19 de jul. de 2010

A Verdadeira Fé gera Compromisso – A. W. Tozer



Para muitos cristãos, Cristo é um pouco mais que uma idéia. Ele não é um fato. Milhões de cristãos professos falam como se Ele fosse real e agem como se Ele não fosse. E sempre nossa verdadeira posição se faz manifesta pelo modo como agimos, não pelo que falamos.

Podemos provar nossa fé por meio de nosso compromisso com ela, e não de outra forma. Qualquer fé que não conduz aquele que a sustenta não é verdadeira; não passa de uma pseudo fé e pode abalar profundamente alguns de nós se formos subitamente colocados frente a frente com I nossas convicções e forçados a testá-las nas labaredas da vida prática.
Muitos de nós, cristãos, tornamo-nos extremamente habilidosos  em organizar nossa vida de forma a admitir a verdade do Cristianismo sem ficarmos envergonhados com suas implicações. Dispomos as coisas ; de modo que possamos nos dar bem o bastante sem a ajuda divina, ao mesmo tempo em que, ostensivamente, a buscamos. Vangloriamo-nos ; no Senhor, mas vigiamos atentamente para que nunca nos encontremos em uma situação de dependência dele. "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? (Jr 17.9).



A pseudo fé sempre arruma uma saída no caso de Deus falhar. A verdadeira fé conhece apenas um caminho e se dá o prazer de ser desprovida de um segundo caminho ou de substitutos paliativos. Para a verdadeira fé, ou é Deus ou é a queda total. E não faz sentido Adão ter primeiro aparecido na terra tivesse Deus falhado com um único homem ou mulher que Nele confiou.

O homem que tem uma pseudo fé lutará por sua crença em termos verbais, mas se recusará terminantemente a permitir que seja colocada em uma situação difícil onde seu futuro deverá depender dessa fé como sendo algo verdadeiro. Ele sempre se mune de formas secundárias de fugi para que tenha uma saída caso o teto venha a desabar.

O que precisamos urgentemente nesses dias é de um grupo de cristãos que estejam preparados a confiar totalmente em Deus tanto agora  como no último dia. Para cada um de nós certamente está prestes a chegar o tempo em que não teremos outra coisa senão Deus. Saúde, riqueza amigos, esconderijos desaparecerão e teremos apenas Deus. Para o homem que tem a pseudo fé. esta é uma idéia apavorante, mas para o que tem a verdadeira é uma das idéias mais confortantes que o coração pode nutrir.


Seria uma tragédia, de fato, chegar ao lugar onde não temos outra coisa senão Deus e descobrir que não confiamos realmente Nele durante i nossa passagem pela terra. Seria melhor convidar Deus agora para pôr fim a toda confiança falsa, libertar nosso coração de todos os recônditos secretos; nos levar a um lugar exposto para que possamos descobrir, por nós mesmos se realmente confiamos Nele ou não. Este é um remédio terrível, porém infalível, para nossas dificuldades. Remédios menos fortes podem ser muito fracos para a realização desta obra. E o tempo está passando diante de nós.

17 de jul. de 2010

A Cruz de Cristo - J.C. Ryle (1816-1900)


O que você pensa acerca da cruz de Cristo? Talvez você considere esta questão como algo de somenos importância; não obstante, dela depende intensamente o bem-estar eterno de sua alma.

Há mil e oitocentos anos atrás, houve um homem que disse gloriar-se na cruz de Cristo. Foi alguém que revirou o mundo de cabeça para baixo pelas doutrinas que pregava. De todos os homens que já viveram neste mundo, foi ele quem mais contribuiu para o estabelecimento do Cristianismo. E mesmo assim, foi este homem quem disse aos Gálatas:

“Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”, Epístola de Paulo Aos Gálatas 6.14

Leitor, a “cruz de Cristo” deve ser um assunto verdadeiramente importante para que um apóstolo inspirado fale de tal forma sobre ela. Deixe-me tentar demonstrá-lo o verdadeiro significado desta expressão. Uma vez reconhecendo o que significa a cruz de Cristo, com a ajuda de Deus você se tornará capaz de perceber a importância dela para a sua alma.

A palavra cruz, na Bíblia, algumas vezes faz referência à cruz de madeira na qual o Senhor Jesus foi cravado e posto para morrer, no Calvário. Isto é precisamente o que São Paulo tinha em sua mente quando falou aos Filipenses que Cristo “foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). Contudo, esta não era a cruz na qual São Paulo se gloriava. Ele esquivar-se-ia com horror da idéia de gloriar-se em um mero pedaço de madeira. Eu não tenho quaisquer dúvidas de que ele denunciaria a adoração católica romana do crucifixo como profana, blasfema e idolátrica.

A cruz, em outras vezes, é atinente às aflições e provações que os crentes atravessam pela causa da religião que professam, quando seguem a Cristo fielmente. Este é o sentido no qual nosso Senhor usa a palavra, quando diz: “Aquele que não toma a sua cruz, e segue-me, não é digno de mim” (Mt 10.38). Este também é o sentido no qual Paulo usa a palavra quando escreve aos Gálatas. Ele conhecia bem esta cruz. Deveras, ele a carregava pacientemente; no entanto, também não é sobre isto que ele está falando aqui.

