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16 de set. de 2011

Você está Crescendo em Cristo? - J. C. Ryle (1816-1900)



a. Um dos sinais do "crescimento na graça" é a humildade crescente. O homem cuja alma está "crescendo" sente mais a própria indignidade e pecaminosidade, a cada ano que passa. Ele se dispõe a dizer, juntamente com Jó: "Sou indigno..!', ou com Abraão: "...sou pó e cinza", ou com Jacó: "...sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade, que tens usado para com teu servo", ou com Davi: "Mas eu sou verme, e não homem..!', ou com Isaías: "...sou homem de lábios impuros..!', ou com Pedro: "Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador" (Jó 40:4; Gn. 18:27; 32:10; SI. 22:6; Is. 6:5; Lc 5:8).


Quanto mais um crente aproxima-se de Deus, tanto mais ele percebe a santidade e as perfeições de Deus, tanto mais tornar-se-á sensível para com a sua própria indignidade e imperfeições. Quanto mais ele avança na sua jornada para o céu, tanto mais compreende o que Paulo quis dizer, quando afirmou: "Não que eu... tenha já obtido a perfeição" "...eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo..!' "A mim, o menor de todos os santos..!' "...Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores dos quais  eu sou o principal" (Fp. 3:12; I Co. 15:9; Ef. 3:8; I Tm. 1:15).


Quanto mais maduro para a glória estiver um crente, à semelhança do milho maduro, tanto mais inclinará a cabeça para o chão. Quanto mais brilhante e clara for a sua luz, tanto mais perceberá suas falhas e fraquezas, aninhadas em seu próprio coração. Quando ele, a princípio, converteu-se, diria que percebia bem pouco dessas falhas e fraquezas, em confronto com o que percebe agora. Quer alguém saber se está crescendo na graça? Verifique, em seu próprio interior, se a sua humildade está aumentando.


b.      Um outro sinal do "crescimento na graça" é a fé e o amor crescentes ao Senhor Jesus Cristo. O homem que está "crescendo", a cada ano que passa encontra mais razões para descansar em Cristo, regozijando-se cada vez mais no fato que tem um tão grande Salvador. Não há dúvida que o crente, ao converter-se, pôde ver muita coisa em Cristo. A sua fé agarrou-se na expiação que há em Cristo, e isso lhe infundiu esperança.

Porém, à medida em que ele vai crescendo na graça, também vai percebendo milhares de aspectos, na pessoa de Cristo, que a princípio nem ao menos sonhava. Seu amor e Seu poder, Seu coração e Suas intenções, Seus ofícios como nosso Substituto, Intercessor, Sacerdote, Advogado, Médico, Pastor e Amigo vão-se desdobrando diante da alma que cresce, de uma maneira indescritível. Em suma, tal crente descobre em Cristo tudo aquilo que a sua alma necessita, embora, no começo de sua vida cristã não conhecesse nem a metade de tudo isso. Quer alguém saber se está crescendo na graça? Examine o seu interior para verificar se o seu conhecimento de Cristo está aumentando.


c.       Uma outra marca de crescimento na graça é uma amadurecida santidade de vida e conversação. O homem cuja alma está em crescimento adquire um maior domínio sobre o pecado, o mundo e o diabo.


Torna-se mais cuidadoso com o seu temperamento, palavras e ações. É sempre mais vigilante sobre a própria conduta, em cada aspecto da vida. Esse homem é o que mais se esforça por estar conformado à imagem de Cristo em todas as coisas; e segue-O tanto como seu exemplo pessoal quanto confia nEle como seu Salvador. Não se satisfaz com antigas conquistas e a graça já antes dispensada. Esquece as coisas que para trás ficaram e marcha para as que estão à frente, fazendo de "Alto!", "Superior!", "Avançado!" e "Progressivo!" o seu contínuo alvo (Fp. 3:13).

Na terra ele anseia e almeja ter uma vontade mais inteiramente uníssona com a vontade de Deus. O seu principal objetivo no céu, além de estar na presença de Cristo, é a completa separação de todo o pecado. É  possível alguém saber se está crescendo na graça? Prossiga em sua busca por santidade.


d. Ainda outro sinal de "crescimento na graça" é a crescente espiritualidade nos gostos e na mente. O homem cuja alma está "crescendo" interessa-se mais profundamente pelas realidades espirituais a cada ano que passa. Não negligencia os seus deveres para com o mundo. Cumpre fiel, diligente e conscienciosamente cada relação da vida, em seu próprio lar ou com as pessoas de fora. Porém, o que ele mais aprecia são as realidades espirituais. Caminhos, modas, diversões e recreações do mundo ocupam um lugar cada vez menor em seu coração.


Ele não chega a condenar essas coisas como diretamente pecaminosas, e nem afirma que aqueles que se ocupam delas estão indo para o inferno. Tão-somente sente que elas exercem uma atração cada vez mais fraca sobre os seus afetos, e, gradualmente, elas parecem menores e mais frívolas aos seus olhos. Companheiros espirituais, ocupações espirituais, diálogos de natureza espiritual são as coisas que parecem ir adquirindo um valor sempre crescente para ele. Deseja alguém saber se está crescendo na graça? Examine o seu próprio coração para averiguar se os seus gostos estão se espiritualizando de maneira crescente.

Fonte: [Josemar Bessa]

1 de set. de 2011

O Fruto do Orgulho Espiritual – John MacArthur




Não é nenhuma surpresa que Lucas 4.28 registre que os judeus presentes na sinagoga, "ouvindo estas coisas, se encheram de ira". Nada é pior do que orgulho espiritual, pois é uma barreira que as pessoas egoisticamente erguem e que os separa de sua própria salvação. O Senhor afirmou: "Eu vim para salvar e esta é a verdade. Mas apenas posso salvar os pobres, os prisioneiros, os cegos e os oprimidos. Não importa que seja uma viúva gentia ou um leproso sírio. Importa apenas que a pessoa perceba sua bancarrota e sua indigência e que venha a mim como aquele odiado coletor de impostos que batia em seu peito cheio de culpa e implorava: 'O Deus, sê propício a mim, pecador!' (Lc 18.13), ou o homem que disse: 'Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!' (Mc 9.24). Essa pessoa pode não saber tudo o que existe para saber, e sua fé pode não ser plena, mas se ela apenas for em sua desesperança e disser: 'Eu não tenho escolha. Eu sei quem sou e sei o que o senhor pode fazer por mim', então ela saberá que eu sou o Messias".

