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30 de mar. de 2011

Os afetos que tornam autêntica a adoração – John Piper


Sejamos específicos. Quais são esses sentimentos ou afetos que tornam autênticos os atos exteriores de adoração? Para chegar à resposta, recorreremos aos salmos e aos hinos inspirados do Antigo Testamento. Um conjunto de afetos diferentes entrelaçados pode tomar conta do coração a qualquer momento. Portanto, a extensão e sequência da lista abaixo não têm a intenção de limitar as possibilidades de prazer no coração de alguém.

Talvez a primeira resposta do coração ao ver a santidade majestosa de Deus seja o silêncio perplexo. "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus" (SI 46.10). "O Senhor está em seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra" (He 2.20).

Do silêncio brota um sentimento de temor, reverência e maravilha diante da imensa grandeza de Deus. "Tema ao Senhor toda a terra, temam-no todos os habitantes do mundo" (Si 33.8).

E por sermos todos pecadores, em nossa reverência há um medo santo do poder justo de Deus. 'Ao Senhor dos Exércitos, a ele santificai; seja ele o vosso temor, seja ele o vosso espanto" (Is 8.13). "Entrarei na tua casa e me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor" (Si 5.7).

Esse temor, porém, não é um terror paralisante, cheio de ressentimento contra a autoridade absoluta de Deus. Ele encontra alívio na contrição, no arrependimento e na tristeza por nossa distância de Deus. "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (SI 51.17). "Assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos" (Is 57.15).

Misturado ao sentimento genuíno de contrição,e tristeza pelo pecado aparece um anseio por Deus. "Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo" (SI 42.1, 2). "Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus c a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (SI 73.25, 26). "O Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água" (SI 63.1).

Deus não fica indiferente ao anseio contrito da alma. Ele vem, retira a carga do pecado e enche nosso coração de alegria e gratidão. "Converteste o meu pranto em folguedos; tiraste o meu pano de saco e me cingiste de alegria, para que o meu espírito te cante louvores e não se cale. Senhor, Deus meu, graças te darei para sempre" (SI 30.11, 12).

Nossa alegria, porém, não é resultado apenas da gratidão gerada pelo olhar em retrospectiva. Ela também vem do olhar esperançoso prospectivo:

"Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu" (Si 42.5). "Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra" (SI 130.5).

No fim das contas, o coração não anseia por qualquer das dádivas de Deus, mas pelo próprio Deus. Vê-lo, conhecê-lo e estar em sua presença é o maior banquete da alma. Depois disso ela não quer mais nada. As palavras passam a ser insuficientes. Nós falamos de prazer, alegria, delícia, mas esses são apenas frágeis indicadores da experiência indizível.

"Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo" (SI 27.4). "Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente" (Si 16.11). "Agrada-te do Senhor" (Si 37.4).

Esses são alguns dos afetos do coração que podem evitar que a adoração seja "em vão". Adorar é uma maneira alegre de refletir de volta para Deus o brilho do seu valor. Não é um mero ato de vontade, pelo qual executamos ações externas. Sem a participação do coração, não adoramos de verdade. O envolvimento do coração na adoração é o despertamento de sentimentos, emoções e afetos do coração. Onde os sentimentos por Deus estão mortos, a adoração está morta.

A adoração genuína precisa incluir sentimentos interiores que refletem o valor da glória de Deus. Se não fosse assim, a palavra hipócrita não teria sentido. Mas a hipocrisia existe—ter emoções exteriores (como cantar, orar, dar, recitar) que significam afetos do coração que não existem. "Este povo me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim."