Mas a palavra cruz também se refere, em alguns outros lugares da Escritura, à doutrina de que Cristo morreu pelos pecadores sobre a cruz, - a expiação que Ele fez pelos pecadores, por Seus sofrimentos em favor deles sobre a cruz – o completo e perfeito sacrifício pelo pecado que Jesus ofereceu quando deu Seu próprio corpo para ser crucificado. Em suma, este termo, “a cruz”, aponta para Cristo crucificado, o único Salvador. Este é o significado no qual Paulo usa a expressão, quando fala aos coríntios: “A pregação da cruz é loucura para os que perecem” (1 Co 1.18). E este também é o significado do que ele escreveu aos Gálatas: “Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele está dizendo simplesmente isto: “Eu não me glorio em nada mais, exceto em Cristo crucificado, como a salvação de minha alma”.

Leitor, Jesus Cristo crucificado era a alegria e o deleite, o conforto e a paz, a esperança e a confiança, a fundação e o lugar de descanso, a arca e o refúgio, o alimento e o remédio da alma de Paulo. Ele não considerava que teria de executar algo por si mesmo ou padecer por si mesmo. Ele não era mediado por sua própria bondade e nem por sua própria retidão. Ele amava pensar naquilo que Cristo havia feito, e naquilo que Cristo havia sofrido - a morte de Cristo, a justiça de Cristo, a expiação de Cristo, o sangue de Cristo, a obra finalizada de Cristo. Nisto, sim, ele se gloriava. Este era o sol de sua alma.

Este era o assunto que sobre o qual ele amava pregar. O apóstolo Paulo foi um homem que percorreu a terra proclamando aos pecadores que o Filho de Deus havia derramado o sangue de Seu próprio coração para salvar-lhes. Ele caminhou por todos os lugares neste mundo falando às pessoas que Jesus Cristo as amava, a ponto de morrer pelos seus pecados sobre a cruz. Observe como ele diz aos coríntios: “Eu vos entreguei o que primeiro recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados” (1 Co 15.3); “eu me determinei a não saber de qualquer coisa entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Co 2.2). Ele – um blasfemo, fariseu perseguidor – havia sido lavado no sangue de Cristo; de tal modo a não poder deixar de sustentar sua paz sobre este sangue. Por isso ele nunca se cansava de falar da história da cruz.

Este foi o tema sobre o qual ele amava alongar-se quando escrevia aos crentes. É maravilhoso observar como suas epístolas geralmente são repletas dos sofrimentos e da morte de Cristo - como elas discorrem sobre "pensamentos que inspiram e palavras que ardem" sobre o amor e o poder das agonias de Cristo. Seu coração parece cheio deste assunto: ele discorre sobre isto constantemente e retoma o tema continuamente. É o fio de ouro que perpassa todo seu ensino doutrinário, e todas as exortações práticas. Ele parece pensar que mesmo para o cristão mais maduro nunca é demais ouvir sobre a cruz.

Foi sobre isto que ele viveu toda sua vida, desde o tempo de sua conversão. Ele diz aos gálatas: “A vida que agora eu vivo na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, o qual me amou, e a si mesmo se deu por mim” (Gl 2.20). O que o faz tão forte para o labor? O que o faz tão disposto para a obra? O que o faz tão incansável em esforçar-se para salvar alguns? O que o faz tão perseverante e paciente? Eu vou dizê-lo, qual o segredo disto tudo. Ele sempre se alimentava pela fé do corpo de Cristo e do sangue de Cristo. Jesus Cristo foi a comida e a bebida de sua alma.

E leitor, você pode estar convicto de que Paulo estava correto. Confiar nela, isto é, na cruz de Cristo, - a morte de Cristo sobre a cruz para fazer a expiação pelos pecadores – é a verdade central ao longo de toda a Bíblia. Esta é a verdade que encontramos logo ao abrirmos no livro do Gênesis. A semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente - isto não é outra coisa senão uma profecia de Cristo crucificado. Deveras, esta é a verdade que brilha, por trás do véu, em toda a lei de Moisés e na história dos judeus. Os sacrifícios diários, o cordeiro pascal, o contínuo derramamento de sangue no tabernáculo e no templo - tudo isto são sombras do Cristo crucificado. E esta é a verdade que também vemos ser honrada na visão do céu, antes do fechamento do livro das Revelações: “Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto”(Ap 5.6). De fato, mesmo em meio à glória celestial nós encontramos uma visão de Cristo crucificado. Tire a cruz de Cristo, e a Bíblia será um livro obscuro. Ela seria como os hieróglifos egípcios, sem a chave que interpreta o seu significado – curiosa e maravilhosa, mas sem qualquer serventia real.

Leitor, observe bem o que eu lhe digo. Você pode conhecer uma boa porção da Bíblia. Pode conhecer os contornos das histórias nela contidas, e até a data dos eventos que a Bíblia descreve, assim como alguém pode conhecer a história da Inglaterra. Você pode conhecer os nomes dos homens e mulheres nela mencionados, assim como um homem conhece César, Alexandre o Grande, ou Napoleão. Você pode conhecer vários preceitos da Bíblia, e os admirar, assim como um homem admira Platão, Aristóteles, ou Sêneca. Mas se você ainda não descobriu que Cristo crucificado é o fundamento de cada livro, você tem lido a Bíblia até agora de modo muito pouco proveitoso. Sua religião é um céu sem um sol, um arco sem um fecho, um compasso sem uma agulha, um relógio sem molas ou valores, um candeeiro sem óleo. Ela não o confortará. Ela não livrará a sua alma do inferno.

