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16 de jun. de 2010

Fale por si mesmo. Um desafio! (Sermão) - C. H. Spurgeon


Domingo, 09 de Dezembro de 1877

"Perguntem a ele. Idade ele tem; falará por si mesmo" (João 9.21).

Aqueles entre vocês, caros amigos, que me ouviram em outra ocasião, por certo se lembrarão que nosso assunto era "Jesus Cristo, ele mesmo". Dedicamos atenção à sua bendita pessoa. Nossa fé se fixa nele; nossas afeições são atraídas para ele; todas as nossas esperanças se inclinam na direção dele. Embora tudo que ele tenha dito ou feito seja precioso, é a própria pessoa de Jesus que ocupa o primeiro lugar na nossa estima. Conhecê-lo, crer nele, amá-lo, é a própria essência do cristianismo. Nesta noite, mudamos nosso tema. Há um "ele mesmo" no texto por nós adotado nesta noite - embora esse "ele mesmo" seja de ordem mais humilde. Qual é a situação de cada um de nós para consigo mesmo? Nossa individualidade e as responsabilidades pessoais que recaem sobre nós mesmos em relacionamento com Cristo não devem ser perdidas de vista. Se, por exemplo, um milagre espiritual foi operado em nós, se somos obrigados a confessar - melhor, se nos deleitarmos em confessar - que ele abriu os nossos olhos, então, temos o dever de dar o nosso próprio testemunho sobre dele. A alegação e o apelo podem aplicar-se a cada um de nós igualmente. "Idade ele tem; perguntem a ele; falará por si mesmo." O próprio Jesus Cristo, ele mesmo, carregou os nossos pecados, conforme ouvimos nesta manhã. Ele deu a si mesmo por nós, ele serviu a nós, não por procuração, mas por consagração pessoal; não por esmolas regateadas de modo doloroso, mas pela sua vida entregue espontaneamente como sacrifício a Deus. Já que ele assim nos recomendou seu amor, o mínimo que podemos fazer, com gratidão, é dar o nosso próprio testemunho pessoal dele, com coragem e ousadia.
Que paralelo há entre o caso desse homem e o nosso próprio! Ele sofrera um mal grave e pessoal. Nascera cego. E assim também, nós nascemos no pecado. O pecado lançou sua sombra sobre nossas faculdades desde o nosso nascimento. Nunca nos esqueceremos da meia-noite da nossa natureza. Nem sequer podíamos enxergar as belezas do próprio Cristo, embora ele fosse resplandecente como o sol ao meio-dia, pois éramos tão cegos. Esse homem foi liberto pessoalmente do seu mal, e, assim também, nós fomos libertos. Vocês receberam, assim como recebeu o cego, uma bênção pessoal, sendo que nos foi outorgada a vista. O defeito que arruinava a sua vida foi curado. Não se trata de alguém olhar em lugar de você, e então contar a você o que ele vê, mas você vê por conta própria. Não lhe é imputado que você consegue enxergar, por você ter sido informado o que outra pessoa viu. Agora, você não tem procurador nessa questão, nenhum patrocinador nesse negócio. Você mesmo está consciente de que uma obra de graça foi realizada em você: ao passo que você era cego, agora você vê, e tudo sabe. O cego foi curado mediante a obediência ao mandamento de Cristo. Ouviu uma chamada especial dirigida a ele: "Vá lavar-se no tanque." Ele foi e voltou vendo. E muitos aqui presentes escutaram a voz que diz: "Creia e viva", e ela chegou até você, não como uma exortação geral, mas como orientação específica. Vocês creram e realmente vivem. Vocês se lavaram e voltaram vendo. Pois bem, tudo isso é pessoal, e por isso, o seu Senhor e Mestre tem o direito de esperar que você dê testemunho do seu poder para salvar. Você é maior de idade. Quando alguém lhe perguntar, confio que falará por si mesmo. Tome a palavra e fale com firmeza em favor do seu Mestre, sem hesitação nem medo.

I. HÁ OCASIÕES EM QUE OS HOMENS SALVOS SÃO OBRIGADOS A FALAR POR ELES MESMOS. Devem, por necessidade, dar seu testemunho pessoal.
O que mais podem fazer quando seus amigos os abandonam? O pai e a mãe estavam dispostos a reconhecer esse jovem como filho deles, bem dispostos a dar testemunho de que ele nascera cego, mas não queriam ir além disso. Se quisessem, poderiam ter falado mais, mas tinham medo da sentença de excomunhão, a respeito da qual os judeus já tinham concordado entre si: se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga. Portanto, os pais sentiram pouco remorso ao se recusarem a assumir qualquer responsabilidade pessoal, pois tinham grande confiança (provavelmente bem fundamentada) na capacidade que seu filho tinha de cuidar de si mesmo, e assim, o abandonaram. Lançaram sobre ele todo o ônus e a tensão de dar uma resposta clara, que o teria incorrido em semelhante censura. Os pais tiraram o corpo fora, para não serem perseguidos porque seu filho cego recebeu a bênção da recuperação da vista. O jovem que fora cego devia, portanto, batalhar por conta própria em favor do bom Senhor que lhe outorgara semelhante benefício. "Perguntem a ele", disseram seus pais, "ele falará por si mesmo."
Existem situações entre muitos jovens, nas quais, mesmo que os pais não desaprovem a religião deles, os tratam com frieza e não demonstram simpatia por sua fé nem por seus sentimentos. Alguns entre nós nos regozijamos quando nossos filhos se convertem. Não sentimos vergonha de tomar o partido deles, de defendê-los e protegê-los de quaisquer consequências que surgirem. Mas existem pais e mães que não gostam das coisas de Deus e, assim, caso seus filhos se convertam, enfrentam uma situação muito difícil. Já soube de alguns que professam ser discípulos de Cristo, que recuam de modo muito suspeito, e deixam por conta de outras pessoas a defesa da causa de Cristo, diante de uma investida vigorosa. Em determinada conversa, esperava-se ouvir aquele cavalheiro já de certa idade tomar a palavra para defender com coragem a verdade do evangelho, mas ele nada fez. Sabia-se que ele era membro de uma igreja cristã, no entanto, conteve-se cautelosamente por longo tempo, e depois, em voz baixa, disse algo a respeito de não lançar pérolas aos porcos. Provavelmente, ele nem tivesse pérolas ou fosse ele mesmo um porco. Que outra explicação se pode dar a tamanha covardia? Mas também sabemos, no ardor juvenil, como é assumir uma posição de desafio, a ponto de se correr o risco de ser acusado de presunçoso, porque todas as demais pessoas pareciam estar desertando a doutrina que era seu dever defender. É lamentável que tantas pessoas tenham medo de se comprometer. "Perguntem a ele; perguntem a ele; ele falará por si mesmo", é seu pretexto insignificante; enquanto isso, têm o cuidado de se retirar detrás dos arbustos, fora do alcance de fuzilaria, e nunca saem do esconderijo a não ser que você conquiste a vitória, quando, então, elas se apresentariam, na melhor das hipóteses, para receber a sua parte dos despojos. Sempre que um homem é colocado na condição de se ver desertado, na batalha por Cristo, por aqueles que deveriam estar ao seu lado, ele desdenha bater em retirada e diz com verdadeiro heroísmo: "Sou maior de idade: falarei por conta própria. Em nome de Deus, vou dar meu testemunho."

Os cristãos, por mais reservada e retraída que seja sua disposição, são obrigados a falar abertamente quando submetidos a uma pressão muito forte. Os fariseus visaram esse homem e o questionaram detalhadamente. Postularam-lhe perguntas na forma de interrogatório minucioso e rigoroso. "O que lhe fez ele? Como lhe abriu os olhos?" e assim por diante. Ele não parece ter ficado perturbado ou desconcertado pelas perguntas. Deu conta de si, grandiosamente. Autossuficiente, quieto, sagaz, inamovível, ele tomara a sua decisão, e, com domínio total da situação, estava pronto para enfrentar os fariseus. Não hesitou. Pois bem: espero que, alguma vez, vocês e eu sejamos chamados para uma prestação de contas e, ao sermos submetidos a perguntas capciosas, mesmo com o intuito de nos emaranhar, nunca fiquemos "envergonhados de reconhecer o nosso Senhor ou defender a sua causa." Deveríamos ser feridos pela mudez se alguma vez ficarmos envergonhados de falar de Cristo ao sermos conjurados a isso. Caso se chegue a um desafio, no tocante ao lado que apóio, eu hesitaria, alguma vez, em dizer: "Estou com Emanuel, o Salvador crucificado"? Se alguma vez eles nos encostarem contra a parede e disserem "Você também esteve com Jesus de Nazaré", que Deus nos dê graça para respondermos com prontidão e sem hesitação: "É claro que estive, e é claro que ainda estou. Ele é meu Amigo, meu Salvador, meu tudo; e nunca me envergonharei de reconhecer o seu nome." Os cristãos devem tomar posição, e cada um dar, por si mesmo, testemunho nítido e distinto.

