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8 de jun. de 2011

Deus espera com a mão estendida? – João Calvino (1509-1564)



Em Jeremias (32:39-40) Deus diz: "Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias"; "Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim." E logo no princípio da profecia de Ezequiel (11:19): "Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne." Deus considera nossa conversão como criação de um novo espírito e um novo coração. Como então poderia Ele reivindicar mais claramente para Si mesmo tudo o que é bom e reto na vontade do homem?

Com isso estão de acordo as orações dos santos. Salomão disse: "O Senhor nosso Deus seja conosco... a fim de que a si incline os nossos corações para andarmos em todos os seus caminhos e guardarmos os seus mandamentos."(1 Rs. 8:57-58). E no Salmo 119 achamos a oração: "Inclina o meu coração a teus testemunhos, e não à cobiça" (v. 36). Davi pede a Deus que crie nele um coração puro, e renove nele um espírito reto, reconhecendo que seu coração está cheio de impureza e seu espírito de perversidade, e reconhecendo que a pureza que pede em oração é criação de Deus.

O testemunho de Cristo a respeito deste ponto fica claro para todos aqueles que não fecham seus olhos deliberadamente: "Eu sou a videira; vós os ramos; meu Pai é o agricultor. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira; assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim." (Jo. 15:1, 4-5). Se não podemos produzir mais frutos por nós mesmos do que um ramo de videira arrancado do seu tronco e privado de seiva, então não precisamos ir mais longe em busca da nossa capacidade natural para o bem. Igualmente decisiva é a conclusão de Cristo: "Sem mim nada podeis fazer."

O apóstolo Paulo, numa passagem que já citei, atribui a Deus todas as boas obras: "porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fil. 2:13). A primeira parte de uma boa obra é a vontade de praticá-la; a segunda é um esforço eficaz para realizá-la; o autor de ambas é Deus. Portanto, furtamos a

Deus tudo quanto arrogamos a nós mesmos, seja com respeito ao querer ou ao fazer. Deus tanto inicia como completa. Vem da parte dEle que nossa vontade conceba o amor daquilo que é certo, seja inclinada a desejá-lo, e seja despertada para procurá-lo; que nossa escolha, nosso desejo e nosso esforço não fracassem, mas sim sejam realizados; que continuemos nas boas obras e perseveremos nelas até o fim.

Deus move a vontade do homem na conversão, de modo eficaz, não deixando à escolha do pecador se ele obedecerá ou desobedecerá. Devemos rejeitar, portanto, uma declaração de Crisóstomo, freqüentemente citada:"Aquele que é atraído por Deus é atraído voluntariamente", pela qual subentende que Deus espera com a mão estendida para ver se queremos aceitar Sua ajuda, ou não. O apóstolo não nos diz que a graça de uma vontade renovada nos é oferecida na condição de a aceitarmos, mas que a própria vontade é gerada por Deus em nós; ou seja, que o Senhor pelo Seu Espírito dirige, molda, regula nosso coração e reina nele como no Seu próprio reino.

Teria ficado igualmente certo que a perseverança deva ser considerada o dom gratuito de Deus, se não fosse a prevalência do erro grave de que a perseverança é a recompensa do mérito humano, e é dada àqueles que foram devidamente gratos pela graça recebida. Mas visto que este erro brotou de um outro que já refutei, a saber, que depende do homem aceitar ou rejeitar a graça que Deus oferece, o erro originador tendo sido refutado, o segundo cai por terra.

E agora, escutemos Agostinho. Suas palavras mostrarão que não somos, conforme alegam nossos adversários, contraditos pela voz unânime dos pais antigos. Farei um esboço breve da opinião de Agostinho, usando suas próprias palavras.

"Foi concedido a Adão ficar firme se fosse da sua vontade assim fazer; a nós é dado querer e a vencer o mal pela vontade. Ele teria o poder, se apenas tivesse a vontade; Deus nos dá tanto a vontade quanto o poder. Sua liberdade era esta: ser capaz de não pecar; a nossa é maior, a saber: não ser capaz de pecar (1 Jo. 3:9). Se naquela fraqueza, em que o poder de Deus se aperfeiçoa, os santos

fossem deixados a exercerem sua própria vontade, e se Deus não operasse neles para querer e para realizar, a vontade deles falharia devido à própria fraqueza em meio às suas muitas tentações, e não seriam capazes de perseverar. Deus atrai os homens pela própria vontade deles, mas Ele mesmo opera naquelas vontades."