Leitor, observe mais uma vez o que eu lhe digo. Você pode conhecer bastante acerca de Cristo, tendo alguma espécie de conhecimento intelectual. Você pode conhecer bem quem Ele foi, e onde Ele nasceu, e o que Ele fez. Você pode conhecer Seus milagres, Suas falas, Suas profecias, e Suas ordenanças. Você pode saber como Ele viveu, como Ele sofreu, e como Ele morreu. Contudo, pode-se conhecer o poder da cruz de Cristo experimentando-o; deveras - a menos que você saiba e reconheça que aquele sangue derramado sobre a cruz lavou seus próprios pecados particulares, e a menos que você esteja disposto a confessar que sua salvação depende inteiramente da obra que Cristo realizou sobre a cruz -, se não for esse o seu caso, Cristo não lhe será em nada proveitoso. Sim, o mero conhecimento do nome de Cristo jamais o salvará. Você deve conhecer a Sua cruz e o Seu sangue, ou então acabará morrendo em seus próprios pecados.

Leitor, enquanto você viver, tome cuidado com uma religião na qual não se ouve muito da cruz. Você vive em tempos nos quais a cautela, lamentavelmente, é necessária. Cuidado, eu repito, com uma religião sem a cruz.

Há centenas de lugares de adoração nestes dias, nos quais se encontram quase todas as coisas, exceto a cruz. Há carvalhos gravados, e pedras esculpidas; há vidros coloridos, e pinturas esplêndidas; há serviços solenes, e uma constante série de ordenanças; mas a cruz real de Cristo não há. Jesus crucificado não é proclamado no púlpito. O Cordeiro de Deus não é exaltado, e a salvação mediante a fé n’Ele não é livremente proclamada. E, por conseguinte, todos estes lugares estão em erro. Leitor, acautele-se de tais lugares de adoração. Eles não são apostólicos. Eles não haveriam de satisfazer a São Paulo.

Há milhares de livros religiosos publicados hodiernamente, nos quais se acham quase todas as coisas, exceto a cruz. Eles são plenos de direcionamentos sobre os sacramentos, e louvores da Igreja; eles abundam em exortações para uma vida santa, e em regras para a consecução da perfeição; eles apresentam fartura de fontes e cruzes, tanto interna quanto externamente; mas a cruz real de Cristo é deixada de fora. O Salvador e Seu amor agonizante tampouco são mencionados, ou o são de um modo anti-escriturístico. E, por conseguinte, todos estes livros são piores do que imprestáveis. Eles são não apostólicos. Eles jamais satisfariam a São Paulo.

Leitor, São Paulo não se gloriava em nada mais, a não ser na cruz. Esforce-se para também ser assim. Coloque Jesus crucificado sempre diante dos olhos de sua alma. Não ouça qualquer ensino que interponha algo entre você e Ele. Não caia no antigo erro dos gálatas. Não pense que alguém nestes dias seja melhor guia do que os apóstolos. Não se envergonhe das antigas veredas, nas quais percorreram homens que foram inspirados pelo Espírito Santo. Não deixe que a conversa vazia de homens que proferem grandes palavras dilatadas sobre a catolicidade, e a igreja, e o ministério, perturbem a sua paz, e o façam despreender-se da cruz. As igrejas, os ministros e os sacramentos são todos importantes a seu próprio modo, mas eles não são Cristo crucificado. Não dê a glória de Cristo a nenhum outro. “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.

Leitor, pus tais pensamentos diante de sua mente. O que você pensa agora sobre a cruz de Cristo? Eu não posso dizer; mas não posso desejar a você algo melhor do que isto – que você possa ser capaz de dizer com o apóstolo Paulo, antes de você morrer ou apresentar-se ao Senhor, “Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. Amém.

O que é adorar a Deus em espírito? - Thomas Watson (1620-1686)




O que é ser espiritual?

É ser refinado e elevado, ter o coração fixo no céu, pensar em Deus e em sua glória e ser carregado para cima numa carruagem de fogo do amor de Deus."... quem mais tenho eu no céu?" (SI 73.25), o que Beza parafraseia assim: "Que a terra se vá! Ah! se eu estivesse no céu contigo!" Um cristão, que é retirado dessas coisas terrenas, como os espíritos (álcool) são retirados do vinho, tem uma alma espiritual nobre e se assemelha muito àquele que é Espírito.

Quarta aplicação: a adoração que Deus requer de nós, e que lhe é a mais aceitável, é uma adoração espiritual: "Importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade" (Jo 4.24). Uma adoração espiritual é uma adoração pura. Embora Deus receba o culto de nossos corpos, nossos olhos e mãos levantados para testificar a outros a reverência que temos por sua glória e majestade, ele deve receber a adoração principalmente de nossa alma: "glorificai a Deus no vosso corpo" (ICo 6.20). Uma adoração espiritual de Deus o valoriza muito, pois chega perto de sua própria natureza que é espiritual.

O que é adorar a Deus em espírito?

i. Adorar a Deus em espírito é adorá-lo sem cerimônias. As cerimônias da lei, que o próprio Deus ordenou, são, em nossos tempos, nulas e ultrapassadas. Quando Cristo veio, as sombras se foram e, portanto, os apóstolos chamam as cerimônias da lei de rituais carnais (Hb 9.10). Se não podemos usar aquelas cerimônias judias que Deus uma vez determinou, então não podemos usar aquelas que ele nunca determinou.

ii. Adorar a Deus em espírito é adorá-lo com fé no sangue do Messias (Hb 10.19). Adorá-lo com maiores zelo e intensidade da alma. "... as nossas dozes tribos, servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia" (At 26.7); vemos a intensidade dessa adoração não somente em sua constância, mas também em sua urgência. Isso é adorar a Deus em espírito.