Não podemos conhecer a Jesus como Messias até que nos submetamos a ele. Eu não pude conhecê-lo como meu Salvador enquanto não entreguei minha vida a ele. Então eu soube. Desfilar um número infinito de milagres na minha frente não teria provado nada. Os milagres não vêm ao caso. Nunca saberemos se Jesus pode salvar nossa alma do inferno, dar-nos vida nova, recriar nossa alma, colocar ali o seu Espírito Santo, perdoar nossos pecados e levar-nos para o céu até que tenhamos entregado nossa vida inteiramente a ele. Isso é auto-renúncia, tomar a cruz e segui-lo obedientemente.

Todos os ouvintes de Jesus podiam concluir qual era o ponto vital dessa história: eles valiam menos que os gentios. Estavam furiosos com Jesus porque ele insistira em que, a não ser que eles se considerassem em nada melhor do que um terrorista sírio e leproso, em nada melhor que uma viúva gentia pagã, em nada melhor que os proscritos, eles não receberiam salvação. E isso era absolutamente intolerável para aqueles assíduos frequentadores da sinagoga du¬rante a vida inteira — judeus sérios e devotos. Era impensável porque estavam absolutamente comprometidos com sua autojustificação, fruto da crença de que poderiam obter sua salvação pelos seus próprios méritos e religião. Como poderiam eles ser humildes quando conseguiam sua entrada no céu pelo fato de serem judeus, leais à moralidade tradicional e à lei religiosa?

Assim, como está escrito em Lucas 4.29, eles "se levantaram". De repente o tumulto explodiu na sinagoga lotada. Agarraram Jesus com a violência e o ódio cego de uma turba de linchadores e saíram da cidade vociferando até a beirada de um precipício. Estavam prontos para lançar Jesus lá de cima e vê-lo arrebentar-se contra as pedras lá embaixo. Deuteronômio 13 dava aos judeus a licença para matar um falso profeta. Estavam tão entrincheirados em seu orgulho hipócrita, tão pouco dispostos a reconhecer seu pecado que, quando Jesus finalmente os visitou, eles tentaram matá-lo. Depois de esperar durante tanto tempo pelo seu Messias e Rei prometido, eles preferiam destruí-lo a permitir que ele ameaçasse sua autojustificação.

Sempre termina assim, embora não de modo tão violento. Há apenas uma razão pela qual as pessoas que conhecem a verdade do evangelho não se sintam dispostas a arrepender-se e crer. É porque não querem considerar-se como pobres, prisioneiras, cegas e oprimidas. Não há nenhuma relação com o estilo de música que sua igreja oferece, com as dramatizações que são montadas ou com a qualidade de um espetáculo de feixes de laser. Mas tem tudo a ver com a morte espiritual e a cegueira do orgulho. Deus não oferece nada àqueles que estão satisfeitos com sua própria condição, a não ser julgamento. Se você não acha que está a caminho do inferno, não pensa que necessita de perdão, você não valoriza o evangelho da graça.

Segundo o próprio entendimento deles, esses judeus da sinagoga de Nazaré eram os respeitáveis. Eles eram os piedosos, os escolhidos, os verdadeiros adoradores, os leais à Lei, os cerimonialistas, os participantes da aliança. Os gentios eram os miseráveis idólatras, os indigentes proscritos. Os judeus nunca poderiam considerar-se como espiritualmente viúvos ou leprosos. Religiosos como eram, os vizinhos, amigos e parentes de Jesus odiaram tanto o que ele disse que tentaram matá-lo. Odiaram a mensagem de modo tão violento porque se recusavam ser humilhados. Não podemos pregar salvação, conduzir alguém à salvação nem tampouco sermos nós mesmos salvos a não ser que ' estejamos dispostos a ser humilhados e a reconhecer nossa condição pecaminosa. Novamente é uma questão de auto-renúncia, não é?

Eles tentaram matá-lo, mas não tinham poder para tanto, porque não era o método de Deus e não era sua hora. Lucas 4.30 descreve um momento sobrenatural, calmo: "Jesus, porém, passando por entre eles, retirou-se". Não sabemos como aconteceu. Mas, de alguma maneira miraculosa, ele simplesmente desapareceu. Eis o milagre que eles exigiram, mas o milagre o retirou do meio deles, simbolizando o julgamento que trouxeram sobre si mesmos por sua incredulidade cheia de ódio. Que tristeza. O que poderia ter sido - perdão e plenitude de alegria para sempre - eles recusaram.

E você? Você quer saber se Jesus é realmente aquele que ele disse ser? Em primeiro lugar, é necessário confrontar-se com seu diagnóstico sobre sua condição espiritual. Confesse sua absoluta pecaminosidade. Negue-se a si mesmo, e entregue sua vida a ele. Esse é o único caminho mediante o qual você poderá saber. Você se considera um entre os pobres, prisioneiros, cegos e oprimidos? Se sua resposta é não, você pode testemunhar todos os milagres debaixo do sol, reais ou falsos, pode ver todo o desfile de testemunhos, e nada o convencerá. Há apenas um caminho para saber que Jesus pode salvar sua alma do inferno, mudar sua vida e levá-lo para o céu com todos os pecados perdoados. Esse único caminho é ser suficientemente honesto e estar desesperado para admitir o seu pecado. Esse é o único tipo de pessoa que Jesus pode salvar. Tome sua vida pobre e iníqua, entregue-a nas mãos dele e veja o que ele pode fazer com ela. Isso é o que você deve fazer, e esse é o convite que temos para proclamar.


