, isso nunca lhe conduzirá ao fracasso.

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