Quanto mais espiritual um culto for, tanto mais próximo se torna de Deus, que é um Espírito, e mais excelente esse culto será. Aparte espiritual do culto é a gordura do sacrifício: é a alma e a essência da religião. As maiores riquezas do coração são espirituais e as melhores obrigações são aquelas de natureza espiritual. Deus é Espírito e deverá ser adorado em espírito; não é a pompa da adoração que Deus aceita, mas a pureza. Arrependimento não são as penitências externas afligidas ao corpo, como a penitência, o jejum e os flagelos corporais, mas consiste no sacrifício de um coração quebrantado. Ação de graças não se caracteriza na música da igreja, na melodia ou em um órgão, porém em fazer melodia no coração do Senhor (Ef 5.19). Oração não é afinar a voz em uma confissão sem coração ou contar as pedras de um rosário, mas consiste em expressar sofrimento e lamento (Rm 8.26). Quando o fogo do fervor é colocado no incenso da oração, sobe como um aroma suave. A verdadeira água benta não é aquela que o papa asperge, mas é a destilada do olho penitente. A adoração espiritual agrada muito a Deus, que é Espírito. "São estes que o Pai procura para seus adoradores" (Jo 4.23), para lhes mostrar a sua grande aceitação e como se agrada com uma adoração espiritual. Essa é a carne sacrificial agradável que Deus ama.

Quão poucos se importam com isso, pois oferecem mais refugos que essências; acham que é suficiente apresentar suas obrigações cumpridas, mas não seus corações; o que faz Deus renunciar os próprios cultos que ele mesmo determinou (Is 1.12; Ez 33.31). Vamos, então, dar a Deus uma adoração espiritual, pois é a mais apropriada à sua natureza. Um elixir soberano cheio de virtude pode ser dado em poucas gotas; assim uma pequena oração, se for feita com o coração e o espírito, pode ter muita virtude e eficácia em si. O publicano fez uma oração curta: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador!" (Lc 18.13), mas foi cheia de vida e de espírito, veio do coração, portanto foi aceita.

Quinta aplicação: vamos orar a Deus para que, como um Espírito, possa nos dar de seu Espírito. A essência de Deus é incomunicável, mas não as operações, a presença e as influências de seu Espírito. Quando o sol brilha em uma sala, não é o corpo do sol que está ali, mas a luz, o calor e a influência dele. Deus fez uma promessa de seu Espírito: "... porei dentro de vós o meu Espírito" (Ez 36.27). Transforme as promessas em orações: "Senhor, tu que és Espírito, dá-me de teu Espírito. Eu, carne, imploro teu Espírito, a iluminação, a santificação e o enchimento do teu Espírito". Melanchton41 orou assim: "Senhor, inflama minha alma com teu Santo Espírito". Quão necessário é o Espírito de Deus. Sem ele, não podemos fazer nenhuma obra de maneira vivida. Quando esse vento sopra em nossas velas, movemo-nos suavemente em direção ao céu. Oremos, portanto, para que Deus nos dê uma porção de seu Espírito (Ml 2.15), de maneira que possamos nos mover com mais vigor na esfera da religião.

Sexta aplicação: assim como Deus é Espírito, os galardões que oferece são espirituais. As principais bênçãos que ele nos dá, nesta vida, são bênçãos espirituais (Ef 1.3), e não ouro e prata; ao nos dar Cristo, seu amor, enche-nos com graça. Da mesma maneira os galardões principais que nos dá após esta vida são espirituais, "a imarcescível coroa da glória" (lPe 5.4). Coroas terrenas se desfazem, mas a coroa do crente é imortal, pois é espiritual, uma coroa que nunca se apaga. "E impossível", diz Joseph Scaliger, "para o que é espiritual estar sujeito à mudança ou à corrupção". Isto pode consolar um cristão diante de suas lutas e seus sofrimentos; ele se oferece a si mesmo para Deus e tem pouco ou nenhum prêmio nesta vida, mas lembre-se: Deus, que é Espírito, dará galardões espirituais, a visão de sua face no céu, as roupas brancas e o peso de glória. Que o serviço de Deus não seja um peso, mas pense no prêmio espiritual: uma coroa de glória que não se desfaz.


Fonte: [Josemar bessa]

16 de jul. de 2010

Tullian Tchividjian - Contextualizar sem Comprometer




Nos dias 26 e 27 de abril de 2010, eu tive o privilégio de me juntar a homens que eu admiro e respeito, na conferência Advance the Church ("Avance a Igreja" N.T.), em Durham, Carolina do Norte. Minha tarefa foi falar sobre “contextualização sem comprometer”. Eu trato dessa questão mais longamente em meu livro “Unfashionable: Making a Difference in the World by Being Different" (“Fora de moda: Fazendo a Diferença no Mundo Sendo Diferente" N.T.). Os organizadores da conferência pediram-me para compartilhar alguns dos meus pensamentos sobre contextualização. Então, feliz ou infelizmente, aqui estão eles (retirados diretamente do capítulo 8 de Unfashionable).

O princípio por trás da exortação de Paulo em 1 Coríntios 9.22, “fiz-me tudo para com todos”, é o que os pensadores cristãos chamam de “contextualização”. Contextualização é a ideia de que nós precisamos estar traduzindo a verdade do Evangelho em uma linguagem compreendida por nossa cultura. Missionários transculturais e tradutores da Bíblia têm feito isso por séculos. Eles pegam a verdade imutável do Evangelho e a colocam em uma linguagem que se encaixa no contexto que eles estão tentando alcançar. Contextualização simplesmente significa traduzir o Evangelho – tanto em palavras quanto em obras – em termos compreensíveis e apropriados à audiência. É a tradução do Evangelho que é sensível ao contexto.