Fonte: [Josemar Bessa]

31 de ago. de 2011

Teísmo Aberto e o problema do mal


Por Leonardo Gonçalves
“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” Isaías 45.7

Quando falamos de teísmo aberto no Brasil, é importante mencionar que nem todo mundo que defende, ou que simplesmente crê nas suas doutrinas, se declara teísta aberto. Na verdade, a maioria das pessoas nem sabem o que isso significa. Muitas delas apenas estão buscando respostas para perguntas, tais como “por que há tanta dor e sofrimento no mundo?”, ou “por que coisas ruins acontecem à pessoas boas?” (esta última pergunta é o título do famoso livro do rabino Harold Krushner, um teísta aberto declarado e grande propagador destas doutrinas).
O sofrimento é uma coisa dura de digerir. Lidar com o sofrimento (o nosso e o alheio) é mesmo desconfortante. Falar de um Deus bom em tempos de catástrofes, terremotos, furacões e epidemias, é uma tarefa difícil. Porém, a teologia, a fim de ser bíblica, não pode estar baseada no que a gente pensa ou sente, mas naquilo que Deus diz. Como escrevi na época em que aconteceu aquele desabamento horrível em Teresópolis, “se a sua teologia muda de acordo com o que acontece no mundo, então ela não está baseada em Deus, mas no mundo”.
Assim, o que está em jogo aqui são as nossas convicções. Ora, quando somos confrontados com o mal, a dor, uma perda prematura, um grande sofrimento, traição, etc, nossa fé é posta à prova. E é isso que acontece todas as vezes que um grande mal acomete o nosso mundo: Somos tentados a questionar Deus, e até mesmo a duvidar dele. Outros, em meio a esse aparente paradoxo (a existência de um Deus bom que permite o mal, sendo capaz de usá-lo para obter um fim bom, redimindo a dor no Final), acabam criando outra espiritualidade e também outra divindade, cheia de amor, porém oca em poder. Dizem que Deus não tem nada a ver com terremotos ou tsunamis, e que na verdade ele foi pego de surpresa por tudo isso. É mais ou menos assim que surge o “teísmo aberto”.
Agora, pense um instante comigo: Tá bem que não podemos ser insensíveis e frios ao tratar o sofrimento das pessoas, mas “que direito tenho eu ou qualquer outra criatura de dizer que Deus não pode ter um propósito ao permitir o mal no mundo, e até mesmo usá-lo, com intuito de promover um bem maior?”. Por acaso não é a própria bíblia que declara que a “nossa leve e momentânea tribulação produz um peso excelente de glória?” (2Co 4.17), e que “todas as coisas (sim, TODAS as coisas!) cooperam para bem dos que amam a Deus, e que são chamados por seu decreto”? (Rm 8.28)
Sim, o mal existe no mundo, mas não está fora de controle. Deus, o Soberano do universo, é quem permite que o mal atue no mundo, e através da dor e do sofrimento, nos ensina preciosas lições. Se o escritor aos Hebreus diz que até mesmo Jesus “aprendeu por meio do sofrimento” (Hb 5.8), quanto mais nós, criaturas tão pequenas, acaso não podemos também aprender com a dor?
O sofrimento existe e opera em conformidade aos propósitos de Deus. Por experiência, podemos dizer que ele tem efeitos punitivos e pedagógicos. Punitivos, quando Deus se vale dele para disciplinar a nossa rebeldia. Pedagógicos, quando Deus o utiliza para ensinar lições. (Hb 12.6)
Amados, por pior que seja o sofrimento, sempre podemos aprender dele. Eu também fiquei chocado com o tsunami do Japão, me sensibilizei com as famílias de Teresópolis e chorei pelos pais dos meninos de Realengo. E em meio a tudo isso, aprendi: Aprendi que a vida é delicada, curta mesmo. Ali, em meio aquela catástrofe, pude perceber o quanto nós somos frágeis, vulneráveis. Aprendi a não presumir nada do dia de amanha, pois ele pode não chegar. E por último, aprendi que devo aproveitar ao máximo os meus dias e viver intensamente para a glória de Deus, para que no dia que a morte bater na minha porta – assim como bateu em centenas de portas no Japão, em Teresópolis, em Angra dos Reis e Realengo – eu possa dizer como Paulo: “combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé”.
E se você não consegue digerir a idéia de que até o mal está incluído na soberania de Deus e pode ser usado por ele para produzir um bem maior, raciocine comigo:
“Se a morte de Cristo (o maior crime da história da humanidade, a maior crueldade já idealizada pelos homens: assassinar o Filho de Deus) foi permitida por Deus, planejada por ele e redundou na maior bênçao da história do mundo… Sim, se a maior tragédia e vileza humana, a morte do Filho de Deus, foi revertida no maior beneficio já concedido à criatura pecadora… Então porque as nossas pequenas mazelas cotidianas não podem estar também incluídas no seu senhorio e ser usadas por ele a fim de produzir um bem maior?”
Fonte:[ Púlpito Cristão ]  Via: [Bereianos]

27 de ago. de 2011

O Espírito Santo e Nós - C. H. Spurgeon


Primeiro, trate-o como deve ser tratado. Adore-o como o Senhor Deus digno de adoração. Nunca trate o Espírito Santo como se fosse um objeto, nem fale dele como se fosse uma doutrina, uma influência ou um mito ortodoxo. Reverencie o Espírito, ame-o, e creia nele com confiança familiar, porém reverente. Ele é Deus, deixe-o ser Deus para você.

            Aja em conformidade com a obra dele. O marinheiro que vai para o leste não pode criar os ventos a seu bel-prazer, mas ele sabe quando os ventos alísios sopram e aproveita a estação para imprimir velocidade a sua embarcação. Saia ao mar em santo empreendimento quando o vento celestial está a seu favor. Aproveite a maré sagrada enquanto ela avança. Aumente suas reuniões quando sente que o Espírito de Deus as abençoa. Insista na verdade com mais veemência que nunca, quando o Senhor abre ouvidos e corações para aceitá-la. Você logo aprenderá a conhecer quando há orvalho em volta--valorize a graciosa visitação. O fazendeiro diz: "Trabalha enquanto é dia". Você não pode fazer o sol brilhar; isso está completamente fora de seu alcance; mas você pode usar o sol enquanto brilha. "Assim que você ouvir um som de passos por cima das amoreiras, saia rapidamente" (2Sm 5.24). Seja diligente na estação e fora dela, mas em uma estação cheia de vida seja duplamente laborioso.

            Sempre ao começar, continuar e terminar qualquer e toda boa obra, dependa conscientemente e em verdade do Espírito Santo. Até a consciência de sua necessidade dele, ele precisa lhes dar, e as orações com que suplicam por sua presença devem partir dele. Vocês estão empenhados em um trabalho tão espiritual, tão acima de todo poder humano que esquecer-se do Espírito é certeza de derrota. Façam o Espírito Santo ser o sine qua non de seus esforços, e digam a ele: "Se não fores conosco, não nos envies" (Êx 33.15).