Noutro lugar, Agostinho diz que a graça não priva o homem da sua vontade, e sim transforma-a de uma má vontade para uma boa vontade, e depois passa a assisti-la; com isso quer dizer que o homem não é forçado, por assim dizer, por algum impulso externo, e sim está tão afetado interiormente que obedece de coração. Diz também, numa das suas cartas: "Sabemos que a graça de Deus não é dada a todos os homens; e que, onde é dada, não o é na base dos méritos das obras do homem nem da vontade do homem, mas pela livre graça; e sabemos que onde não é dada, é retida pelo justo julgamento de Deus." E em certo lugar resume admiravelmente a questão inteira desta forma: "Humana voluntas non libertate gratiam, sed gratia consequitur libertatem, isto é, a vontade humana não obtém a graça mediante a liberdade, e sim a liberdade mediante a graça."

Fonte: [Josemar Bessa]

7 de mai. de 2011

O Beneplácito de Deus é a causa da Lei – João Calvino


Ao colocar diante de nós a Sua lei como padrão de justiça, Deus baseou cada uma das suas exigências no Seu beneplácito; concluímos disso que nada é tão aceitável a Ele como obediência à Sua vontade. Este ponto é digno da nossa mais cuidadosa consideração, porque a mente do homem está continuamente disposta a inventar novos modos de culto para granjear a aprovação de Deus. Em todas as eras, esta religião irreligiosa tem-se mostrado e ainda se mostra em nossos próprios dias; os homens sempre estão procurando alcançar a justiça por algum meio diferente daquele que está registrado na Palavra de Deus; e daí ocorre que, entre as realizações que geralmente são consideradas boas obras, os atos de obediência aos preceitos dos homens ocupam o lugar de primazia e os preceitos de Deus são quase esquecidos. A melhor cura para esta enfermidade é lembrar-se constantemente que a lei foi dada por Deus para nos ensinar a verdadeira justiça; e que nela não é ensinada retidão alguma senão a obediência à vontade divina, pois segue-se disto que todas as boas obras inventadas pelo homem são vãs.

Antes de discutirmos cada mandamento separadamente, seria bom ressaltar três considerações que são aplicáveis aos dez como um todo.


1.         A primeira é esta: a lei reivindica do homem não apenas o decoro externo como também a justiça interior e espiritual. Embora isto seja reconhecido por todos os homens, realmente é crido por muito poucos; e isto se deve ao fato de que não consideram devidamente o caráter do Legislador. Se um rei terrestre promulgasse um édito proibindo a fornicação, o assassínio e o furto, não afetaria os homens que se abstivessem de cometer externamente tais transgressões. Neste caso, o legislador apenas toma conhecimento de atos exteriores. Mas quando Deus, cujo olho vê todas as coisas, proíbe a fornicação, o assassínio e o furto, Sua proibição estende-se aos pensamentos do coração, tais como a concupiscência, o ódio e a cobiça.


2.        Há mais nos mandamentos e proibições de Deus do que aparece na superfície das palavras. Devemos considerar o objetivo pelo qual foi dado cada mandamento. Por exemplo, o quinto mandamento, "Honra a teu pai e a tua mãe" visa ensinar-nos que honra deve ser dada a todas as pessoas que Deus revestiu com honra. Devemos, no entanto, tomar o cuidado de não forçar demais este método de interpretação, a fim de não nos tornarmos culpados de torcer as Escrituras para adaptar-se ao nosso próprio interes¬se. Aqueles que assim fazem, podem obter o que quiserem de qualquer coisa (quodlibet e quolibet). Devemos fielmente representar a mente pura e genuína do Legislador.


3.        Não é sem boa razão que a lei foi dada em duas tábuas. Este fato é mencionado várias vezes (Êx. 31:18; 32:15, 19; 34:1, 4, 29), e todos os expositores sólidos admi¬tem que o fato é importante e relevante. Deus, dessa forma, dividiu Sua lei, o padrão completo da justiça, em duas partes, de modo que uma delas tratasse do relacionamento entre o homem e Deus, e a outra do relacionamento entre o homem e o seu semelhante. O fundamento básico da justiça é a adoração a Deus, e se ele for transtornado todos os demais ramos da justiça serão danificados e subvertidos. Portanto, a primeira tábua nos ensina a piedade e os deveres peculiares da religião, e a segunda nos diz como Deus  quer  que procedamos  com  o  nosso  próximo.  Desse modo, nosso Senhor Jesus Cristo resume a lei inteira em dois títulos: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" [Mat. 22:37-40;   Luc.  10:27).