Ao passo que outros vituperam e caluniam o nosso Senhor Jesus Cristo, a nós cumpre recomendá-lo e louvá-lo. Os fariseus disseram a esse homem: "Para a glória de Deus, diga a verdade. Sabemos que esse homem é pecador." Então o homem falou, todo agradecido, com seu coração borbulhando de gratidão. "Ele me abriu os olhos." "Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo." Mas quando estiveram a ponto de dizer: "Quanto a este, nem sabemos de onde ele vem", o homem tomou a palavra de modo mais heroico ainda. Voltou-se contra os que o atacavam e os repreendeu pela notável ignorância deles: "Vocês não sabem de onde ele vem", e ele lutou em favor do seu Mestre de modo tão mordaz que eles sentiam vontade de jogar fora o debate como arma e apanhar as pedras dos insultos para apedrejá-lo. Oh! se falarem mal de Cristo, manteremos silêncio? Quando a imprecação faz gelar o sangue, nunca dirigiremos uma palavra de repreensão ao blasfemo? Ouviremos a causa de Cristo condenada na sociedade e, por medo do homem fraco, refrearemos a nossa língua ou atenuaremos a questão? Pelo contrário, vamos lançar o desafio em favor de Cristo, e dizer, imediatamente: "Não posso, nem quero, me refrear. Agora as próprias pedras poderiam falar. Quando meu amigo querido - meu melhor amigo - é assim ofendido, preciso proclamar as honras do seu nome, e assim farei." Acho que os crentes neste país não se aproveitam de metade da liberdade que têm. Se falarmos uma palavra de religião, ou abrirmos a nossa Bíblia num vagão ferroviário ou em qualquer outro transporte público, dizem: "hipócritas!" Eles podem jogar baralho, suponho, num trans-porte público, com total impunidade: podem deixar a noite mais feia com seus uivos, e proferir profanidades de todos os tipos, com toda a liberdade, mas nós seríamos realmente considerados hipócritas se usássemos de igual liberdade. Em nome de tudo quanto é livre, teremos a nossa vez. E, de vez em quando, gosto de ouvir vocês cantarem, para maior perturbação deles, um dos cânticos de Sião, pois eles cantarão as canções da Babilônia num volume suficiente para nos perturbarem. Vamos dizer-lhes que enquanto vivermos num país de liberdade, e nos regozijamos porque Cristo nos libertou, não teremos mais vergonha de dar testemunhos de Cristo do que eles têm das suas iniquidades. Quando eles começarem a pecar e ficarem com vergonha de falar uma palavra licenciosa, então poderá ser a hora - não, e nem sequer então - para guardarmos a nossa religião para nós mesmos.
Vocês percebem, então, que há ocasiões nas quais os homens - homens quietos e reservados - devem falar. Serão traidores se não falarem. Aquele cego não era muito falador. A brevidade das suas respostas parece indicar que ele era um pouco conciso para falar - mas eles o obrigaram a isso. Ficou sendo como um cervo acossado pela caça. Ele foi obrigado a discutir, por mais suave que fosse a sua disposição. E acho que dificilmente existe um cristão que tenha conseguido palmilhar o caminho inteiro para o céu e, ainda assim, esconder-se na quietude, correr de esconderijo em esconderijo, passando sorrateiramente para a glória. O cristianismo e a covardia! Que contradição entre esses termos! Acho que deve ter havido ocasiões em que vocês se sentiram dispostos a falar de si para si: "Pois bem, custe o que custar: a sociedade pode lançar tabu contra mim; posso ser ridicularizado pelas pessoas mais grossas, e posso perder o respeito das pessoas mais fina; mas preciso dar testemunho a favor de Jesus Cristo e da sua verdade." Então, as seguintes palavras passaram a se aplicar a vocês: "Idade ele tem; perguntem a ele; ele falará por si mesmo."

II. É SEMPRE BOM ESTAR PREPARADO PARA FALAR POR CONTA PRÓPRIA. Parece claro que esse homem estava pronto para isso. Quando os pais dele disseram: "Perguntem a ele... falará por si mesmo", havia uma leve piscadela no olho do pai enquanto este falava - com a intenção de dizer: "Vocês vão lidar com uma pessoa intratável. Ele pode falar por si mesmo. Já o conhecemos durante os muitos anos da sua cegueira, e ele sempre tinha uma resposta mordaz para qualquer pessoa que o considerasse bobo; se vocês imaginam que conseguirão da parte dele muita coisa para alimentarem as gargalhadas ou diversão de vocês, estão redondamente enganados. É mais provável que ele se desfaça de vocês, do que vocês dele." E assim, ao entregarem-no aos inquisidores, embora não fossem muitos bondosos, suponho que não achassem que ele fosse um franguinho tenro que precisasse dos seus cuidados; assim, pareciam dizer: "Idade ele tem, já é maior de idade; perguntem a ele. É só perguntar a ele. Po-demos garantir que ele falará por conta própria." E falou mesmo! Ora, aqui quero ter um grupo de cristãos do tipo bem semelhante a ele, e que, quando alguém lhes perguntar algo a respeito da sua santa fé, possam responder de tal maneira que não sejam objetos de escárnio e desprezo, porque revelarão ser mais do que suficientes para enfrentar seus adversários. Mas como, vocês estarão prontos para responder, devemos estar preparados para falar por conta própria?
Desde o início, é bom cultivar um hábito geral de franqueza e de coragem. Não temos necessidade de sermos intrusos e de nos intrometermos no caminho das pessoas e assim nos tornarmos uma amolação e enfadonhos para elas. Longe disso! Mas andemos pelo mundo como aqueles que não têm nada para esconder, conscientes da integridade dos nossos próprios motivos e da retidão do nosso coração diante de Deus; sem precisarmos vestir a armadura e dormir com ela como os cavaleiros da Antiguidade, sabedores de que a verdade desarmada é o melhor vestuário. Mostremos que nada temos para dissimular ou encobrir, nada para disfarçar ou manter no escuro - que o evangelho operou em nós tamanha honestidade e franqueza de espírito e nenhuma tagarelice nos pode levar a enrubescer, e nenhum inimigo pode nos provocar. Contemos aquilo que cremos como sendo a verdade, porque podemos garantir a sua veracidade. Vamos silenciar aqueles que levantam objeções contra tais coisas, não tanto pelo nosso combate quanto pelo nosso caráter. Comprovemos diante deles que temos razão sólida pelo nosso protesto singelo; que realmente recebemos a graça na qual cremos com sinceridade. Nossas palavras terão peso quando os oponentes perceberem que o fruto da nossa piedade está em consonância com a flor da nossa profissão de fé. Há grande poder nesse modo de responder ao adversário.

Tome o cuidado, no entanto, quando você falar, de ter certeza do seu fundamento. Esse homem tinha essa certeza. Disse: "Não sei se ele é pecador ou não"; e assim não ofereceu opinião a respeito de um assunto sobre o qual não tinha conhecimento positivo. Mas quando tinha com fatos sólidos, não havia nada de vago na sua declaração: "Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo!" Esse é um argumento que o crítico capcioso mais astuto teria dificuldade em refutar. Com o cego olhando diretamente para o rosto deles, bastava para deixálos perplexos. E existem alguns entre vocês que passaram por tamanha transformação de caráter que podem dizer, com a pura verdade: "Sei que não sou o homem que era antes. Minha maneira de viver, desde a minha juventude, é bem conhecida de muitos, se quisessem testificar. Mas agora, Deus, mediante o evangelho do seu Filho, abriu os meus olhos, purificou a minha lepra e colocou meus pés no caminho da paz." Mesmo aqueles que zombam do evangelho não conseguem, como muitos entre nós, negar a mudança notável e benéfica que se realizou. Nisso há uma questão de integridade sobre a qual devemos ser muito firmes. Assuma uma posição de firmeza e diga: "Não, vocês não podem julgar isso de modo errôneo. Vocês podem filosofar se quiserem, mas foi o evangelho simples e antiquado das crianças que me transformou, e me levou a amar o que eu antes odiava, e odiar aquilo que eu antes amava. Essa é uma coisa que vocês não podem refutar. É uma coisa que sei."
E é bom, como no caso desse homem, ter os fatos em prontidão para serem aduzidos. "O homem chamado Jesus misturou terra com saliva, colocou-a nos meus olhos, e me disse que fosse lavar-me em Siloé. Fui, lavei-me, e agora vejo." Apresentem o plano da salvação, do modo que vocês o perceberam de início, de modo muito sucinto e claro diante deles. É frequentemente a melhor resposta que vocês podem apresentar diante daqueles que interrogam com o propósito de por defeito e que discutem para depreciar. Contem a eles sobre o evangelho com a mesma emoção com que vocês o receberam na ocasião. Assim como o Senhor lidou com sua alma, assim também contem a eles o que ele fez em favor de vocês. Quem consegue zombar da declaração simples que você faz da sua conversão, forçosamente é um homem de coração endurecido. A transformação que assim foi realizada em você será um fato que ele não poderá contestar. Embora pense que você foi iludido e o chame de fanático, a coisa mais difícil para ele será vir de braços com a sinceridade e confiança que você tem. "Ele abriu meus olhos; e se ele abriu meus olhos, logo, ele veio da parte de Deus. Forçosamente, Deus estava no meio dessa questão, pois nasci cego." Dê uma razão para a esperança que está em você, com mansidão e respeito, a todos quantos se opõem a você.
Os cristãos devem ser como era esse homem - bem disposto a suportar ofensas. "Você nasceu cheio de pecado." Não posso imaginar que o cego se importasse com aquilo que eles queriam asseverar ou insinuar sobre isso. O desprezo deles não poderia privá-lo de seus olhos. Ele simplesmente sacudiu a cabeça e disse: "Agora vejo; consigo ver. Eu era cego e agora vejo! Os fariseus podem me ofender, mas agora vejo. Podem me dizer que sou isto mais aquilo, e ainda coisa pior, mas agora vejo! Meus olhos foram abertos." Assim, filho de Deus, você pode dizer de si para si: "Posso ser ridicularizado; posso ser censurado como presbiteriano ou metodista, batista ou cismático, ou como qualquer outra coisa que quiserem dizer; não me importa. Fui salvo; sou um homem transformado. A graça de Deus me renovou; agora podem me chamar de tudo quanto quiserem." Algumas pessoas ficam incomodadas ao serem satirizadas; diante de uma piada, se encolhem e se sentem lesadas; e aquilo que os homens chamam de gracejo as irrita. O homem que não consegue suportar a risada de um tolo ainda parece um bebê! Mantenha-se firme em pé, e quando você voltar ao seu emprego na loja de tecidos, comporte-se destemidamente. Você que vai trabalhar em alguma grande fábrica e que sofreu interrogatórios e gozações por causa da sua religião, renove sua coragem e diga: "Aqui estou eu, com 1,70 ou 1,80 metro de altura, ou seja qual outra altura, e vou sentir vergonha de alguém rir de mim por causa de Cristo?" Nada disso! Ora, você nem vale os calçados que o deixam em pé, se você se deixa abaixar diante das brincadeiras deles. Não duvido que muitos soldados no refeitório da caserna acham difícil manter o ânimo quando os colegas escarnecem deles com zombaria e desprezo de maneira grosseira; mas afinal, caros amigos, a varonilidade comum não deve nos animar com força moral? Ao conseguirmos lançar mão de uma coisa que consideramos certa, seríamos muito simplórios se abríssemos mão dela por medo de um trote tonto ou de uma careta à toa. Deixe que eles riam. Vão se cansar de nos apoquentar quando descobrirem que nosso temperamento triunfa sobre os truques tolos deles. Deixe os pobres simplórios achar nisso motivo de diversão. Eu, às vezes, me sinto mais disposto a sorrir do que a me entristecer diante das piadas que são contadas às minhas custas. Seus gracejos brincalhões talvez aliviem algumas das lastimáveis tristezas que baixam inesperadamente nas horas de solidão deles. A melancolia celebra carnaval neste mundo louco. E se, de vez em quando, pegam um objeto vivo para sua diversão, e eu mesmo acabo sendo o alvo dos bufões, e daí? Não há possibilidade de que eu seja lesado com isso; o único perigo é que eles possam se prejudicar. Tenham essa atitude, caros amigos, e não se importem com essas bobagens.
Esse homem, nascido cego, cujos olhos foram abertos, estava disposto a enfrentar os fariseus e a tomar a palavra por conta própria, porque sentia intensa gratidão por Jesus, que lhe outorgava o benefício inestimável da visão. Vocês percebem que durante toda a narrativa, embora ele não soubesse muita coisa a respeito de Jesus, tinha consciência de ser este seu verdadeiro amigo, e se mantinha leal a ele, em meio a todas as circunstâncias. Ora, é possível que você e eu não saibamos muita coisa a respeito de nosso Senhor - nem a décima parte daquilo que esperamos vir a saber -, mas ele abriu os nossos olhos; ele perdoou os nossos pecados; ele salvou a nossa alma; e, com a ajuda da sua graça, seremos leais a ele aconteça o que acontecer. Se a gratidão que vocês têm por ele for mantida plenamente, não há o que recear quando forem provocados, quando forem submetidos à prova, não deixarão de ser fiéis ao seu amigo e serão capazes de dizer, em sã consciência:

"Não sinto vergonha de meu Senhor,
Nem de sua causa ser um defensor;
De a honra da sua palavra manter,
A glória da sua cruz ver."