Genna, minha filha de oito anos, ama ir à Escola Dominical por diversos motivos. Ela ama ver seus amigos e cantar suas músicas favoritas. Mas ela também ama aprender de seu professor que é capaz e criativo. Ele trabalha duro para usar linguagem, conceitos e ilustrações que ela e as outras crianças na classe entenderão, ao mesmo tempo em que ensina fielmente a Bíblia. E como resultado, Genna aprende. Ela anda domingo após domingo animada com o que aprendeu. Isso emociona Kim e eu. Nós dois somos gratos pelo fato do professor de Genna compreender a necessidade de contextualização.

De forma similar, toda tradução bíblica para o português é um esforço para contextualizar as Escrituras (originalmente escritas em hebraico e grego por povos antigos) para uma audiência de fala portuguesa nos dias de hoje.

Contextualizar também envolve construir relacionamentos com pessoas que não creem. Nós não esperamos que elas venham até nós; nós vamos até elas. Nós as conhecemos onde elas estão. Nós entramos no mundo delas procurando nos identificar com suas lutas, gostos, desgostos, ideias. Chuck Colson fala disso como entrar nas “histórias” das pessoas:

Nós precisamos entrar nas histórias da cultura que nos cerca, o que envolve dar ouvidos. Nos ligamos com a literatura, a música, o teatro, as artes e com as questões que expressam as esperanças, sonhos e medos existentes na cultura. Isso constrói uma ponte pela qual podemos mostrar como o Evangelho pode entrar e transformar aquelas histórias.

Edith Schaeffer, esposa do antigo Francis Schaeffer, escreveu sobre uma visita que os dois fizeram a São Francisco em 1968. Uma noite eles foram à Fillmore West para sair com os drogados e hippies, e assistir a um espetáculo de luz. Ela registra quão partido estava o coração deles enquanto eles testemunhavam “a perdição da humanidade na busca por paz onde não há paz”. Ela concluiu: “Um tempo para ouvir é preciso – ouvir o que a próxima geração está dizendo, ouvir as palavras da música que eles estão ouvindo, ouvir o significado por trás das palavras. Se a verdadeira comunicação deve continuar, há uma linguagem a ser aprendida”.

A contextualização começa com um coração partido em favor dos perdidos e um desejo dirigido a ajudá-los a compreender a verdade libertadora de Deus. Somente através de um verdadeiro ouvir e aprender nós podemos esperar comunicar persuasivamente a Palavra imutável de Deus para nosso mundo em constante mudança.

Infelizmente, alguns cristãos bem intencionados concluem o contrário. Para esses cristãos, contextualização significa a mesma coisa que comprometer. Eles crêem que isso significa dar às pessoas o que elas querem e falar a elas o que elas querem ouvir. O que eles não entendem, porém, é que contextualização significa dar às pessoas as respostas de Deus (que elas podem não querer) para as questões que elas estão realmente perguntando, em formas que elas podem entender.

Essa má compreensão da contextualização tem levado essas pessoas a argumentarem que reflexão cultural e contextualização são, na melhor das hipóteses, distrações, e na pior, pecaminosas. Eles nos admoestam a abandonar essas coisas e focar simplesmente na Bíblia. Apesar disso soar virtuoso, acaba sendo tolo por duas razões. Primeira, como já vimos, a própria Bíblia nos exorta a entender nossos tempos de modo que possamos alcançar nosso mundo mutável com a verdade eterna de Deus. Não contextualizar, portanto, é um pecado. E segunda, todos nós vivemos inescapavelmente em um quadro cultural particular, que molda a forma como nós pensamos sobre tudo. Então, se não trabalharmos duro para entendermos nosso contexto, não iremos apenas falhar em nossa tarefa de comunicar eficazmente o Evangelho, mas também acharemos impossível evitar sermos negativamente moldados por um mundo que não entendemos.

Em uma entrevista recente, o pastor Tim Keller disse isso da seguinte forma:

"contextualizar demais para uma nova geração significa que você pode acabar idolatrando a cultura deles, mas contextualizar de menos significa que você pode acabar idolatrando a sua própria cultura. Então, não há como evitar isso”.

Quer traduzindo a Bíblia ou desenvolvendo relacionamentos com não cristãos, nós devemos ter uma mente missionária em tudo o que fazemos. Isso dá trabalho – o duro esforço de manter a grande fotografia e comunicar compreensivelmente e convincentemente àqueles que não compartilham nossas convicções e cosmovisão. Portanto, todo dia e em toda circunstância, precisamos estar conscientemente e rigorosamente traduzindo nossa fé na linguagem da cultura que estamos tentando alcançar.

Este é o desafio: se você não contextualizar o suficiente, a vida de ninguém será transformada porque eles não lhe entenderão. Mas se você contextualizar demais, a vida de ninguém será transformada porque você não estará desafiando seus pressupostos mais profundos e chamando-os à mudança.

Ser “tudo para com todos”, portanto, não significa se encaixar nos padrões caídos deste mundo de modo que não há mais diferença distinguível entre cristãos e não cristãos. Apesar de vivermos “no mundo”, nós precisamos evitar o extremo da acomodação: ser “do mundo”. Isso acontece quando cristãos, em sua tentativa de fazer um contato apropriado com o mundo, saem do seu caminho para adotar estilos, normas e estratégias mundanas.