            Descansem apenas nele e reservem para ele toda a glória. Lembrem-se especialmente disso, porque esse é um ponto delicado para ele: ele não dará sua glória a outro. Tenham o cuidado de louvar o Espírito de Deus do fundo do coração, e gratamente se admirem de que ele aceite trabalhar a seu lado. Agradem-no ao glorificar Cristo. Honrem-no ao ceder sua pessoa aos impulsos dele e ao odiar tudo que o entristece. A consagração de todo seu ser é o melhor salmo que pode fazer em louvor dele.

            Há algumas coisas de que gostaria que se lembrassem, depois termino. Lembrem-se, o Espírito Santo tem seus meios e métodos, e há algumas coisas que ele não fará. Lembrem-se, ele não faz nenhuma promessa de abençoar acordos. Se fizermos acordo com o erro ou o pecado, é por nossa conta e risco. Se fazemos qualquer coisa sobre a qual não temos clareza, se manipulamos a verdade ou a santidade, se somos amigos do mundo, se fazemos provisão para carne, se pregamos com desânimo ou fazemos pacto com engana-dores, não temos nenhuma promessa de que o Espírito Santo está conosco. A grande promessa vai em outra direção: "'Saiam do meio deles e separem-se', diz o Senhor. 'Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas', diz o Senhor todo-poderoso" (2Co 6.17,18).

            No Novo Testamento apenas em um único lugar, com exceção do Livro de Apocalipse, Deus é chamado de "Senhor todo-poderoso" (2Co 6.18). Se você quer saber que grandes coisas o Senhor pode fazer como Senhor Todo-Poderoso, separe-se do mundo e daqueles que apostatam da verdade. O título "Senhor todo-poderoso" é citado do Antigo Testamento. "El Shaddai", Deus Todo-suficiente, o Deus de muitos ventres. Não conheceremos o poder supremo de Deus para suprir todas nossas necessidades até que cortemos de vez a ligação com tudo que não está de acordo com a mente dele.

            Abrão foi grande quando disse ao rei de Sodoma: "Não aceitarei nada"--, uma veste babilônica ou uma cunha de ouro? Não, não. Ele disse: "Não aceitarei nada do que lhe pertence, nem mesmo um cordão ou uma correia de sandália" (Gn 14.23). Esse foi o "corte pela raiz". O homem de Deus não aceita ter nada com Sodoma nem com a falsa doutrina. Se você vir qualquer coisa má, corte-a pela raiz. Afaste-se daqueles que afastaram a verdade. Então você está preparado para receber a promessa, não antes disso.

            Irmãos amados, lembrem-se, onde houver grande amor, com certeza, haverá grande ciúme. "Amor é tão forte quanto a morte" (Ct 8.6). O que vem em seguida? "O ciúme é tão inflexível quanto a sepultura". "Deus é amor" (1Jo 4.8,16) e exatamente por essa razão "o SENHOR, o seu Deus, é Deus zeloso; é fogo consumidor" (Dt 4.24). Passe longe de tudo que contamina ou entristece o Espírito Santo; pois se ele estiver aborrecido conosco, logo passaremos vergonha diante do inimigo.

            A seguir, observe que ele não faz nenhuma promessa à covardia. Se você permitir que o temor do homem o governe e desejar se salvar do sofrimento ou ridículo, encontra pouco conforto na promessa de Deus: "Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá" (Mt 16.25). As promessas do Espírito Santo para nós, em nossa guerra, são para aqueles que se portam como homens e pela fé são tornados corajosos na hora do conflito. Desejo que cheguemos a esse ponto, desprezando o ridículo e a calúnia.

            Ah, esquecer de si mesmo como aquele mártir italiano de quem Foxe fala! Condenaram-no a ser queimado vivo, e ele ouviu a sentença calmamente. Mas queimar mártires, por mais deleitável que seja também é caro; e o prefeito da cidade não tinha interesse em pagar pela lenha, e os sacerdo-tes que o haviam acusado também queriam fazer o trabalho sem ter despesa. Por isso, tiveram uma briga feia, e lá estava de pé e quieto o pobre homem para quem essa lenha era destinada, ouvindo as mútuas recriminações daquelas autoridades. Vendo que não podiam resolver o assunto, ele disse: "Senhores, acabarei com sua disputa. É pena que qualquer dos senhores precisem gastar tanto com lenha para me queimar, assim, por amor a meu Senhor, pagarei pela lenha que me vai queimar, se me permitem."

            Eis um lindo exemplo de escárnio, bem como de mansidão. Não sei se teria pago aquela conta; mas tenho me sentido inclinado a sair um pouco do caminho para ajudar os inimigos da verdade, para que encontrem combustível para suas críticas contra mim. Sim, sim; serei ainda pior, lhes darei mais para reclamar. Por amor a Cristo, vou até o fim com a controvérsia e nada farei para aquietar a ira deles. Irmãos, se vocês adornarem um pouco, se tentarem salvar um pouco de sua reputação junto aos homens da apostasia, isso é ruim para vocês. Aquele que se envergonha de Cristo e de sua Palavra nesta geração má verá que, no fim, Cristo se envergonha dele.

            Serei muito breve sobre esses pontos. Depois, lembre-se, o Espírito Santo nunca põe seu selo sobre a mentira. Nunca! Se o que você pregar não for verdade, Deus não reconhecerá isso. Prestem muita atenção a isso.

            Além disso, o Espírito Santo nunca põe sua assinatura em um papel em branco.Isso seria falta de prudência no homem, e o santo Senhor não faria tal tolice. Se não pregarmos uma doutrina clara com discurso inteligível, o Espírito Santo não assinará tagarelice vazia. Se não fizermos claramente nossa apresentação de Cristo, e de Cristo crucificado, podemos dar adeus ao sucesso verdadeiro.

            Depois, lembre-se, o Espírito Santo nunca sanciona o pecado; e abençoar o ministério de alguns homens seria sancionar o mau caminho. "Sejam puros, vocês, que transportam os utensílios do Senhor" (Is 52.11). Que seu caráter corresponda a seu ensino, e que sua igreja seja purgada dos transgressores que erram abertamente, para que o Espírito Santo não rejeite seu ensino, não pelo ensino em si, mas por causa do mau cheiro da vida impura que o desonra.