III. TODA PESSOA SALVA DEVE ESTAR DISPOSTA A FALAR POR SI MESMA A RESPEITO DE CRISTO. Já falei que vocês serão levados a isso. Além disso, vocês devem estar preparados quando forem forçados a isso; mas agora estão sendo conclamados a fazer isso de livre e espontânea vontade.
Não somos todos devedores a Cristo se, realmente, fomos salvos por ele? Como poderemos reconhecer essa dívida se nos envergonharmos de Cristo? O testemunho dele é: "Aquele que crer, e for batizado, será salvo." O batismo nos salva? Certamente não, mas aquele que crer é obrigado a ser batizado a fim de assim confessar ao seu Senhor; pois o batismo é "o compromisso de uma boa consciência diante de Deus" (1Pe 3.21). É a resposta grata do discípulo à chamada graciosa do seu Mestre. Vocês sabem como isso se expressa: "Aquele que crê no seu coração e confessa com sua boca será salvo." Não posso legitimamente deixar de confessá-lo, se eu crer no meu coração. Por que eu deixaria de fazê-lo? Já que lhe devo tanto, posso eu pensar em não confessá-lo? Tenho certeza de que, se fosse promulgado um mandamento que nos proibisse de reconhecer o nosso Senhor, de falar sobre ele a alguém, e que nos ordenasse a esconder o segredo dos parentes, dos amigos, e dos vizinhos, eu o acharia muito aflitivo. Mas ele realmente nos manda reconhecê-lo e dar testemunho a ele. Saudamos essa ordem da parte dele, a consideramos muito correta e apropriada, e a ela obedecemos com a maior alegria. Não é assim?
Cada um de nós deve estar bem disposto a tomar a palavra em nome de Cristo, pois cada um, individualmente, deve saber mais sobre o que ele fez em nosso favor, pessoalmente. Ninguém aqui sabe tudo o que Cristo tem feito por mim. E vocês podem dizer: "É verdade, mas, por outro lado, você não sabe o que ele fez por nós." Não, não; todos nós somos devedores a ele, em tudo. Oh, quão grande misericórdia ele tem dado a alguns de nós! Se o mundo pudesse conhecer o nosso estado antes da nossa conversão, talvez nossos cabelos ficassem arrepiados só ao lermos a história da nossa vida. Como a graça de Deus nos transformou! Que mudança! Que transformação! Se os corvos se transformassem em pombos, e os leões se tornassem cordeiros, os charlatões poderiam expor (ou mistificar) o fenômeno com uma ou duas palavras. Mas essas conversões ocorrem todos os dias; e os cientistas mantêm silêncio, ao passo que os zombadores, quando as vêem, fazem caretas contra elas. A transformação é infinitamente maior do que quando os ossos secos são ressuscitados e revestidos de carne. Quando as pedras começam a derreter e a se transformar em correntezas, isso não é nada em comparação com a regeneração que experimentamos. Precisamos contar isso; precisamos conversar a respeito. Sabemos mais a respeito do que as demais pessoas, e temos a obrigação de sermos narradores honestos da narrativa maravilhosa.
Quanto mais testemunhos individuais são dados a respeito de Cristo, tanto maior a força acumulada da soma total deles. Se eu, de modo coletivo, der testemunho de Cristo, em nome de todos vocês, dizendo: "O Senhor fez grandes coisas por nós, e por isso estamos alegres", espero que Cristo seja honrado e que haja alguma boa influência. Mas, se dez, vinte, trinta ou cinquenta pessoas se colocassem em pé, uma após outra, e dissessem: "O Senhor fez grandes coisas por mim", e cada uma contasse a sua própria história, mais convicção seria produzida! Ouvi falar de um advogado nos Estados Unidos que foi para uma reunião dos vizinhos, onde contaram as suas experiências. Era cético, um incrédulo, quando entrou no local, mas ficou sentado ali tomando nota, com seu lápis, das declarações dos vizinhos. Quando, depois, revistou as evidências, disse de si para si: "Ora, se eu tivesse essas doze ou treze pessoas no banco das testemunhas, apoiando minha causa jurídica, eu teria absoluta certeza de vencer o processo. Convivo entre elas. Não são as pessoas mais eruditas que já conheci, mas são bem honestas, fidedignas - com conversa sincera; e, embora cada uma tenha contado sua própria história, todas apontam o mesmo fato: que existe a graça de Deus, e que ela realmente transforma o coração." E assim chegou à sua conclusão: "Pois bem, sou obrigado a crer, depois de tantos testemunhos." E acreditou mesmo e se tornou cristão. Tenho certeza de que se os cristãos testemunhassem mais frequentemente sobre o poder de Jesus Cristo, os testemunhos acumulados surtiriam efeito em muitas mentes irrefletidas, e multidões chegariam a crer em Jesus. O Espírito Santo se deleita em aceitar e abençoar tantas histórias verídicas quanto vocês puderem contar.
Estou ouvindo um e outro entre vocês dizer: "Podem muito bem passar sem a minha história?" Eu responderia: "Não, meu amigo, não podemos dispensar a sua evidência, posto que as diversidades entre as experiências são tão numerosas quanto o são os indivíduos convertidos, embora haja união na operação do Espírito Santo." Nosso Senhor abriu os olhos de muitos cegos, desobstruiu os ouvidos de muitos surdos, libertou a língua de muitos mudos, e é incontável o número dos leprosos que purificou; mas cada paciente poderia contar a você os seus próprios sintomas e a cura que recebeu, com pormenores. A sua história também tem seu interesse especial, enquanto contribui para a narrativa global. Você, pelo menos, ficaria triste se não fosse assim. "O SENHOR escreverá nos registro dos povos: 'Este nasceu ali.'" (Sl 87.6). Sei que vocês gostariam que seu nome fosse mencionado então; e acho que, para você, valeria a pena mencionar agora as misericórdias que você recebeu, exatamente do modo que as recebeu. Falando por mim mesmo, creio que Deus, ao me converter, manifestou um modo específico de fazê-lo, exatamente ajustado à minha necessidade. Meu caso era tão semelhante aos de vocês, que produziu simpatia, e tão diferente, que produziu gratidão especial, e assim acontecia, sem dúvida, com cada um de vocês. Em cada caso, a carreira de vocês, o seu caráter, e as suas circunstâncias eram diferentes. Assim como um mestre-pintor raras vezes pinta o mesmo quadro duas vezes, assim também Deus, o Artista supremo, raras vezes (acho que mesmo nunca), opera exatamente o mesmo modo em dois corações diferentes. Existe uma diferença, e naquela diferença há uma ilustração da multiforme sabedoria de Deus; por isso, queremos ouvir a sua história.
Além disso, o seu testemunho talvez toque no coração de alguém semelhante a você. A jovem Maria, sentada ali, diz: "Ora, eu não sou ninguém; sou mera babá. É verdade que o Senhor Jesus Cristo me purificou e me adotou, mas vocês podem passar sem a minha história." Não, Maria; não podemos passar sem ela. Talvez seu testemunho seja apropriado para outra mocinha como você. Uma empregadinha atendia a esposa de Naamã. Quem, a não ser ela, poderia ter contado à sua senhora que havia cura para Naamã, ou que ele podia ir a um profeta em Israel e ser plenamente restaurado? Conte sua história de modo suave e calmo, e em momentos apropriados, mas deixe que ela seja conhecida. O idoso diz: "Oh, mas agora estou tão fraco. Você pode dispensar qualquer coisa que eu tenha para dizer." Não, sr. Guilherme, não podemos. O senhor é justamente o homem cujas poucas palavras têm pleno peso. De vez em quando, você se encontra com oportunidades selecionadas de levar almas ao Salvador. Alguém pode dizer: "Estou velho demais para pensar nessas coisas"; mas você pode contar como o Senhor lidou com você na sua velhice, e talvez alguém se aproveite da lição. Ora, vocês, operários, se todos tomassem a palavra em favor de Cristo (e sei que muitos entre vocês o fazem), que bom efeito seria produzido; que influência vocês teriam sobre outras pessoas semelhantes a vocês. Obviamente, elas nos ouvem pregar e dizem: "Vocês sabem que ele é pastor. Fala assim por dever profissional. Dizer essas coisas é o emprego dele." Mas quando você conta a respeito daquilo que o Senhor tem feito por você, fica sendo assunto de conversa; esta é repetida muitas e muitas vezes. Sei o que Tomé diz ao chegar em casa. Diz à sua esposa, Maria: "O que você acha daquele Tiago que é meu colega de serviço? Ora, andou falando comigo a respeito da sua alma, e disse que seus pecados foram perdoados, e parece ser um homem tão feliz. Você sabe que ele bebia e xingava da mesma maneira que eu, mas agora, é um homem maravilhosamente diferente; e eu diria, na base daquilo que estou vendo, que deve existir alguma verdade nisso. Um fim de tarde, me convidou para ir à sua casa; o seu lar é tão diferente do nosso." "E quanto a isso, você pode calar a boca", Maria responde, com bastante rispidez; "se você trouxesse seu salário para casa, todas as semanas com regularidade, eu poderia gastá-lo melhor cuidando da nossa casa." Tomé responde: "Estou pensando a mesma coisa. Justamente por ser Tiago um homem religioso é que ele realmente leva para casa o salário inteiro, e acho que há alguma coisa real na conversão dele. Ele não bebe como eu. Não participa de farras e besteiras de todo tipo. Eu, nem teria levado o assunto tanto a sério se o pastor tivesse me falado. Mas agora realmente acho que há algo de bom e genuíno na graça a respeito da qual ele fala. Seria melhor irmos, nós dois, no domingo de noite ao Tabernáculo, ou a outro lugar, e ficarmos sabendo sobre o assunto por nossa conta." Ah, muitíssimas almas são levadas a Cristo dessa maneira. Por isso, Tiago, não podemos passar sem seu testemunho, porque a sua conversa é apropriada para seu próprio grupo. E quanto a você, dama refinada, você diz: "Eu amo o Senhor, mas acho que eu não posso dizer nada no meu círculo e no meu nível de vida." Você não pode? Ah, mas tenho certeza de que você transporá essa pequena dificuldade para atingir um pouco mais de crescimento na graça. Tínhamos entre nós, certa vez, uma pessoa cujo título de nobreza a qualificava a conviver numa esfera "superior" da sociedade, mas sua escolha a capacitou a preferir o humilde companheirismo da igreja. Alguns dentre vocês se lembram bem das madeixas prateadas dela. Ela já partiu de nós, e voltou para o lar na glória.
A sua sorte era lançada entre a aristocracia. Entretanto, com simplicidade mansa, despretensiosa e suave, introduzia o evangelho sempre por onde andava. Muitas pessoas que vieram para ocupar esses bancos da igreja e escutar esse ministro nunca teriam chegado aqui não fosse a vida dela, calma, bela, discreta e santa, e a coragem com que podia dizer, em qualquer lugar e em qualquer ocasião: "Sim, sou cristã; e, mais do que isso, sou dissidente da igreja anglicana; e o que você considerará pior, sou batista; e o que você considerará ainda pior, sou membro do Tabernáculo." Ela nunca se envergonhava de confessar o nome do nosso bendito Redentor, nem de reconhecer os mais humildes dos discípulos de Jesus e lhes oferecer amizade. Vocês fariam bem em seguir o exemplo da fé que ela tinha. Sejam quais forem os círculos em que convivemos, esforcemo-nos para nos tornar centros de influência.
Foi assim que procurei demonstrar a vocês, caros amigos, que cada pessoa tem seu testemunho para dar - um privilégio a ser acalentado não menos do que um dever a ser cumprido -, porque um dom que você recebeu qualifica-o para um serviço que pedem que você desempenhe. Suponhamos que o soldado, ao marchar para a batalha, dissesse: "Não preciso carregar meu fuzil; não preciso atirar no dia da batalha, porque há bons atiradores à direita e à esquerda que estão acertando nos inimigos." Sim, mas quando você estiver em plena fuzilaria, o seu projétil tem seu alvo, e esse alvo do seu projétil não é o alvo de nenhum outro projétil, por isso, atire e deixe-o voar. Todos nós devemos atirar, irmãos; não alguns, a nossa munição deve ser esta: "Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo! É por isso que dou testemunho do meu Senhor. Apesar de quem queira dizer o contrário, ele me abriu os olhos."