Fonte: [O Calvinista]

30 de mar. de 2011

Absolvição na condenação e bênção na maldição - João Calvino


Se alguém nos perguntar como Cristo aboliu o pecado, reconciliou-nos com Deus e obteve para nós uma retidão justificadora, podemos responder que assim fez mediante todo o transcurso da Sua obediência. Uma prova disso é fornecida pelas palavras de Paulo em Rom. 5:19, "Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tor¬naram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos." Também em Gal. 4:4 ele se refere à vida toda de Cristo como o meio da nossa liber¬tação da maldição, "Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei." De fato, desde o momento em que tomou sobre Si a forma de um servo, começou a pagar o preço da redenção. E contudo, para de¬finir de modo mais seguro o meio da nossa salvação, as Escrituras atribuem-na de maneira especial à morte de Cris¬to. Ele mesmo diz: "O Filho do homem veio dar a sua vida em resgate por muitos" (Mat. 20:28). Paulo nos diz que "Cristo morreu pelos nossos pecados" (1 Cor. 15:3). E João Batista exclama: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" (Jo. 1:29). Se eu fosse citar todas as passagens com significado semelhante, o número delas seria imenso. No entanto, a obediência prestada a Deus por Cristo duran¬te Sua vida precisa ser calculada como parte da Sua obra redentora. Paulo a inclui quando diz que Cristo "a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à mor¬te, e morte de cruz" (RI. 2:7-8). E é evidente que até mesmo na Sua morte grandíssima importância pertence à submis¬são voluntária da vítima divina, pois um sacrifício que não fosse oferecido de livre vontade não teria eficácia para justificarmos; daí o Senhor disse expressamente: "Ninguém tira minha vida de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo. 10:18). E somos informados nos Evangelhos que Ele foi voluntariamente ao encontro dos soldados, e submeteu-Se a ser condenado por Pilatos sem abrir Sua boca para defender-Se.

Aqui duas coisas devem ser observadas que não somente foram preditas pelos profetas, mas também trazem à nossa fé o maior conforto e confirmação, Primeiramente, foi enviado para a morte a partir do tribunal. Por que assim? A fim de que tomasse o lugar de um pecador, porquanto Sua morte não foi por causa da Sua inocência, mas sim por causa da nossa culpa. Em segundo lugar, foi inocentado pela mesma boca que O condenou, já que Pilatos foi compelido, mais de uma vez, a dar testemunho da Sua inocência; e nisto foi cumprida a predição: "Por isso tenho de restituir o que não furtei" (Sal. 69:4). Esta compensação precisa ser especialmente lembrada, a fim de não passarmos nossa vida inteira temendo o justo juízo de Deus. O Filho de Deus transferiu aquele julgamento para Si mesmo e sofreu sua sentença.

Há um significado misterioso até mesmo no tipo de morte que Cristo padeceu. A cruz era maldita, não apenas na opinião do homem, mas também pelo decreto da lei de Deus (Deut. 21:23). Portanto, ao ser levantado sobre ela, Cristo Se colocou sob uma maldição. E isso era necessário, a fim de que a maldição merecida por nós por causa dos nossos pecados, viesse sobre Ele. Este fato foi prefigurado nos sacrifícios prescritos na lei de Moisés e foi cumprido no sacrifício de Cristo. E dessa forma ficou claro o que o profeta queria dizer, "O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos" (is. 53:6). Para remover a contaminação da nossa iniquidade. Ele foi, por imputação, revestido dela; e o símbolo desta transferência foi a cruz, conforme o apóstolo Paulo testifica: "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição e nosso lugar, porquê está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Cristo Jesus" (Gal. 3:13-14). De modo semelhante, Pedro nos diz que Cristo "carregou ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados" (1 Ped. 2:24), porque pela cruz que era o próprio símbolo da maldição, entendemos mais claramente que o fardo que estava nos esmagando foi colocado sobre Ele. Dessa forma, a fé apreende absolvição na condenação de Cristo e bênção na Sua maldição.

Fonte: [O Calvinista]
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