            Lembre-se, também, ele nunca incentiva o ócio. O Espírito Santo não nos resgatará da negligência voluntária da Palavra de Deus e do estudo. Se passamos a semana toda de lá para cá, sem nada fazer, não podemos subir ao púlpito e pensar que o Senhor está lá para nos dizer sobre o que devemos falar. Se fosse prometido auxílio a tais pessoas, então quanto mais preguiçoso o homem, melhor seria o sermão. Se o Espírito Santo trabalhasse apenas por meio de oradores improvisados, quanto menos lêssemos nossas Bíblias e medi-tássemos sobre elas, tanto melhor. Se fosse errado citar livros, não seria ordenado: "Dedique-se à leitura" (1Tm 4.13). Tudo isso é um absurdo óbvio, e nenhum de vocês acredita em tal ilusão. Com certeza, somos obrigados a meditar muito e nos entregar inteiramente à Palavra de Deus e à oração, e quando nos dedicamos a essas coisas podemos esperar a aprovação e cooperação do Espírito. Devemos preparar o sermão como se tudo dependesse de nós e confiar no Espírito de Deus, sabendo que tudo depende dele. O Espírito Santo não envia ninguém à colheita para dormir entre os feixes, mas para suportar o peso do trabalho e o calor do dia. É bom orarmos a Deus para que mande mais"trabalhadores" para o vinhedo, pois o Espírito está com a força dos lavradores, mas não é amigo dos ociosos.

            Mais uma vez, pondere, o Espírito Santo não nos abençoa para sustentar nosso orgulho. É possível que desejemos uma grande bênção para que sejamos considerados grandes homens? Isso atrapalha nosso êxito: a corda do arco está avariada e a flecha cai para o lado. O que Deus faz com homens orgulhosos? Ele os exalta? Creio que não. Herodes fez um discurso eloqüente e vestiu uma toga de prata reluzente que brilhava ao sol, e quando o povo viu suas vestimentas e ouviu sua voz charmosa, exclamou: "É voz de deus, e não de homem" (At 12.22), mas o Senhor o feriu, e ele foi comido por vermes. Vermes têm o direito prescritivo de comer carne orgulhosa; e quando nos tornamos muito poderosos e grandes, os vermes esperam fazer de nós uma refeição. "O orgulho vem antes da destruição; o espírito altivo, antes da queda" (Pv 16.18). Conserve-se humilde se quiser ter consigo o Espírito de Deus. O Espírito Santo não tem prazer na oratória inflamada do soberbo. Como poderia? Você o imagina sancionando linguagem bombástica? "Ande humildemente com o seu Deus" (Mq 6.8), Ó, Pregador! pois não podes andar com ele de nenhuma outra maneira; e se não andar com ele, teu andar será em vão.

19 de ago. de 2011

Não depende de quem quer – J. I. Packer


Deus escolhe os Seus!

Pois ele [Deus] diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. " Assim, pois, não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.( Rm 9.15,16)

O verbo eleger significa "selecionar ou escolher". A  doutrina bíblica da eleição consiste em que, antes da Criação, Deus selecionou da raça humana, antevista como decaída, aqueles a quem Ele redimiria, traria à fé, justificaria e glorificaria em Jesus Cristo e por meio dele (Rm 8.28-39; Ef 1.3-14; 2 Ts 2.13,14; 2 Tm 1.9,10). Esta escolha divina é uma expressão da graça livre e soberana, porque ela é não constrangida e incondicional, não merecida por qualquer coisa naqueles que são seus objetos. Deus não deve aos pecadores nenhuma misericórdia de qualquer espécie, mas somente condenação; por isso, é surpreendente, e razão de sempiterno louvor, que Ele tenha decidido salvar alguns de nós; e louvor duplicado porque sua escolha incluiu o envio de seu próprio Filho para sofrer, como portador do pecado, pelos seus eleitos (Rm8.32).

A doutrina da eleição, como toda verdade acerca de Deus, envolve mistério e, algumas vezes, incita à controvérsia. Mas na Escritura é uma doutrina pastoral, incluída ali para ajudar os cristãos a verem quão grande é a graça que os salva, conduzindo-os à humildade, confiança, alegria, louvor, fidelidade e santidade como resposta. É o segredo de família dos filhos de Deus. Não sabemos quem mais Ele escolheu entre aqueles que ainda não crêem, nem tampouco a razão por que nos escolheu em particular.

O que de fato sabemos é que, primeiro, se não tivéssemos sido escolhidos para a vida, não seríamos crentes agora (pois somente o eleito é trazido à fé), e, em segundo lugar, como crentes eleitos podemos confiar que Deus completará em nós a boa obra que Ele começou (1 Co 1.8,9; Fp E6; 1 Ts 5.23,24; 2 Tm 1.12; 4.18). Assim, o conhecimento da eleição por parte de uma pessoa traz conforto e alegria.

Pedro nos diz que devemos "confirmar a [nossa] vocação e eleição" (2 Pe 1.10) — isto é, certificá-la. A eleição é conhecida por seus frutos. Paulo sabia da eleição dos tessalonicenses por sua fé, esperança e amor, a transformação interna e externa que o evangelho tinha operado em sua vida (1 Ts 1.3-6). Quanto mais as qualidades para as quais Pedro exortou seus leitores aparecerem em nossa vida (virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade, amor: 2 Pe 1.5-7), mais seguros estaremos da própria eleição que nos foi concedida.

Os eleitos são, de um ponto de vista, a dádiva de Deus ao Filho (Jo 6.39; 10.29; 17.2,24). Jesus testifica que veio a este mundo especificamente para salvá-los (Jo 6.37-40; 10.14-16,26-29; 15.16; 17.6-26; Ef 5.25-27), e qualquer relato de sua missão deve enfatizar isto.

Reprovação é o nome dado à eterna decisão de Deus a respeito dos pecadores que Ele não escolheu para a vida. Sua decisão é, em essência, não para mudá-los, como os eleitos são destinados a ser mudados, mas deixá-los ao pecado, como em seus corações eles já desejam fazer, e finalmente para julgá-los como merecem pelo que têm feito. Quando em casos particulares Deus os entrega a seus pecados (isto é, remove as restrições à prática de coisas desobedientes que desejam fazer), isto já é o começo do julgamento. Ele se chama "endurecimento" (Rm 9.18; 11.25; cf. SI 81.12; Rm 1.24,26,28), que leva inevitavelmente culpa maior.