IV. E, por fim: POSTO QUE TODO CRENTE, POR TER IDADE, DEVE FALAR POR SI MESMO, NÓS PRETENDEMOS FAZER O MESMO; VAMOS FAZÊ-LO. 

Quanto a mim, pretendo fazer assim. Tenho falado a vocês aquilo que acredito ser a verdade, desde a juventude. Já ofendi pessoas em muitas ocasiões. Espero ofender ainda bastante mais vezes, porque a questão de ofender não é assunto que tomo em consideração em qualquer ocasião. A questão é: Essa é a verdade? É uma verdade necessária? É essencial que seja falada com clareza e divulgada amplamente? E aí sai voando como uma granada de mão jogada no meio da multidão. Que cada ministro de Cristo - e espero que a justiça dessa atitude seja cada vez mais reconhecida - tenha a coragem para falar em favor do seu Mestre; fale abertamente, e nunca resfolegante, mas em nome daquele que o enviou, em nome de Deus, com coragem apropriada para sua comissão. Lábios trementes e rosto covarde num ministro revelam ser ele indigno do cargo que alega desempenhar. Devemos deixar nosso rosto firme como seixo, e dar testemunho da vontade - da verdade inteira, e de nada, senão a verdade, conforme Deus a ensina a nós.
E vocês, membros desta igreja, e vocês, crentes de todos os tipos aqui presentes, vocês não querem, também, adotar esta resolução: "Somos maiores de idade e pretendemos falar por nós mesmos"? Nem todos vocês podem pregar. Espero que todos não tentem fazê-lo. Como o mundo ficaria tumultuado e desordenado se todo homem e mulher se considerassem chamados a pregar! Teríamos uma igreja que só consistiria de bocas, e então haveria um vácuo em parte dela. Não sobrariam mais ouvintes se todos virassem pregadores. Não; vocês não foram chamados para procurar posições de precedência nas assembléias públicas, mas para exercer influência no convívio em particular; mediante uma boa conversa, com uma fala temperada com sal, em casa entre os amigos, os parentes, ou os colegas, com uma dúzia de pessoas ou com uma só, tornem conhecido o que o amor tem feito, o que a graça tem feito, o que Cristo tem feito. Deixem todos saber; tornem tudo isso conhecido. Entre seus empregados, entre seus filhos, entre os lojistas - para onde vocês forem, deixem-no conhecido. Usem seus uniformes por onde forem. Não gosto de ver um soldado cristão que tenha vergonha de ostentar as suas cores. Pelo contrário, vistam-nos. É uma honra servir a sua Majestade. Se houver no cristianismo algo que deixe você envergonhado, afaste-se dele. Não finja crer se você tiver medo de revelar qual é a sua fé; mas se você realmente receber o evangelho, e crer nele como revelação de Deus, nunca sinta vergonha de confessá-lo, mas seja corajoso e confirme a sua vez em todas as ocasiões e em todos os lugares.
Alguém diz: "Ora, sou um pouco retraído." Sei disso, irmão. Mas, venha, deixe de lado um pouco da sua modéstia e se destaque um pouco mais pela sua varonilidade. Já falei do soldado que estava se recolhendo no dia da batalha; mas foi fuzilado por ser covarde. Não é certo ficar retraído quando o dever nos chama, ou quando o perigo conclamar você à frente da batalha. Já ouvi falar de um homem que tinha rosto de leão e coração de cervo. Tome cuidado com uma disposição muito retraída! Às vezes, o que tem má reputação é disfarçado com palavras educadas; assim, a modéstia pode ser timidez, a cautela por ser covardia. Seja valente na causa do seu Senhor e Mestre; não desempenhe, pelo seu silêncio, o papel de traidor que você desprezaria desempenhar pela sua fala:

"De Jesus, vergonha posso ter?
Do caro Amigo de quem minhas esperanças do céu estou a depender?
Não; seja esta a minha vergonha, se eu corar:
De o seu nome não mais reverenciar."

Quebre o gelo agora e fale a outra pessoa a respeito dessa bendita mensa-gem, antes de se recolher à noite. Você quer adotar essa resolução? Cuidado de não adiar até seu coração ficar frio, e as palavras que você pretende fala se congelem nos seus lábios. Pelo contrário, faça-o mesmo, e a obra vai se avultando dentro de você. Dentro em breve, você saudará a oportunidade, tanto quanto você agora se encolhe diante dela. Será uma bênção para a sua vida. Acho que foi Horácio Bonar quem disse:

É vida longa, a vida bem vivida! 
O mais, é jogar fora a existência querida; 
É mais longa a vida de quem pode contar 
De coisas certas, feitas de modo certo, dia após dia, falar.

Viva o seu credo! Seja quem você parece ser 
Levante diante da Terra a tocha divina com todo o seu querer; 
Seja o que você tiver agora para ser feito; 
Siga os passos do grande Mestre perfeito.
Preencha cada hora com coisas que têm duração; 

Resgate os momentos enquanto passam como um furacão;
 
A vida em cima, depois de terem passado, 
É o fruto maduro da vida embaixo ter contemplado.
Sua existência; mas Ele não a desperdiça 
Que livremente a deu, devolva livremente sua crença; 
Senão, aquela existência não passará de um sonho ser, 
Seria simples ser, mas não viver.

Caros amigos, alguns entre vocês que são crentes em Cristo nunca o confessaram. Espero que vocês resolvam, a partir deste momento, reconhecer que são seus discípulos e a se tornar seus seguidores fiéis. Vocês têm idade. Alguém comenta: "Sim, sou de idade bastante avançada, pois já passei dos cinquenta anos." Outros entre vocês são mais velhos do que isso e, embora sejam crentes em Cristo, nunca o confessaram. Assim não dá, irmão; assim não serve. Não vale morrer nessa condição; não vale só pensar no tempo presente. Quando Cristo vier, felizes serão os que não se envergonharam dele; mas quando ele vier na sua glória com todos os seus santos anjos, a tremedeira sacudirá aqueles que achavam e diziam que o amavam, mas que nunca ousaram suportar repreensão por amor ao seu nome, nem passar vergonha por causa do evangelho. Espero que essas reflexões os deixem inquietos e os façam dizer: "Com a graça de Deus, vou me filiar a uma igreja crente antes de acabar essa semana." Se você é crente em Cristo, conclamo-o a não tratar levianamente a voz da consciência, mas a cumprir suas promessas ao Altíssimo.

Lastimavelmente, existem alguns que não podem falar em favor de Cristo, de qualquer maneira que fosse, porque não o conhecem. Ele nunca lhes abriu os olhos. Nunca pretendam falar de assuntos que vocês não entendem, nem finjam testemunhar misericórdias que não experimentaram. Vocês devem lembrar-se de que o Cristo que pregamos não é somente o Cristo histórico que foi crucificado, morto e sepultado, mas sempre é o Cristo vivo, neste momento, que continua entre nós mediante seu Espírito - que transforma a nossa natureza, que vira e orienta a correnteza dos nossos pensamentos e da nossa vida, que purifica os nossos desejos e os nossos motivos, que nos ensina a amar uns aos outros, que nos admoesta a sermos puros, que nos exorta a sermos mansos, que nos dá um coração que aspira pelas coisas que estão no alto em vez de nos rebaixarmos atrás das coisas que estão embaixo. Ora, se você nunca se encontrou com esse Cristo, nunca poderá testificar o seu poder. Mas ele pode ser achado. Confie nele. Ele é divino - o Filho de Deus. Seu sangue é o sangue do grande sacrifício do qual falou Moisés e de quem todos os profetas deram testemunho. Ele é o último grande sacrifício de Deus. Venha, e confie nele. E quando você confiar nele, aquela confiança será semelhante ao toque daquela mulher na orla das vestes de Jesus. Assim que tocou nele, foi totalmente curada, porque da parte dele saía poder. Aquele poder continua emanando da sua santa pessoa sempre que o simples toque da fé coloca o pecador em contato com o Salvador. Que o Senhor o leve a crer em Jesus, e depois de você ter crido mediante a fé, venha à frente e confesse o seu nome. Assim você será contado entre seus santos, agora e na glória eterna.

/ On : 12:18/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

15 de jun. de 2010

O cristianismo prático – (Sermão) – C. H. Spurgeon



"Disse Jesus: 'Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu
para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele. Enquanto é dia,
precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima,
quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo,
sou a luz do mundo'" (João 19.3,4).