10 de nov. de 2010

Combustível, Fornalha e Calor – John Piper


Como e a quem adorar

Ela levantara a questão de onde as pessoas deviam adorar. Jesus responde, dizendo:
—Essa controvérsia não se compara em importância com a questão de como e a quem adorar.
Primeiro ele chama a atenção dela para o como:
—Mulher, você pode acreditar que vem a honra em que nem neste monte nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai.— Em outras palavras, não se deixe levar por controvérsias sem importância. Pode-se adorar a Deus em vão tanto no seu lugar como no nosso! Deus não dissera: "Este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim" (Is 29.13)? A questão não é onde, mas como.
Em seguida, Jesus volta a atenção dela para quem:
—Vocês adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.— São palavras ríspidas. Mas quando vida e morte estão em jogo, você chega a um ponto em que diz as coisas com franqueza — como dizer a alguém que está com os pulmões doentes que deixe de fumar.
Os samaritanos rejeitavam todo o Antigo Testamento, com exceção da sua própria versão dos primeiros cinco livros. Seu conhecimento de Deus era deficiente. Por isso, Jesus diz à mulher que a adoração dos samaritanos é deficiente. Importa conhecer aquele que você adora!
Como e a quem é crucial, não onde. A adoração precisa ser vital e real no coração e tem de apoiar-se sobre uma percepção correta de Deus. É preciso espírito e é preciso verdade. Por isso Jesus diz:

—Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade.— As palavras "espírito e verdade" correspondem ao como e a quem da adoração.
Adorar em espírito é o contrário de adorar de maneiras meramente externas. É o contrário do formalismo e do tradicionalismo vazios. Adorar em verdade é o contrário da adoração baseada em um entendimento inadequado de Deus. A adoração precisa ter coração e cabeça. Ela tem de envolver as emoções e o pensamento.
Verdade sem emoção produz ortodoxia morta e uma igreja cheia (ou pela metade) de admiradores artificiais (como pessoas que escrevem cartões de aniversário genéricos para vender). Por outro lado, emoção sem verdade produz agitação vazia e cultiva pessoas superficiais que rejeitam a disciplina do raciocínio exato. A adoração verdadeira, porém, vem de pessoas com emoções profundas, grande amor e doutrina sadia. Afeições fortes por Deus, arraigadas na verdade, são ossos e medula da adoração bíblica.

Combustível fornalha e calor

Talvez possamos juntar todos esses elementos com esta figura: o combustível da adoração é a verdade de Deus, a fornalha da adoração é o espírito do ser humano, e o calor gerado é a afeição vital da reverência, contrição, confiança, gratidão e alegria.
Há, todavia, algo faltando nesta figura. Temos combustível, fornalha e calor, mas não temos fogo. O combustível da verdade na fornalha do nosso espírito não produz automaticamente o calor da adoração. Precisa haver ignição e fogo. Isso é o Espírito Santo.
Quando Jesus diz: "Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade", alguns intérpretes acham que isso é uma referência ao Espírito Santo. Eu entendo que se trata do nosso espírito. Mas talvez as duas interpretações não estejam muito separadas na mente de Jesus. Em João 3.6, Jesus liga o Espírito de Deus e o nosso espírito de modo notável.
Diz ele: "O que é nascido do Espírito é espírito". Em outras palavras, enquanto o Espírito Santo não avivar nosso espírito com a chama da vida, nosso espírito está tão morto e sem reação que nem mesmo merece ser chamado espírito. Somente o que é nascido do Espírito é espírito. Assim, quando Jesus diz que os verdadeiros adoradores adoram o Pai "em espírito", o sentido tem de ser que a verdadeira adoração vem apenas de espíritos vivificados e sensibilizados pelo Espírito de Deus.
Agora podemos completar nossa figura. O combustível da adoração é uma visão correta da grandeza de Deus; o fogo que faz o combustível queimar com calor extremo é o avivamento do Espírito Santo; a fornalha acesa e aquecida pela chama da verdade é nosso espírito renovado; e o conseqüente calor da nossa afeição é a adoração poderosa, que abre caminho por meio de confissões, anseios, aclamações, lágrimas, cânticos, exclamações, cabeças curvadas, mãos erguidas e vidas obedientes.

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