A reprovação é uma realidade bíblica (Rm 9.14-24; 1 Pe 2.8), mas não a que se relaciona diretamente com a conduta cristã. Até onde os cristãos saibam, os reprovados não têm face, não nos cabendo tentar identificá-los. Devemos, antes, viver à luz da certeza de que qualquer um pode ser salvo, se ele ou ela arrepender-se e colocar sua fé em Cristo.

Devemos ver todas as pessoas que encontramos como possivelmente incluídas entre os eleitos.

18 de ago. de 2011

A Predestinação Divina – J. I. Packer



"Eu vos tenho amado", diz o SENHOR; "mas vós dizeis: Em que nos tens amado?' "Não foi Esaú irmão de Jacó?" — disse o SENHOR; "todavia amei a Jacó, porém aborreci a Esaú... " (Ml 1.2,3)

Os quarenta ou mais escritores que produziram os sessenta e seis livros da Escritura no espaço de tempo aproximado de mil e quinhentos anos viram-se, e a seus leitores, envoltos na realização do propósito soberano de Deus para este mundo, propósito que o levou a criar, que o pecado depois rompeu, e que sua obra de redenção está presentemente restaurando. Esse propósito era, e é, em essência, a incessante expressão e gozo do amor entre Deus e suas criaturas racionais — amor manifesto em sua adoração, louvor, gratidão, honra, glória e serviço prestados a Ele, e na comunhão, privilégios, alegrias e dádivas que Ele lhes dá.

Os escritores lançam um olhar àquilo que já se fez para promover o plano salvífico no planeta terra danificado pelo pecado, e olham à frente o dia de sua completitude, quando o planeta terra será recriado com glória inimaginável (Is 65.17-25; 2 Pe 3.10-13; Ap 21.1-22.5). Eles proclamam Deus como o todo-poderoso Criador-Redentor e se apoiam constantemente nas multiformes obras da graça que Deus realiza na história para assegurar para si um povo, uma grande companhia de indivíduos reunidos, com os quais seu propósito original de dar e receber amor possa ser cumprido. E os escritores insistem que, como Deus se mostra absoluto no controle dos fatos ao conduzir seu plano ao ponto atingido no momento em que eles escrevem, assim Ele continuará com o total controle, executando todas as coisas de acordo com sua própria vontade, completando assim seu projeto redentor. É dentro desta moldura de referência (Ef 1.9-14; 2.4-10; 3.8-11; 4.11-16) que se inserem as questões sobre predestinação.

Predestinação é uma palavra frequentemente usada para significar a preordenação de Deus de todos os eventos da história universal, passados, presentes e futuros, e este uso é bem apropriado. Contudo, na Escritura e na linha teológica prevalecente, predestinação significa especificamente a decisão de Deus, tomada na eternidade antes da existência do mundo e de seus habitantes, com respeito ao destino final dos pecadores individuais. De fato, o Novo Testamento usa as palavras predestinação e eleição (ambas sinônimas), somente para indicar a escolha divina de pecadores particulares para a salvação e a vida eterna (Rm 8.29; Ef 1.4,5,11).

Muitos, entretanto, têm chamado a atenção para o fato de a Escritura também atribuir a Deus uma decisão antecipada sobre aqueles que não se salvarão (Rm 9.6-29; 1 Pe 2.8; Jd 4), e assim tornou-se comum na teologia protestante definir a predestinação de Deus como incluindo tanto a decisão de salvar alguns do pecado (eleição) como, paralelamente, sua decisão de condenar os restantes por seu pecado (reprovação).

À pergunta, "Sobre que base Deus escolhe indivíduos para a salvação?", responde-se ocasionalmente: com base em sua presciência de que, quando se defrontassem com o evangelho, eles escolheriam Cristo como seu Salvador. Nessa resposta, presciência significa uma previsão passiva da parte de Deus daquilo que os indivíduos se inclinam a fazer, sem que Ele predetermine sua ação. Porém

(a) Antever em Romanos 8.29; 11.2 (cf. 1 Pe 1.2 e 1.20, onde a Bíblia NVI traduz o grego antevisto por "escolhido") significa "amor prévio" e "designação prévia": não expressa a idéia de uma antecipação do espectador sobre o que acontecerá espontaneamente.


(b) Uma vez que todos estão naturalmente mortos em pecado (isto é, excluídos da vida de Deus e indiferentes a Ele), ninguém que ouve o evangelho jamais chegará ao arrependimento e à fé sem um toque íntimo que somente Deus pode transmitir (Ef 2.4-10). Jesus disse: "Ninguém poderá vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido" (Jo 6.65, cf. 44; 10.25-28). Os pecadores escolhem Cristo somente porque Deus os escolheu para essa escolha e os inspirou a fazê-lo pela renovação de seus corações.

Embora todos os atos humanos sejam livres no sentido de autodeterminados, nenhum deles está livre do controle de Deus, conforme seu eterno propósito e preordenação.

Os cristãos devem, portanto, agradecer a Deus sua conversão, olhar para Ele para que os guarde na graça para a qual os trouxe, e confiantemente esperar seu triunfo final, de acordo com seu plano.


Fonte: [Josemar Bessa]

16 de ago. de 2011

Qual a causa da vocação eficaz? – Thomas Watson (1620-1686) Posted: 06 Jul 2011 12:00 PM PDT



O amor eletivo de Deus. "E aos que predestinou, a esses também chamou" (Rm 8.30). A eleição é a causa originária de nossa vocação. Ele não vocaciona alguns para esse chamado celestial porque são mais valorosos que outros, visto que estamos todos em nosso sangue (Ez 16.6). Que valor há em nós? Que valor havia em Maria Madalena, de quem foram expulsos sete demônios? Que valor havia nos coríntios quando Deus começou a chamá-los por seu evangelho? Eram fornicadores, efeminados, idolatras. "Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes" (ICo 6.11). Antes da vocação eficaz não éramos somente pessoas "fracas" (Rm 5.6), mas "inimigos" de Deus (Cl 1.21).

A base da vocação é a eleição.

Quais são as qualificações dessa vocação?

i. A vocação eficaz é um chamado poderoso. "As palavras de Deus são obras", disse Lutero. Deus, ao chamar um pecador a si mesmo, exercita um infinito poder. Ele não somente se utiliza de sua voz, mas também de seu braço. O apóstolo fala da suprema grandeza de seu poder, que ele exercita para com aqueles que crêem (Ef 1.19). Deus cavalga conquistando na carruagem de seu evangelho. Ele conquista o orgulhoso de coração. Ele muda a vontade, mesmo encastelada em uma muralha fortificada, de modo que ela ceda lugar e se submeta à sua graça. Ele faz o coração de pedra sangrar. Quão poderosa é essa vocação.