Quando cristãos tentam eliminar as características contra-culturais e antiquadas da mensagem bíblica porque aquelas características são impopulares na cultura mais ampla – por exemplo, quando nós reduzimos o pecado a uma falta de auto-estima, negamos a exclusividade de Cristo ou ignoramos a realidade da verdade absoluta e cognoscível – nós nos movemos da contextualização para o comprometimento. Quando nos acomodamos à nossa cultura, abandonando temas chaves do Evangelho, tais como sofrimento, humildade, perseguição, serviço e auto-sacrifício, nós, na verdade, fazemos nosso mundo mais mal do que bem. Por causa do amor, o compromisso deve ser evitado a todo custo.

Como a Bíblia ensina, o Senhorio de Cristo tem um sentido de totalidade: a verdade de Cristo cobre todas as coisas, não apenas coisas “espirituais” ou “religiosas”. Mas ele também tem um sentido de tensão. Como Senhor, Jesus não apenas nos chama para Si mesmo, Ele também nos chama para romper com tudo o que entra em conflito com Seu Senhorio.

Contextualizar sem comprometer é o objetivo!

Por Tullian Tchividjian © The Gospel Coalition. Website: thegospelcoalition.org
Original: Contextualization Without Compromise. Website: thegospelcoalition.org/blogs/tullian
Tradução: voltemosaoevangelho.com
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que adicione as informações supracitadas, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Fonte: [Voltemos ao evangelho]

10 de jul. de 2010

4 de jul. de 2010

Um Evangelho Digno de Morrermos por Ele - Charles H. Spurgeon


- manhã de 12 de agosto de 1883 -


“Para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (Atos 20.24).

Paulo disse que, em comparação com o seu grande propósito de pregar o evangelho, não considerava sua preciosa para si mesmo; mas temos certeza de que Paulo valorizava a sua própria vida. Como todo homem, ele tinha amor pela vida e sabia que sua própria vida era importante para a igreja e a causa de Cristo. Certa vez Paulo disse: “Por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne” (Fp 1.24). Ele não estava cansado da vida, nem era uma pessoa tola que tratava a vida como fosse algo que podia lançar fora nos esportes. Paulo valorizava a vida, visto que valorizava o tempo, que constitui a vida, e usava de modo prático cada dia e hora, “remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.16). Apesar disso, Paulo falou aos presbíteros da igreja de Éfeso que não considerava a sua vida preciosa, em comparação com o dar testemunho do evangelho da graça de Deus.

De acordo com o versículo que ora consideramos, o apóstolo considerava a vida como uma carreira que tinha de realizar. Ora, quanto mais rapidamente corrermos, tanto melhor será a carreira. Com certeza, a extensão não é o alvo desejado. O único pensamento de um corredor é como ele pode alcançar mais rapidamente a marca de chegada. Ele menospreza o solo; não se preocupa com o percurso, exceto com o fato de que aquele é o caminho pelo qual ele tem de correr para atingir seu objetivo. A vida de Paulo era assim. Todo o vigor de seu espírito estava concentrado na busca de um único objetivo, ou seja, dar testemunho do evangelho da graça de Deus. E a vida que Paulo tinha aqui embaixo era valorizada por ele somente como meio para atingir seu objetivo.

Paulo também considerava o evangelho e seu ministério de testemunhá-lo como um depósito sagrado que lhe fora confiado pelo próprio Senhor. Paulo via a si mesmo como aquele a quem o evangelho fora confiado (cf. 1 Ts 2.4) e resolvera ser fiel, embora isso lhe custasse a vida. Diante dos olhos de sua mente, Paulo via o Senhor tomando em suas mãos traspassadas o cofre precioso que continha a jóia celestial da graça de Deus e dizendo-lhe: “Eu o redimi com meu sangue, eu o chamei por meu nome; agora confio esta coisa preciosa às suas mãos, para que você cuide dela e guarde-a até com o seu próprio sangue. Eu o comissiono a ir por todos os lugares, com meu substituto, para fazer conhecido a cada pessoa, debaixo do céu, o evangelho da graça de Deus”.

Todos os crentes ocupam um lugar semelhante ao de Paulo. Nenhum de nós é chamado ao apostolado, nem todos somos chamados à pregação pública da Palavra de Deus. No entanto, somos todos encarregados de sermos ousados em favor da verdade, na terra, e de batalharmos diligentemente pela fé que uma vez foi entregue aos santos. Oh! que façamos isso no mesmo espírito do apóstolo dos gentios! Como crentes, somos chamados a algum tipo de ministério. Isso deve fazer de nossa vida uma carreira e uma causa que nos levem a considerar-nos guardiões do evangelho, assim como um soldado que porta as insígnias de um regimento se considera obrigado a sacrificar tudo em favor de sua preservação.

O que era esse evangelho pelo qual Paulo estava disposto a morrer? Não era qualquer coisa chamada “evangelho” que produzia esse entusiasmo. Em nossos dias, temos evangelhos pelos quais eu não morreria, nem recomendaria a qualquer de vocês que vivessem por eles, pois são evangelhos que se extinguirão em poucos anos. Nunca é digno que morramos por uma doutrina que morrerá por si mesma. Já vivi tempo suficiente para ver o surgimento, o florescimento e a decadência de vários evangelhos. Há muito disseram-me que minha velha doutrina calvinista estava ultrapassada, era uma coisa desacreditada. Em seguida, ouvi que o ensino evangélico, em qualquer forma, era uma coisa do passado que seria suplantada por “pensamentos avançados”.