Observem, caros amigos, nosso Senhor Jesus Cristo não se deixava desconcertar diante da mais violenta oposição dos seus inimigos. Os judeus tinham apanhado pedras para apedrejá-lo, e ele se escondeu deles; mas tão logo tivesse passado por um único átrio e ficado fora do alcance da vista deles, parou e fixou seus olhos num mendigo cego, que estava sentado perto da porta do templo. Receio que a maioria entre nós não tivesse ânimo para ajudar nem sequer os mais necessitados enquanto nós mesmos escapávamos das pedradas lançadas contra nós; e se tivéssemos tentado fazer essa obra, movidos por suprema compaixão, a teríamos levado a efeito de modo desajeitado, com muita pressão, e certamente não teríamos conversado de modo calmo e sábio, conforme fez o Salvador ao responder à pergunta dos seus discípulos, e passou a raciocinar com eles.

Uma das coisas dignas de nota no caráter de nosso Senhor é sua maravilhosa quietude de espírito, mormente sua notável calma na presença daqueles que o julgavam mal, e o ofendiam, e o caluniavam. É frequentemente vituperado, mas nunca perturbado; está frequentemente perto da morte, mas sempre cheio de vida. Por certo, ele sentia agudamente todas as contestações dos pecadores contra si, pois numa passagem nos Salmos que se refere ao Messias lemos: "A zombaria partiu-me o coração" (Sl 69.20). Entretanto, o Senhor Jesus não permitiu que seus sentimentos o dominassem, sempre estava calmo e com presença de espírito, e agia com profunda isenção das calúnias e ataques dos seus mais ferrenhos inimigos.
Entendo que, uma das razões por ele ser tão auto-suficiente, é que nunca ficava enlevado pelo louvor dos homens. Acreditem nisso: se alguma vez se permitirem ser agradados por aqueles que falarem bem de vocês, serão capazes de se magoarem na mesma medida por aqueles que falam mal de vocês. Mas se aprenderem (e é uma lição demorada para a maioria de nós) que não são servos dos homens mas, sim, de Deus, e que vocês não morrerão se eles os censurarem, então vocês serão fortes e demonstrarão que alcançaram a estatura varonil em Cristo Jesus. Se o grande Mestre se permitisse virar a cabeça pelos hosanas da multidão, então, seu coração se desalentaria dentro dele quando exclamavam: "Crucifique-o, crucifique-o!" Mas ele não se sentia enaltecido nem abatido pelos homens; não se confiava nas mãos de homem nenhum, pois sabia o que havia neles.

A razão mais interior dessa quietude de coração era sua comunhão ininterrupta com o Pai. Jesus morava à parte, pois convivia com Deus: o Filho do homem, que desceu do céu, continuava habitando no céu, sereno e paciente porque estava enaltecido acima das coisas terrestres, nas santas contemplações da sua mente perfeita. Porque seu coração estava com o Pai, o Pai o tornou forte para suportar tudo o que lhe viesse da parte dos homens. Quem dera que todos nós usássemos essa armadura da luz, a panóplia celestial da comunhão com o Altíssimo Eterno. Nesse caso, não teríamos mais medo das más notícias, nem das más ocorrências, pois nosso coração estaria firmado na rocha segura do amor imutável do Senhor.
Havia, talvez, outra razão pela maravilhosa compostura do nosso Senhor ao ser atacado com pedradas: seu coração se fixava tanto na sua obra que não podia ser desviado dela, por mais que os judeus incrédulos fizessem contra ele. Essa paixão dominante o levava para adiante dos perigos e sofrimentos, e o levava a desafiar com calma toda a oposição. Entrara no mundo a fim de abençoar as pessoas, e não deixaria de abençoá-las. Os judeus podiam se opor a ele por um motivo ou por outro, mas não podiam desviar a correnteza da sua alma do leito da misericórdia, ao longo do qual se precipitava como torrente. Ele precisava fazer o bem aos sofredores e aos pobres, não podia deixar de fazer isso; seu rosto volta-se com firmeza em direção à sua obra vitalícia. Para ele, praticar a vontade de quem o enviara passara a ser como sua comida e bebida; e assim, quando os judeus apanharam pedras, embora ele se afastasse um pouco, porém, posto que somente quisesse conservar sua própria vida para a prática do bem, voltou-se à sua obra vitalícia sem demora. As pedradas não podem desviá-lo das suas atividades graciosas. Assim como vemos um pássaro com ovos ou filhotes, afugentado momentaneamente do seu ninho, voltar no mesmo instante em que o intruso se afasta, assim também vemos nosso Senhor voltar à sua obra santa quase antes de ele estar fora da vista dos que queriam assassiná-lo. Ali está sentado um cego, e Jesus se põe imediatamente ao seu lado para curá-lo. Eles vão te alcançar, ó Cristo! Eles tentarão matar-te! Seguram mais pedras nas mãos cruéis. Os que te odeiam arremessam seus mísseis com ferocidade e chegarão a ti num só momento! Ele não se importa com isso! Nenhum espírito de covardia pode levá-lo a deixar passar em branco uma oportunidade para glorificar o Pai. Aquele cego precisa de atendimento e, correndo todos os riscos, Jesus pára a fim de lidar com ele com amor. Se vocês e eu ficarmos completamente ocupados no zelo por Deus, com o desejo de conquistar almas, nada nos atemorizará. Suportaremos toda e qualquer coisa, e não nos parecerá que estamos aguentando coisa alguma; escutaremos calúnias como se nem as ouvíssemos, e suportaremos as adversidades como se não existissem. Assim como a flecha, atirada por um arqueiro forte, desafia o vento ao seguir em sentido contrário e voa rapidamente até ao centro do alvo, assim também nós voaremos em direção ao grande objetivo da nossa ambição compassiva. Bem-aventurado aquele homem que Deus lançou como raio da sua mão, que precisa continuar até cumprir seu destino; bem-aventurado aquele cuja vocação é levar os pecadores aos pés do Salvador. Ó bendito Espírito, enaltece-nos para habitarmos com Deus, e nos simpatizarmos com sua compaixão paternal, de modo a não prestarmos atenção às pedradas, nem às zombarias, nem às calúnias, e nos ocuparmos totalmente no nosso serviço abnegado por amor a Jesus!

Sirva de introdução o que foi dito até agora. O Salvador, na sua condição pior e mais baixa, quando estava perto da morte, só pensa no bem das pessoas. Enquanto olhos cruéis o espionam para buscarem ensejo para matá-lo, o olhar de Jesus se fixa no pobre cego; Jesus não tem nenhuma pedra do seu coração contra os tristes, mesmo quando as pedras passam zumbindo por suas orelhas.


I. Assim, portanto, apresento para vocês a primeira divisão da presente mensagem, que é O OBREIRO. Entrego este título, bem merecido, ao Senhor Jesus Cristo. Ele é o obreiro por excelência, o obreiro principal, o exemplo para todos os obreiros. Ele entrou no mundo, segundo ele mesmo diz, para cumprir a vontade de quem o enviou, e para completar esta obra. Nessa ocasião, quando é perseguido por seus inimigos, não deixa de ser um obreiro - um operador de milagres com o cego. Existem muitos neste mundo que desconsideram a tristeza [do próximo], que evitam os que sofrem mágoas, que estão surdos diante das lamentações, e cegos diante das aflições. O modo mais fácil que conheço para lidar com essa cidade onde moramos, maligna e desgraçada, é não ficar sabendo muito a respeito dela. Dizem que metade do mundo não sabe como a outra metade vive; certamente se soubesse não viveria de modo tão descuidado, nem seria tão cruel como o é. Existem vistas nesta metrópole que derreteriam um coração de aço e tornariam generoso um Nabal. Mas fechar os olhos para não ver nada da desgraça alheia que rasteja diante dos seus pés é um modo fácil de escapar do exercício da benevolência. "Onde a ignorância é felicidade, é tolice ser sábio"; assim disse um ignorante de vida fácil em tempos antigos. Se os mendigos são importunos, os transeuntes precisam ser surdos. Se os pecadores são profanos, é muito fácil para nós tampar os ouvidos e seguir adiante, com pressa.

Se esse cego precisa ficar sentado e mendigar diante da porta do templo, os que frequentam o templo devem passar rapidamente como se fossem tão cegos como ele. As multidões passam por ele e não o levam em conta. Não é assim que agem as pessoas hoje em dia? Se você está com aflição - se está com o coração partido -, elas não passam por você, sem considerá-lo, e seguem seu caminho para seu negócio ou sua casa, embora você esteja deitado, passando fome? O rico acha conveniente manter em ignorância as feridas de Lázaro. Não é assim com Jesus. Seu olhar é rápido para perceber o mendigo cego, mesmo que não veja outra coisa. Se ele não está embevecido com as pedras maciças e a bela arquitetura do templo, não deixa de fixar seus olhos num mendigo cego diante da porta do templo. Ele é todo olhos, todo ouvidos, todo coração, todo mãos, onde estiver presente a desgraça. Meu Mestre é feito de ternura; ele derrete de amor. Ó almas sinceras que o amam, imitem a ele nisso, e sempre deixem seu coração ser tocado por um sentimento fraternal pelos sofredores e pelos pecadores. Existem outros que, embora percebam a desgraça, não a diminuem mediante a calorosa simpatia, mas a aumentam mediante as suas conclusões lógicas frias. "A pobreza", dizem eles, "ora, pois bem: ela é obviamente provocada pela embriaguez e pela preguiça e por todos os tipos de vícios." Não digo que não é assim em muitos casos; mas digo que semelhante observação ajudará um pobre a se tornar melhor ou mais feliz; semelhantes palavras severas servirão mais para exasperar os endurecidos do que assistir aos que estão enfrentando a luta. "As enfermidades", dizem alguns, "oh, sem dúvida um grande montante de doenças é provocado por hábitos iníquos, a negligência das leis sanitárias", e assim por diante. Isso, também, pode ser a triste verdade, mas range no ouvido do sofredor. Não é uma doutrina muito bondosa e agradável para ensinar nas enfermarias dos nossos hospitais! Eu recomendaria que vocês não a ensinassem até que vocês mesmos ficarem doentes, e talvez então a doutrina não lhes pareça ser tão instrutiva. Até mesmo os discípulos de Cristo, ao ver esse cego, achavam que devia existir algo de notavelmente iníquo em seu pai e em sua mãe, ou algo de especialmente maligno no próprio homem, que Deus previu, e por conta do qual o castigou com a cegueira.
Os discípulos tinham a mesma atitude dos três consoladores de Jó, os quais, ao verem o patriarca no monturo, destituído de todos os seus filhos, e tendo sido roubados todos os seus bens, e ainda se raspando porque estava coberto de úlceras, disseram: "Obviamente, deve ser hipócrita. Deve ter feito alguma coisa muito terrível, senão não estaria tão gravemente afligido." O mundo insiste em ficar com sua crença infundada de que, se a torre de Siloé cair sobre algumas pessoas, elas devem ser pecadoras mais do que qualquer outro pecador na face da Terra. É uma doutrina cruel, uma doutrina vil, apropriada para selvagens, mas que não deve ser mencionada pelos cristãos, que sabe que o Senhor disciplina a quem ele ama, e até mesmo os mais amados por Deus têm sido levados embora de repente. Vejo, porém, grande quantidade dessa noção cruel circulando, e se algumas pessoas passam reveses, ouço o comentário sussurrado: "Pois bem, elas é que provocaram isso." É assim que vocês as animam?