Por que, então, os arminianos falam sobre uma persuasão moral, na qual Deus, ao converter um pecador, só persuade moralmente e nada mais? Seria o caso em que Deus apresentaria suas promessas aos homens para instigá-los ao bem, ao passo que suas ameaças servissem apenas para detê-los de fazer o mal, seria somente isso? As persuasões morais sozinhas não são suficientes para uma vocação eficaz. Como a proposição pura das promessas e das ameaças pode converter uma alma? Isto não acrescenta nada ao novo nascimento nem ao poder que ressuscitou Cristo da morte. Deus não somente persuade, mas também capacita (Ez 36.27).

Se a conversão fosse somente persuadir moralmente, isto é, apresentar o bem e o mal diante dos homens, então Deus não usaria tanto poder para salvar os homens nem o diabo o usaria para destruí-los. Satanás não somente apresenta a tentação diante dos homens, mas coopera com suas tentações. Por isso, diz-se dele que "atua nos filhos da desobediência" (Ef 2.2). "A palavra grega para atuar significa imperar", disse Camerário.85 Esse é o poder que Satanás tem para levar homens ao pecado. Então, o poder de Deus na conversão não deveria ser mais que o de Satanás na sedução? A vocação eficaz é grande e poderosa. Deus atua com uma energia divina, ou melhor, com um tipo de onipotência. É uma vocação poderosa a tal ponto que a vontade do homem não tem poder suficiente para resistir.

ii. A vocação eficaz é um chamado superior. "Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus" (Fp 3.14). É um chamado superior, primeiramente porque somos chamados a exercícios superiores da vida cristã: ser crucificado para o mundo, viver pela fé, fazer trabalho de anjos, amar a Deus, ser membros vivos de seu louvor, manter comunhão com o Pai e com o Filho (1Jo 1.3).
Além disso, é um chamado superior porque somos chamados a altos privilégios: adoção e justificação; para sermos reis e sacerdotes para com Deus. Somos chamados à comunhão dos anjos, para sermos co-herdeiros com Cristo (Hb 12.22; Rm 8.17). Os que são chamados são candidatos ao céu, são príncipes em todas as terras, embora príncipes disfarçados (SI 45.16).

Por fim, é um chamado superior porque é um chamado imutável, "porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis" (Rm 11.29), isto é, aqueles dons que fluem da eleição (como a vocação e a justificação) são irrevogáveis. Deus se arrependeu de ter chamado Saul para ser um rei, mas nunca se arrepende de chamar um pecador para ser um santo.

Fonte: [Josemar Bessa]

12 de ago. de 2011

Quando jogamos pérolas aos porcos – John Stott


A Lei e o evangelho

Depois que Deus fez a promessa a Abraão, ele deu a Lei a Moisés. Por quê? Simplesmente porque ele tinha de fazer as coisas piorarem antes que pudesse melhorá-las. A Lei expôs o pecado, afrontou o pecado e o condenou. O propósito da Lei era, por assim dizer, tirar a tampa da respeitabilidade do homem e expor o que ele realmente é abaixo da superfície — pecador, rebelde, culpado, sob o julgamento de Deus e sem esperança para salvar-se a si mesmo.

Hoje, deve-se permitir que a Lei faça a tarefa que Deus lhe confiou. Uma das grandes falhas da Igreja contemporânea é a tendência de abrandar o pecado e o julgamento. De maneira semelhante aos falsos profetas, nós tratamos da ferida do povo de Deus "... como se não fosse grave" (Jr 6.14; 8.11). Veja comoDietrich Bonhoeffer expõe essa ideia: "É apenas quando alguém se submete à Lei que ele pode falar da graça... Não acho que seja cristão querer chegar ao NT de forma muito rápida e direta". Jamais devemos ignorar a Lei e ir direto ao evangelho. Fazer isso é contradizer o plano de Deus na história bíblica.

Essa não é a razão pela qual o evangelho não é apreciado hoje em dia? Alguns o ignoram, outros o ridicularizam. Então, em nosso evangelismo moderno, jogamos pérolas aos porcos (e a pérola mais cara é o evangelho). As pessoas não conseguem ver a beleza da pérola, porque não têm o conceito da imundícia do chiqueiro. Nenhum homem aceita o evangelho antes que a Lei, primeiro, revele a esse homem sua própria natureza e essência. É apenas na escuridão profunda do céu noturno que as estrelas começam a aparecer, bem como também é apenas no pano de fundo escuro do pecado e do julgamento que o evangelho brilha.

Não admitimos nossa necessidade de abraçar o evangelho, para que este cure nossas feridas, antes de a Lei nos ter injuriado e derrotado. Jamais ansiaremos para que Cristo nos liberte antes de a Lei nos prender e aprisionar. Jamais buscaremos Cristo para ser justificados e viver, antes de a Lei nos condenar e matar. Jamais acreditaremos em Jesus, antes de a Lei nos levar ao desespero. Jamais nos voltaremos para o evangelho, para que este nos leve ao céu, antes de a Lei nos rebaixar até o inferno.

9 de ago. de 2011

Perturbe sua consciência com a culpa de seu desejo mau – John Owen (1616-1683)


O que significa isso e como é que pode ser efetuado? Significa que você precisa fazer mais do que meramente reconhecer a culpa do seu desejo mau. Precisa perturbar sua consciência com a culpa do seu desejo mau em particular. Como é que pode fazer isso? Pensemos sobre duas maneiras gerais e duas específicas.

1. Duas maneiras gerais:

a) Exponha sua consciência à luz escrutinadora da lei de Deus

Ore pela obra do Espírito Santo, a qual produz convicção; que Ele use a lei de Deus para lhe convencer da magnitude da sua culpa. Que o terror da lei de Deus penetre na sua consciência. Pense em como Deus seria justo se punisse cada uma das suas transgressões de Sua lei. Não permita que seu coração enganoso argumente que a lei de Deus não pode condená-lo porque você "não está debaixo da lei, e, sim, da graça" (Rom. 6:14).