No entanto, costumava haver no mundo um evangelho que consistia de fatos nunca duvidados pelos verdadeiros cristãos. Na igreja havia um evangelho que os crentes abrigaram no coração como se fosse a vida de sua alma. No mundo, costumava haver um evangelho que provocava entusiasmo e recomendava o sacrifício. Milhares e milhares se reuniam para ouvir esse evangelho ao risco de sua própria vida. Homens o pregaram, mesmo em face da oposição dos tiranos; sofreram a perda de todas as coisas, foram presos e mortos por causa desse evangelho, cantando salmos em todo o tempo. Não há remanescente desse evangelho? Ou chegamos à terra da ilusão, na qual as almas passam fome, alimentando-se de suposições, e se tornam incapazes de ter confiança ou zelo? Os discípulos de Jesus estão agora se alimentando da espuma do “pensamento” e do vento da imaginação, nos quais os homens se enlevam e ficam exaltados? Ou retornaremos ao alimento substancial da revelação infalível e clamaremos ao Espírito Santo que nos alimente com sua própria Palavra inspirada?

O que era esse evangelho que Paulo valorizava mais do que sua própria vida? Paulo o chamou de “evangelho da graça de Deus”. O aspecto do evangelho que mais impressionou o apóstolo foi o de que era uma mensagem da graça, e tão-somente da graça. Em meio à música das boas-novas, uma nota se sobressaía às outras e encantava os ouvidos do apóstolo. Essa nota era a graça — a graça de Deus. Essa nota ele considerava característica de toda a melodia; o evangelho era o “evangelho da graça de Deus”. Em nossos dias, a palavra graça não é muito ouvida; ouvimos a respeito dos deveres morais, ajustes científicos e progresso humano. Quem nos fala sobre a graça de Deus, exceto umas poucas pessoas antiquadas que logo passarão? Sou uma dessas pessoas antiquadas, por isso tentarei ecoar essa palavra graça, para que todos os que conhecem o seu som se regozijem, e ela penetre o coração daqueles que a desprezam.

A graça é a essência do evangelho. A graça é a única esperança para este mundo caído! É o único consolo para os santos que esperam pela glória. No que concerne à graça, talvez Paulo tinha uma percepção mais clara do que Pedro, Tiago ou João; por isso, ele escreveu mais no Novo Testamento. Os outros escritores apostólicos excederam a Paulo em outros aspectos, mas ele, devido à clareza e à profundidade na doutrina da graça, permanece como o primeiro e o mais importante. Precisamos novamente de Paulo ou, pelo menos, do evangelismo e da clareza paulinos. Ele desprezaria esses novos evangelhos e diria aos que o seguem: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6-7).

Permita-me explicar de modo breve como o evangelho é as boas-novas da graça. O evangelho é um anúncio de que Deus está disposto a perdoar a culpa do homem com base no favor gratuito e na pura misericórdia. Não haveria boas novas em dizer que Deus é justo, pois, em primeiro lugar, isso não é novidade. Todos sabemos que Deus é justo; a consciência natural ensina isso. O fato de que Deus pune o pecado e recompensa a justiça não é uma novidade. E, se fosse, ainda não seria uma boa notícia; pois todos pecamos, e, com base na justiça, todos devemos perecer. Mas o fato de que o Juiz de todos está pronto a perdoar as transgressões e justificar o ímpio, isso é boa nova, da melhor qualidade. O fato de que o Salvador perdoará o pecado, vestirá o pecador com sua justiça e o receberá em seu favor, não por conta do que ele fez ou fará, e sim por causa da graça soberana — isso é boa nova. Embora sejamos todos culpados, e todos condenados por nossos pecados, Deus está disposto a nos remover da maldição de sua lei e nos dar toda a bem-aventurança de um homem justo, num ato de pura misericórdia. Esta é uma mensagem digna de que morramos por ela — a mensagem de que, mediante a graça, Deus pode ser justo e, ao mesmo tempo, justificador daquele que crê em Jesus; a mensagem de que ele pode ser justo Juiz dos homens e de que os crentes podem ser justificados gratuitamente pela graça de Deus, mediante a redenção que há em Cristo Jesus! O fato de que Deus é misericordioso e gracioso e está pronto a abençoar o mais indigno é uma notícia maravilhosa! É uma notícia digna de um homem gastar centenas de vidas comunicando-a!

O meu coração pula dentro de mim, quando repito isso, neste salão, e digo ao arrependido, ao desanimado e ao desesperado que, embora seus pecados mereçam o inferno, a graça lhes pode dar o céu e prepará-los para aquele lugar bendito; e pode fazer isso como um ato soberano de amor, completamente independente do caráter e merecimentos deles. Há esperança para o mais desesperado, porque o Senhor diz: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm 9.15). Visto que o Senhor diz: “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16), há uma porta de esperança aberta para aqueles que, de outro modo, entrariam em desespero. Sim, posso entender Paulo sentindo uma santa agitação a respeito de uma revelação como essa da graça gratuita! Posso entendê-lo sentindo-se disposto a entregar a própria vida, a fim de anunciar aos pecadores que a graça reina por meio da justiça para a vida eterna.