Observações morais baratas, embebidas de vinagre, formam um alimento muito inferior para um inválido. Semelhantes censuras são um modo imprestável para ajudar um deficiente a superar um obstáculo - pelo contrário, trata-se de levantar ainda outro obstáculo diante dele, de modo que não possa mesmo superá-lo. Ora, noto isso a respeito do meu Senhor - que está escrito a seu respeito que "a todos dá liberalmente e não o lança em rosto" (Tg 1.5 - ARC). Quando ele alimentou aqueles milhares no deserto, ele teria sido muito justo se lhes tivesse dito: "Por que vocês todos saíram para o deserto e não trouxeram consigo seus provimentos? O que vocês estão fazendo neste lugar distante, sem trazer comida? Vocês são imprudentes e merecem passar fome." Não, não, ele não disse nenhuma dessas palavras, mas alimentou a todos eles e os mandou para casa bem alimentados. Você e eu não fomos enviados ao mundo para trovejarmos mandamentos do alto do Sinai; chegamos até ao monte Sião. Não vamos viajar num circuito como se fôssemos juízes e algozes ao mesmo tempo, para lidar com todas as tristezas e desgraças deste mundo com palavras amargas de censura e de condenação.
Se fizermos isso, seremos totalmente diferentes do nosso bendito Mestre que não fala nenhuma palavra de repreensão àqueles que o buscam, mas que simplesmente alimenta os famintos e cura a todos que precisam! É fácil criticar, é fácil repreender, mas nossa tarefa deve ser mais sublime e nobre: a da bênção e da salvação.

Observo, ainda, que existem alguns outros que, mesmo não sendo indiferentes à tristeza alheia e mesmo sem defender uma teoria cruel de condenação, não deixam de fazer especulações quando isso não tem nenhum proveito. Quando nos juntamos, muitas são as questões que desejamos discutir, mas que não têm o mínimo valor prático. Há a questão da origem do mal. Esse é um assunto excelente para aqueles que gostam de argumentar ou de retalhar a lógica, semanas a fio, sem produzir lascas de lenha suficientes para acender um fogo no qual se possa aquecer as mãos frias. Um assunto como esse foi levantado diante do Salvador - culpa prevista, ou mancha hereditária - "Quem pecou: este homem ou seus pais?" Até que ponto é certo que o pecado dos pais caia sobre os filhos, conforme acontece muitas vezes? Eu poderia propor muitos temas igualmente profundos e curiosos, mas para o que servem? Entretanto, existem muitas pessoas que gostam desses temas, que tecem teias de aranha, que sopram bolhas de sabão, que propõem teorias, as desmantelam, e propõem outras.

Fico duvidando que o mundo já ficou abençoado no valor de um tostão furado por todas as teorizações de todos os eruditos que já viveram. Isso tudo não pode ser classificado como altercação vã? Preferiria criar trinta gramas de ajuda do que uma tonelada de teoria. Acho lindo ver como o Mestre desmonta a especulação refinada que os discípulos propõem. Ele diz de modo breve: "Nem ele nem seus pais pecaram", e então cospe no chão, e faz barro, e abre os olhos do cego. A obra foi esta; o debate foi mera preocupação. Certo menino disse: "Pai, as vacas estão no campo de trigo. Como teriam entrado?" Responde o pai: "Filho, não se preocupe mais com isso, vamos nos apressar para tirá-las de lá." Há bom senso nessa atitude prática. Aqui, temos essas pessoas afundadas no vício e ensopadas de pobreza. Deixe para depois as perguntas - como chegaram a essa condição? Qual é a origem da iniquidade moral? Como é transmitida dos pais para os filhos? Responda às perguntas depois do dia do juízo, quando você terá mais luz; mas agora a parte mais importante é vermos como você e eu podemos tirar o mal do mundo, e como podemos levantar os caídos e restaurar aqueles que se desviaram. Não vamos imitar o homem da fábula que viu um menino se afogando e, imediatamente, lhe passou uma preleção a respeito da imprudência de ir para a água onde não mais dá pé. Não, não, vamos tirar o menino para a margem, secá-lo e vesti-lo, e então falar a ele que não deve mais fazer isso para que coisa pior não lhe aconteça.

Digo que o Mestre não era especulador; não ia tecendo teorias; não era um mero visionário; mas se lançava na obra e curava aqueles que necessitavam de cura. Ora, nisso ele é o grande exemplo para todos nós neste ano da graça. Vejamos: o que já fizemos para abençoar o nosso próximo? Muitos entre nós somos seguidores de Cristo, e como devemos ser felizes por isso. O que já fizemos que fosse digno da nossa chamada sublime? "Senhor, ouvi uma preleção numa noite destas, a respeito dos males da intemperança." É só isso que você fez? Surgiu daquela oratória brilhante e da sua atenção cuidadosa a ela, alguma atuação na prática? "Ora, senhor, pensarei nisso, algum dia destes." Entrementes, o que acontecerá com esses intemperantes? O sangue deles não jazerá diante da porta de vocês? Outro comenta: "Ouvi, faz poucos dias, uma preleção muito dinâmica e interessante a respeito da economia política, e achava que se tratasse de uma ciência de muito peso, e que explicasse boa parte da pobreza que você menciona."

Talvez fosse assim; mas a economia política, em si mesma, é dura como bronze; não tem entranhas, nem coração, nem consciência, nem pode levar em conta semelhantes coisas. O economista político é um homem de ferro, a quem uma lágrima enferrujaria, e por isso nunca tolera o âmbito da compaixão. Sua ciência é uma rocha que afundaria uma frota de navios, sem se comover com os gritos de homens e mulheres que se afundam. É como o vento oriental do deserto que cresta tudo sobre o que sopra. Parece a alma das pessoas que chegam a dominar a arte desse vento ou, melhor, são dominados por ele. É uma ciência de fatos teimosos, que não seriam fatos se nós não fôssemos tão embrutecidos. Com a economia política ou sem ela, volto ao meu argumento principal - O que você tem feito em favor do próximo? Pensemos mesmo nisso, e se alguém entre nós tem sonhado, dia após dia, com aquilo que faríamos "se", vejamos, o que podemos fazer agora e, de modo semelhante ao Salvador, por as mãos na obra.

Entretanto, não é esse o essencial que quero alcançar. Trata-se do seguinte. Se Jesus é tão operante, e não teórico, que alguns entre nós que precisamos dos seus cuidados podemos ter hoje? Estamos decaídos? Somos pobres? Levamos a nós mesmos à tristeza e à desgraça? Não confiemos nos homens, nem em nós mesmo? Os homens nos deixarão morrer de fome e depois farão um exame póstumo do nosso corpo com a ajuda da medicina legal, para descobrir por que ousamos morrer para, assim, necessitarmos das despesas de um túmulo e de um caixão. Certamente levantarão um inquérito depois de tudo se acabar conosco; mas se chegarmos a Jesus Cristo, ele não fará o mínimo inquérito, mas nos acolherá e dará descanso à nossa alma. Aquele é um texto bendito: Deus "a todos dá liberalmente e não o lança em rosto" (Tg 1.5 ARC). Quando o filho pródigo voltou para casa para do seu pai, o pai deveria lhe ter dito, segundo o modo considerado correto, de conformidade com o que as pessoas fariam hoje em dia: "Pois bem, você voltou para casa, e estou contente em vêlo, mas olhe o seu estado! Como você chegou a esse estado? Ora, você quase não tem um farrapo limpo no corpo! Como é que você ficou tão pobre? E você está tão magro e esfomeado; como aconteceu isso? Onde você esteve? O que você andou fazendo? Com quais companhias você andou? Onde estava você na semana passada? O que estava fazendo anteontem às sete horas?"

O pai não lhe fez uma única pergunta, mas o apertou contra o peito e, instintivamente, sabia tudo a respeito. O filho voltou assim como ele era, e o pai o acolheu assim como ele era. O pai parecia dizer, com um beijo: "Meu filho, vamos esquecer o que passou. Você estava morto, mas agora voltou a viver; você estava perdido, mas agora foi achado, e não quero perguntar mais nada." É exatamente assim que Jesus Cristo está disposto a acolher os pecadores arrependidos. Temos aqui uma meretriz das ruas? Venha, pobre mulher, assim como você está, ao seu querido Senhor e Mestre, que a purificará do seu pecado grave. "Todo tipo de pecado e blasfêmia será perdoado." Há alguém aqui que transgrediu as regras da sociedade, que é apontado como pessoa que transgrediu as regras da sociedade? Mesmo assim, venha, e seja bem-vindo, ao Senhor Jesus, a respeito de quem está escrito: 'Este homem recebe pecadores e come juntamente com eles.'" O médico nunca acha desprezível circular entre os doentes; e Cristo nunca considerou vergonhoso cuidar dos culpados e dos perdidos. Pelo contrário: escrevam isso em volta do seu diadema - "O Salvador dos pecadores, até mesmo do principal deles"; ele conta isso como sua glória. Ele operará a seu favor e não o repreenderá. Ele não tratará você com uma dose de teorias e com uma hoste de repreensões amargas; pelo contrário, ele acolherá você, assim como você está, nas feridas do seu lado, e ali o esconderá da ira de Deus. Oh, que bendito evangelho tenho para pregar a vocês! Que o Espírito Santo os leve a aceitá-lo! Até aqui, falei a respeito do obreiro.

II. Agora, a segunda questão é O ÂMBITO DO TRABALHO. Todo trabalhador precisa de um local de trabalho. Todo artista deve ter um estúdio. Cristo tinha estúdio? Sim, veio para realizar obras muito maravilhosas - as obras daquele que o enviou: mas que lugar tão estranho o Senhor achou para nele fazer as suas obras! No entanto, não me consta que pudesse ter achado qualquer outro. Resolveu realizar as obras de Deus e, para isso, selecionou o lugar mais apropriado. Uma das obras de Deus é a criação. Se for para Jesus realizar essa obra entre os homens, ele precisará descobrir onde está faltando alguma coisa que possa suprir mediante um ato de criação. Aqui estão dois olhos aos quais falta o aparelho apropriado para receber a luz; aqui, portanto, há oportunidade para Jesus criar os olhos e a vista. Ele não poderia ter criado olhos na minha cabeça, nem na sua cabeça, se estivéssemos presentes, pois os olhos já estão presentes, e mais olhos seriam inapropriados para nós.