Diga à sua consciência que enquanto um desejo mau que ainda não foi mortificado permanecer no seu coração, você não poderá ter uma certeza válida de que está livre do seu poder de condenação. Deus deu a lei para condenar o pecado onde quer que ele fosse encontrado. A lei de Deus foi dada para expor a culpa do pecado de um cristão tanto quanto do pecado de qualquer outra pessoa. A lei de Deus quer despertar os cristãos para a culpa do seu pecado de modo que possam humilhar-se e lidar com ele. Opor-se a que a lei de Deus perturbe sua consciência não é um bom sinal. Antes, é uma triste indicação da dureza do seu coração e do engano do pecado.
Previna-se de pensar que a libertação da penalidade da lei de Deus significa que ela não mais deve dirigir sua vida ou expor seus pecados. Este é um erro perigoso que tem arruinado muitos cristãos professos. Se você se diz pertencer ao Senhor, recuse-se a pensar dessa maneira. Antes, procure persuadir sua consciência a ouvir cuidadosamente o que a lei de Deus diz sobre seus desejos pecaminosos e práticas pecaminosas. Oh, se fizer isso, tremerá e se prostrará! Se realmente quer mortificar seus desejos pecaminosos, permita que a lei de Deus perturbe sua consciência até que esteja convencida da terrível culpa dos seus desejos pecaminosos. Não se satisfaça antes de poder dizer com o penitente Davi: "Eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim" (Sal. 51:3).

b) Permita que o evangelho condene e mortifique seus desejos pecaminosos

Pense em tudo que deve ao evangelho. Diga a si mesmo: "Deus me tem mostrado tanta graça, amor e misericórdia e o que tenho eu feito? Tenho desprezado e pisado em Sua bondade para comigo. Seria dessa maneira que demonstro meu apreço pelo amor do Pai e pelo sangue do Seu Filho? Como poderia macular o coração que Cristo morreu para limpar, e no qual o bendito Espírito Santo veio habitar? O que posso dizer ao meu amado Senhor Jesus? Será minha comunhão com Ele de tão pouca importância que eu possa deixar meu coração se encher de desejos pecaminosos a tal ponto que quase não mais exista lugar para Ele? Como posso diariamente "entristecer o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção" (Ef. 4:30). Considere estas coisas cada dia e, com a ajuda do Espírito Santo, você se sentirá enojado com a maldade dos seus desejos pecaminosos e desejará mortificá-los.

2. Duas maneiras específicas:
a) Pense na infinita paciência de Deus e na Sua longanimidade para com você

Pense em quão facilmente Deus poderia tê-lo exposto à vergonha e à reprovação deste mundo. Contudo, na sua misericórdia, Ele tem ocultado seu pecado dos olhos do mundo e freqüentemente impedido que você pratique pecados públicos. Quão facilmente Deus poderia ter dado fim à sua vida pecaminosa e mandado você para o inferno. A despeito de toda Sua bondade para com você destas maneiras,

b) Permita que o evangelho condene e mortifique seus desejos pecaminosos

Pense em tudo que deve ao evangelho. Diga a si mesmo: "Deus me tem mostrado tanta graça, amor e misericórdia e o que tenho eu feito? Tenho desprezado e pisado em Sua bondade para comigo. Seria dessa maneira que demonstro meu apreço pelo amor do Pai e pelo sangue do Seu Filho? Como poderia macular o coração que Cristo morreu para limpar, e no qual o bendito Espírito Santo veio habitar? O que posso dizer ao meu amado Senhor Jesus? Será minha comunhão com Ele de tão pouca importância que eu possa deixar meu coração se encher de desejos pecaminosos a tal ponto que quase não mais exista lugar para Ele? Como posso diariamente "entristecer o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção" (Ef. 4:30). Considere estas coisas cada dia e, com a ajuda do Espírito Santo, você se sentirá enojado com a maldade dos seus desejos pecaminosos e desejará mortificá-los.

2. Duas maneiras específicas:


a) Pense na infinita paciência de Deus e na Sua longanimidade para com você

Pense em quão facilmente Deus poderia tê-lo exposto à vergonha e à reprovação deste mundo. Contudo, na sua misericórdia, Ele tem ocultado seu pecado dos olhos do mundo e freqüentemente impedido que você pratique pecados públicos. Quão facilmente Deus poderia ter dado fim à sua vida pecaminosa e mandado você para o inferno. A despeito de toda Sua bondade para com você destas maneiras, você tem continuamente permitido que seus desejos pecaminosos se manifestem. Quão freqüentemente você tem provocado a Deus recusando-se a fazer qualquer esforço, fazendo pouco esforço para mortificar seus desejos pecaminosos. Continuará provocando Deus e testando Sua paciência?

Pense nas vezes quando tem deliberadamente planejado como gratificar seus desejos pecaminosos e Deus graciosamente o impediu. Pense nas vezes quando se entregou tanto aos desejos pecaminosos que sua consciência o alarmou e lhe fez sentir temor de que Deus não mais tivesse misericórdia de você. Contudo, Deus já teve misericórdia de você e lhe tem trazido novamente ao arrependimento e à fé.

b) Pense nas repetidas manifestações graciosas de Deus para com você

Pense em quão freqüentemente a misericórdia de Deus tem salvo você de ser endurecido pelo engano do pecado. Pense nas muitas ocasiões em que se deparou com frieza na sua vida espiritual; ocasiões nas quais seu prazer nos caminhos de Deus, na oração, na meditação na Palavra de Deus e na comunhão com o povo de Deus tem quase que desaparecido. Pense nas ocasiões quando de diversas maneiras tem se afastado de Deus e, contudo, Deus o tem resgatado e restaurado.

Pense nas muitas maravilhosas manifestações da providência de Deus na sua vida. Pense nas provações que Ele transformou em bênçãos para você e nas provações das quais Ele o poupou. Pense em todas as maneiras como Deus o tem abençoado. Depois de todas estas manifestações da graça de Deus por você, poderia continuar a permitir que os desejos pecaminosos endureçam seu coração contra tal graça? Perturbe sua consciência com a ajuda de tais pensamentos, e não pare enquanto seu coração não estiver profundamente tocado pela sua culpa. Enquanto isso não se der, nunca fará esforços vigorosos para mortificar estes desejos pecaminosos. Enquanto isso não acontecer, não haverá motivação para agir e colocar em prática a quarta regra.

Fonte: [Josemar Bessa]
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