No mendigo cego do templo havia espaço para Jesus produzir o que faltava no mecanismo curioso do olho; o olho cego, portanto, era a sua oficina. Se houve globos oculares, estavam totalmente destituídos de visão, e isso desde o nascimento do homem; essa foi a ocasião para o Senhor Jesus dizer: "Haja luz!" Se os olhos daquele homem tivessem sido como os seus e os meus, não teria havido oportunidade para a operação divina de nosso Senhor; mas, posto que o homem ainda estava nas trevas que o tinham cercado desde seu nascimento, seus olhos ofereciam espaço no qual o poder do Onipotente pudesse se manifestar por uma obra tão maravilhosa que, desde o princípio do mundo, nunca houvera notícia de cura de um homem que nascera cego. O homem estava cego "para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele." Oh, mas esse é um pensamento bendito se você quiser pensar a respeito! Aplique-o a você mesmo. Se faltar alguma coisa em você, há espaço para Cristo operar em você. Se você for perfeito pela natureza, e não houver nada que falte em você, então não haverá espaço para o Salvador fazer coisa alguma por você; pois ele não vai dourar o ouro refinado, nem colocar esmalte branco no lírio. Mas se você estiver sofrendo com alguma deficiência grave, alguma falta pavorosa que faz sua alma ficar nas trevas, a sua necessidade é a oportunidade de Cristo, a necessidade que você tem de graça supre a necessidade que Cristo tem de objetos para a sua misericórdia. Aí há espaço para o Salvador vir demonstrar a sua compaixão para com você, e você pode ter certeza de que ele estará do seu lado imediatamente. Assim seja: Vem, Senhor Jesus. Ainda por cima, não era somente a deficiência da vista desse homem, mas também a sua ignorância que precisava da ajuda do Onipotente. É obra de Deus, não somente criar, mas também iluminar. O mesmo poder que chama à existência, também chama à luz, seja esta natural ou espiritual. É uma obra divina iluminar e regenerar o coração humano. Esse homem estava nas trevas tanto em mente quanto em corpo - que coisa grandiosa foi iluminá-lo nos dois sentidos! Ele não conhecia o Filho de Deus e, por isso, não acreditava nele, mas perguntou com assombro: "Quem é ele, Senhor, para que eu nele creia?" Jesus Cristo veio para operar nesse homem o conhecimento de Deus, a vida de Deus - numa palavra: a salvação -; e porque esse homem estava destituído dessas coisas, havia nele espaço para a perícia e o poder do Salvador. Amigo, é esta a sua situação? Você não está convertido?

Nesse caso, existe espaço em você para o Redentor operar mediante a graça que converte. Você não está regenerado? Nesse caso, existe espaço em você para o Espírito de Deus operar a regeneração. Todas essas deficiências espirituais que você tem - sua ignorância e suas trevas - serão transformadas pelo infinito amor em oportunidades para a graça. Se não estivesse perdido, você não poderia ser salvo. Se não estivesse culpado, não poderia ser perdoado. Se não fosse pecador, não poderia ser purificado. Mas todo o seu pecado, e sua tristeza, mediante um mistério estranho de amor, é um tipo de qualificação de você mesmo para Cristo vir salvá-lo. Alguém comenta: "Para mim, o caso assim é apresentado numa nova luz." Aceite essa nova luz e seja confortado, pois é luz do evangelho, e tem o propósito de animar os desesperançosos. Você fala: "Nada de bom existe em mim"; fica claro, portanto, que há lugar para Cristo ser tudo para você. Você percebe que não podem existir dois "tudo"; só pode existir um, e já que você não está pretendendo esse título, Jesus o ostentará. Todo o espaço que você ocupar na sua própria estima remove o mesmo tanto de espaço da glória do Senhor Jesus; se você não é nada, sobra essa casa inteira para o Salvador ocupar. Ele entrará, e encherá todo o seu vácuo interior com sua própria querida pessoa, e será glorioso aos seus olhos para sempre.
Aventuro-me a dizer nesta noite que todas as aflições podem ser consideradas desta mesma maneira: oferecem oportunidades para a obra de misericórdia de Deus. Sempre que você vê um homem envolto em tristezas e aflições, a maneira certa de considerar essa situação não é culpar a ele e querer saber como chegou a esse ponto, mas dizer: "Aqui temos uma abertura para o amor onipotente de Deus. Trata-se de uma ocasião para a demonstração da graça e bondade do Senhor." Esse homem, sendo cego, deu ao Senhor Jesus a oportunidade de praticar a boa ação de lhe restaurar a vista, e aquela obra era uma maravilha tão grande que todos que estavam ao redor se sentiram obrigados a notá-la e admirá-la. Os vizinhos começaram a perguntar a respeito, os fariseus precisaram realizar um conclave a respeito do assunto; e, embora quase dezenove séculos tenham se passando, aqui estamos nós, nesta hora, meditando a respeito. Os olhos abertos desse homem continuam iluminando os nossos olhos nesta hora. A Bíblia não teria sido completa sem essa narrativa tocante e instrutiva; se esse homem não tivesse nascido cego, e se Cristo não lhe tivesse aberto os olhos, todas as gerações teriam recebido menos luz. Devemos ficar contentes por esse homem ter ficado tão aflito, pois assim recebemos instrução graciosa. Se ele não tivesse sido destituído da visão, não teríamos visto a grande visão da cegueira de nascença sendo expulsa por aquele que é a Luz dos homens.

Assim, posso falar a todos os aflitos: não sejam rebeldes com suas aflições; não se deixem perturbar excessivamente por elas, nem se deixem desanimar totalmente por elas; mas considerem-nas como aberturas para a misericórdia, portas para a graça, entradas para o amor. O vale de Açor será para vocês uma porta de esperança. O obreiro poderoso, a respeito de quem falei, achará uma oficina na aflição de vocês, e nela formará monumentos da sua graça. Glorifiquem-se nas suas enfermidades para que o poder de Cristo repouse sobre vocês. Regozijem-se porque, à medida que as suas tribulações abundarem, assim abundarão as suas consolações por meio de Jesus Cristo. Peçam a ele que faça todas as coisas cooperar para o bem de vocês e a glória dele e assim será feito.

Será completo o meu pensamento a respeito da oficina depois que eu falar que acredito que o próprio pecado tem um aspecto semelhante ao da aflição, porque dá lugar à misericórdia de Deus. Dificilmente posso dizer aquilo que Agostinho disse - ao falar do pecado e da queda de Adão, e considerando todo o esplendor da graça que se seguiu depois, ele disse: "Beata culpa" - culpa bendita - como se pensasse que o pecado fornecera tamanhas oportunidades para o desvendar da graça de Deus, e demonstrara de tal maneira o caráter de Cristo, que até mesmo ousou chamá-la de culpa bendita. Não me aventurarei a usar semelhante expressão, e não ouso fazer mais do que repetir aquilo que aquele grande mestre em Israel disse em tempos passados; mas digo mesmo que não posso imaginar uma ocasião para glorificar a Deus comparável ao fato de o homem ter pecado, posto que Deus entregou Cristo para morrer em prol dos pecadores. Como aquele dom inefável poderia ter sido outorgado se não tivesse havido pecadores? A cruz é uma constelação da glória divina mais brilhante do que a própria criação.

"É, pois, na graça que os homens salvou,
Que sua forma mais nobre da glória brilhou;
Está escrita mais bonita aqui na cruz da salvação
Em sangue precioso e em linhas de carmesim que traz redenção."

Como poderíamos ter conhecido o coração de Deus? Como poderíamos ter entendido a misericórdia de Deus? Não fosse o nosso pecado e desgraça, como poderiam ter sido demonstrados semelhante clemência e amor? Venham, pois, ó culpados, animem-se, busquem a graça. Assim como o médico precisa dos enfermos a fim de que possa exercer sua capacidade para curar, assim também o Senhor da misericórdia precisa de vocês para ele demonstrar a graça que pode conceder. Se eu fosse um médico, e desejasse uma clínica, não procuraria saber a respeito da região mais saudável, mas uma localização onde os enfermos encheriam o meu consultório. Se tudo quanto eu buscasse fosse praticar o bem ao meu próximo, eu desejaria estar no Egito ou em algum outro país acometido pelo cólera ou pela peste, onde pudesse salvar vidas humanas.

O Senhor Jesus Cristo, olhando para a multidão nesta noite, procura, não aqueles que são bons (ou que assim se consideram), mas os culpados, que reconhecem ser essa a sua situação e a lastimam. Se houver aqui um pecador, leproso e contaminado; se houver aqui uma alma, doente da cabeça aos pés, sofrendo a enfermidade incurável do pecado, o Senhor Cristo, o obreiro poderoso, olha para ela, porque nela descobre um laboratório dentro do qual possa realizar as obras daquele que o enviou.

III. Tenham paciência comigo agora, enquanto passo, em terceiro lugar, a notar de forma breve O SINO DO TRABALHO. Vocês escutam, bem cedo, um sino que acorda os trabalhadores em suas camas. Vejam como se deslocam juntos pelas ruas, como abelhas apressando-se na ida e na volta para a colméia. Você os vê saindo para o trabalho, pois o sino está soando. Havia um sino do trabalho para Cristo, também, e ele o ouvia. Então ele disse: "Preciso trabalhar; preciso trabalhar, preciso trabalhar." O que o levou a fazer isso? Ora, a visão daquele cego. Tão logo o viu, disse: "Preciso trabalhar." O homem não pedira nada, nem emitira um som; mas aqueles globos oculares sem som falavam com eloquência ao coração do Senhor Jesus, e entoavam bem alto a chamada que Jesus escutou e à qual obedeceu, pois ele mesmo disse: "Preciso trabalhar."

E por que precisava trabalhar? Porque viera do céu distante com o propósito de assim fazer. Viera da parte do trono do seu Pai a fim de ser um homem com o propósito de abençoar os homens, e não permitiria que sua longa descida fosse infrutífera. Precisava trabalhar; por qual outra razão estava aqui, onde havia trabalho para ser realizado?

Além disso, havia impulsos em seu coração, que não precisamos parar para explicar agora, e que o forçavam a trabalhar. Sua mente, sua alma, seu coração, estavam cheios de uma força que produzia atividade perpétua. Às vezes, quando viajavam, ele selecionava certa rota porque "precisava passar pela Samaria". Às vezes, procurava as pessoas porque dizia: "Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também" (Jo 10.16). Havia em Cristo um tipo de instinto para salvar os homens, e aquele instinto ansiava por ser gratificado, e não aceitaria uma recusa. "Preci-so trabalhar", disse ele. Só ver aqueles olhos cegos o levou a dizer: "Preciso trabalhar", e pensou naquele pobre homem - como este vivera durante vinte anos e mais nas trevas - como não conseguira desfrutar das belezas da natureza, ou ver o rosto dos seus amados, nem ganhar o seu pão de todos os dias; e sentia compaixão das tristezas daquele homem que ficava nas trevas vitalícias. Além disso, ao se lembrar de como a alma daquele homem também ficara encerrada como um prisioneiro na masmorra, em razão da ignorância grosseira, disse: "Preciso trabalhar, preciso trabalhar. Podem me apedrejar se quiserem, mas preciso trabalhar. Ouço a convocação e preciso trabalhar."

Agora, aprendam esta lição vocês que são seguidores de Cristo. Sempre que virem o sofrimento, espero que cada um de vocês sinta: "Preciso trabalhar, preciso ajudar." Se são dignos do Cristo a quem chamam de líder, que todas as necessidades das pessoas possam impelir vocês, compelir vocês, constranger vocês a ser uma bênção para elas. Que o mundo que jaz no iníquo os desperte; que os clamores dos homens da Macedônia os despertem ao falarem: "Venham para cá e nos ajudem!" Os homens estão morrendo, e morrendo nas trevas. O cemitério está ficando cheio, e o inferno também está se enchendo. Os homens estão morrendo sem esperança; e estão passando para a noite eterna. "Preciso trabalhar." Eles exclamam: "Mestre, poupa a ti mesmo: a labuta incessante te esgotará e te levará à sepultura." Mas vejam! Vejam! Vejam! A perdição engole multidões, descem vivos para o abismo! Escutem seus gritos lastimosos! Almas perdidas estão sendo excluídas de Deus. "Preciso trabalhar." Quem dera que eu pudesse colocar a minha mão - ou, muito melhor, que meu Mestre colocasse a sua mão furada em cada cristão genuíno e pressionasse-o com ela até ele exclamar: "Não posso ficar sentado aqui. Preciso ir à obra tão logo o culto termine. Devo, além de escutar, e contribuir, e orar, também trabalhar."

Pois bem, essa é uma lição grandiosa; mas não pretendo que seja a lição principal, pois estou à procura daqueles que anseiam por achar misericórdia e salvação. Para você, caro amigo, é uma grande bênção se você quer ser salvo, porque Cristo precisa salvar! Existe nele o grande impulso de fazer questão de salvar. Sei que vocês dizem: "Não consigo orar. Nem tenho vontade de orar." Não se preocupem com isso: a questão está entregue a mãos mais capacitadas. Vejam bem: esse homem não disse uma palavra; bastava vê-lo para comover o coração do Senhor Jesus. Tão logo Jesus o viu disse: "Preciso trabalhar." Vocês já viram um homem sem dotes oratórios, mas que consegue receber esmolas em grande escala? Eu já. Ele se veste como trabalhador camponês. Usa um blusão comprido e se senta num cantinho por onde muitos passam; o lugar onde faz seu ponto fica um pouco fora do trânsito impetuoso, mas suficientemente perto para conseguir a atenção de muitos transeuntes. Deixa visível uma enxada, muito surrada pelo uso feito dela por outra pessoa, e nela está escrito: "Estou morrendo de fome!" Parece extenuado e faminto; a montagem é extremamente bem feita, e fica tão pálido quanto o giz pode torná-lo. Oh, quantas moedinhas de cobre entram no seu velho chapéu! Como as pessoas têm pena dele! Ele não canta uma modinha tristonha; não fala uma única palavra; no entanto, muitos são comovidos pelo fato de parecer verdade que está morrendo de fome. Agora, meu caro, você não precisa ser falso naquilo que faz se apresentar sua desgraça e pecado diante do Senhor. Nesta noite, quando chegar em casa, ajoelhe-se à beira da sua cama e diga: "Senhor Jesus, não sei orar; mas aqui estou. Estou perecendo e me coloco diante da tua vista. Em vez de escutar as minhas petições, olhe para os meus pecados. Em vez de exigir argumentos, olhe para a minha iniquidade. Em vez de escutar minha oratória, que nem possuo, Senhor, lembre-se de que dentro em breve estarei no inferno se o Senhor não me salvar." Então, o sino tocará, e o grande obreiro achará que chegou a hora de ele labutar; e dirá, nas palavras do texto em estudo "Preciso trabalhar", e em você as obras de Deus se manifestarão. Você será a oficina de Cristo.

IV. Temos mais uma divisão, e esta é o DIA DO TRABALHO. Nosso Mestre divino disse: "Enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar."

Essas palavras não se referem a Cristo, o Salvador ressurreto, mas ao Senhor Jesus Cristo enquanto era homem aqui na Terra. Havia aquele determinado dia em que ele podia abençoar os homens, e uma vez passado, ele teria partido; não haveria mais Jesus Cristo na Terra para abrir os olhos dos cegos ou curar os enfermos; ele não estaria mais presente entre os homens, para que estes o abordassem como aquele que cura as doenças do corpo. Nosso Senhor, como homem aqui na Terra, teve um dia. Era somente um dia - um período breve, não muito prolongado; não poderia ser prolongado, pois assim era determinado pelo grande Senhor. O dia do seu sacrifício fora determinado; ele mesmo disse certa vez: "A minha hora ainda não chegou." Mas essa hora acabou chegando. Nosso Senhor ocupou trinta anos no seu preparo para a sua obra vitalícia, e então, durante três anos, cumpriu o trabalho que lhe foi imposto (Is 40.2). Quantas coisas ele compactou nesses três anos! Serviços prestados durante séculos a fio não poderiam se igualar às labutas daquele breve período. Irmãos, alguns entre nós já realizaram trinta anos de trabalhos, mas fizemos bem pouco serviço, lastimo; e como fica se apenas nos sobrarem mais três? Sintamos os impulsos da eternidade que se aproxima!

Dentro de pouco tempo, já não estarei olhando os rostos da multidão, e as pessoas se lembrarão de mim apenas como um nome; por isso, pregarei da melhor maneira que eu puder, enquanto tiver força e a minha vida for prolongada. Dentro de pouco tempo, irmãos, vocês não terão a capacidade de ir de porta em porta conquistando almas: a rua sentirá a sua falta com seus folhetos; o distrito sentirá falta de suas visitas regulares. Faça bem o seu trabalho, porque seu sol não demorará a se por. Essas palavras talvez sejam mais proféticas para algumas pessoas do que estamos sonhando. Devo estar falando com alguns que estejam se aproximando da sua última hora e que dentro em breve prestarão contas. À obra, irmãos! À obra, irmãs! Digam: "Devemos trabalhar, pois a noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar." A vida não pode ser prolongada por assim querermos; a predestinação não encompridará o fio quando vier a hora de ele ser cortado. A mais longa das vidas será curta, e, oh, quão curta para aqueles que morrem jovens!

Se você ou eu omitirmos alguma parte da obra da nossa vida, nunca poderemos compensar a omissão. Falo com reverência solene a respeito do nosso Mestre divino, mas, se ele não tivesse curado aquele cego no curto período em que viveu na Terra, ficaria faltando parte das tarefas que o Pai o enviou para realizar. Não quero dizer que, como Deus, não pudesse, a partir do céu, ter dado a vista ao pobre mendigo, mas esse fato torna o caso mais grave ao se aplicar a nós, posto que não temos a expectativa de semelhante futuro; se não servirmos aos homens agora, estará fora do nosso alcance abençoá-los a partir do céu. Essa narrativa nunca poderia ter aparecido na vida do Filho do homem se ele tivesse se esquecido de ser gracioso com o cego. O tempo certo para nosso Senhor trabalhar era enquanto habitava aqui embaixo; se fosse para ele voltar do céu a fim de curar o homem, isso teria que ser feito num segundo advento, e não no primeiro; e se até mesmo ele omitisse alguma coisa da sua primeira missão embaixo, não poderia ser reposta. Depois de você e eu escrevermos uma carta, escrevemos um pós-escrito; depois de escrevermos um livro, poderemos escrever um apêndice ou inserir alguma coisa que omitimos. Mas a esta nossa vida, não poderá haver um pós-escrito. Devemos fazer nosso trabalho agora ou nunca; e se não cumprirmos nosso serviço para Deus agora, agora mesmo, enquanto tivermos a oportunidade à disposição, nunca poderemos cumpri-lo. Se você omitir alguma coisa ontem, você não poderá alterar o fato do serviço imperfeito naquele dia. Se estiver mais zeloso agora, será a obra de hoje; mas o ontem continuará sendo tão incompleto quanto você o deixou. Devemos, portanto, ficar alerta para cumprir a obra daquele que nos enviou, enquanto ainda estivermos no hoje.

Chego a essa conclusão, e aqui começo a terminar - se nosso Senhor Jesus Cristo era tão diligente para abençoar os homens enquanto estava aqui, tenho certeza de que não é menos diligente para escutá-los e curá-los agora, no sentido espiritual que ele continua operando entre os homens.

Quem dera que eu soubesse levá-los a buscar o meu Senhor e Mestre; pois se vocês o buscassem, ele será achado por vocês tão certamente como vocês o buscam. Cristo não perdeu sua entranhável compaixão; não tem coração frio nem mão relapsa. Vá para ele imediatamente. Falei, há pouco tempo, a alguns dos piores pecadores, e lhes digo de novo - Vão para Jesus! Quero falar com alguns entre vocês que não são os piores pecadores, com vocês que têm sido ouvintes do evangelho e só falharam porque não crêem em Jesus. Vão até ele imediatamente. Vocês estão relutantes, mas ele, não. Ele precisa continuar trabalhando, e continuar enquanto durar o dia do evangelho, pois aquele dia chegará ao fim dentro de pouco tempo. Ele está esperando e vigiando por você. Oh, venham a ele - venham agora mesmo. "Não sei o que é vir a ele", diz alguém. Pois bem: vir a Cristo é simplesmente confiar nele. Vocês são culpados; confiem nele para perdoá-los. "Se eu fizer assim", pergunta alguém, "posso continuar vivendo como antes?" Não, isso você não pode, pois quando um navio deve ser conduzido para dentro do porto e recebe um piloto a bordo, este dirá ao capitão: "Capitão, se você confiar em mim, vou colocar o navio dentro do porto em segurança. Olhe, mande descer aquela vela." E eles não o fazem. "Venha", diz o piloto, "cuide do leme, e governe o navio conforme mando." Mas eles se recusam. "Pois bem", diz o piloto, "você disse que confiava em mim." "Sim", responde o capitão, "e você disse que se confiássemos em você, você nos colocaria no porto; mas não chegamos ao porto de jeito algum." "Não", diz o piloto, "vocês não confiam em mim, pois se confiassem, fariam o que lhes mando." A confiança genuína obedece aos mandamentos do Senhor, e estes proíbem o pecado. Se você confia em Jesus, você deve deixar de pecar, tomar a sua cruz, e seguir a ele. Semelhante confiança receberá com certeza a sua recompensa: você será salvo agora, e salvo para sempre.
Que Deus abençoe vocês, caros amigos, por amor a Cristo.

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