Mas o evangelho nos diz muito mais do que isso. O evangelho nos diz que Deus, o Pai, a fim de relacionar-se com os homens, com base no favor gratuito, Ele mesmo removeu o grande obstáculo que estava no caminho da misericórdia. Deus é justo; essa é uma verdade inquestionável. A consciência humana reconhece isso, e a consciência do homem não fica tranqüila enquanto não vê a justiça de Deus satisfeita. Então, para que Deus lidasse de maneira justa e misericordiosa com o homem, Ele deu seu Filho unigênito, a fim de que, por sua morte, a lei recebesse o que lhe era devido e fossem mantidos os princípios eternos do governo de Deus. Jesus foi designado a assumir o lugar do homem, levar o seu pecado e suportar o castigo da sua culpa. Como Isaías afirma isso com tanta clareza em seu capítulo 53! Agora o homem é salvo em segurança, porque o mandamento não é desprezado, nem a penalidade, revogada. Jesus fez e suportou tudo que a justiça mais severa poderia ter exigido. E a graça tem as mãos desimpedidas para distribuir perdões conforme lhe apraz. O devedor é liberado, pois a sua dívida foi paga. Ele vê o Salvador morrendo e ouve o profeta, que diz: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).

Irmãos, planejar e aceitar a expiação foi graça da parte de Deus, especialmente porque Ele mesmo proveu a expiação às custas de Si mesmo. Isso é maravilhoso! Aquele que foi ofendido, Ele mesmo proveu a reconciliação! Ele tinha apenas um Filho. E, como havia um obstáculo impedindo-o de relacionar-se com os homens, com base na pura graça, Ele tomou seu Filho, permitiu-Lhe assumir nosso natureza frágil e, nessa, natureza permitiu-Lhe morrer, o Justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4.10). Isso é o evangelho da graça de Deus — Ele é capaz de, sem injustiça, lidar com os homens servindo-se de pura misericórdia, mas completamente separado dos pecados ou dos méritos deles, porque tais pecados foram lançados sobre seu Filho, Jesus Cristo, que ofereceu à justiça divina uma satisfação completa, para que Deus seja glorioso em santidade e, ao mesmo tempo, rico em misericórdia. Sim, amado Paulo, existe algo digno de ser pregado neste mundo!

A fim de cumprir os desígnios da graça era necessário que a mensagem do evangelho fosse anunciada cheia de promessa, encorajamento e bênção. De fato, essa mensagem foi entregue a nós, pois o evangelho que pregamos está repleto de graça. Ele diz assim: Pecador, tal como você está, converta-se ao Senhor; Ele o receberá e o amará graciosamente. Deus anuncia: “Para com as suas iniqüidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Hb 8.12). Por causa de Cristo, e não por causa de quaisquer agonias, lágrimas e pesares em você, Deus afastará de você os seus pecados, como o Oriente dista do Ocidente. Ele disse: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Is 1.18). Você pode vir a Jesus tal como está; Ele lhe dará remissão completa, desde que você creia nEle. O Senhor diz hoje: “Não olhe para dentro de si mesmo, como se quisesse achar qualquer mérito ali. Olhe para mim e seja salvo. Eu o abençoarei à parte dos méritos, de acordo com a expiação de Cristo Jesus”. Ele diz: “Não olhe para dentro de si mesmo, como se procurasse alguma força para a vida futura. Eu serei a sua força e a sua salvação, pois, quando você estava sem forças, Cristo morreu no devido tempo em favor de ímpios”.

A mensagem do evangelho é uma mensagem de graça porque é direcionada àqueles cujo único clamor é a sua necessidade. Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Cristo não veio para chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento. Portanto, venham aqueles que são moralmente enfermos; venham aqueles cuja fronte está embranquecida pela lepra do pecado. Venham e sejam bem-vindos, pois este evangelho proclamado por autoridade divina é para vocês. Com certeza, uma mensagem como essa é digna de todo esforço em favor de sua propagação; ela é tão bendita, tão divina, que podemos derramar, com alegria, nosso próprio sangue a fim de proclamá-la.

Além disso, para que este evangelho abençoador chegue ao alcance do homem, a graça de Deus adotou um método adequado à condição do homem. Alguém pode indagar: “Como posso ser perdoado? Responda-me logo, com verdade!” Eis a resposta: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (At 16.31). Deus não exige de você boas obras, nem bons sentimentos, e sim que esteja disposto a aceitar o que Ele dá gratuitamente. Deus salva com base no crer. Isto é fé: creia que Jesus é o Filho de Deus e confie-se a Ele. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). Se você crer, será salvo. A salvação “provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência” (Rm 4.16).

Talvez você digá: “Mas a fé está além de meu alcance”. Então, no evangelho da graça de Deus somos informados de que a própria fé é um dom de Deus, que a produz nos homens por meio do seu Espírito Santo. Sem o Espírito Santo, os homens estão mortos em delitos e pecados. Oh! que graça preciosa! A fé ordenada é também outorgada! “Mas”, alguém diria, “se eu crer em Jesus e os meus pecados passados forem perdoados, tenho medo de voltar ao pecado, pois não tenho forças para me guardar quanto ao futuro”. Ouça: o evangelho da graça de Deus é este: Ele o guardará até ao fim; Deus manterá vivo o fogo que acendeu em você, pois Ele mesmo diz: “Dou a vida eterna às minhas ovelhas”. E diz também: “A água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14).

As ovelhas de Cristo nunca perecerão, e ninguém jamais as arrebatará das mãos dEle. Você ouviu isso, pecador culpado, que não tem qualquer direito à graça de Deus? A graça gratuita de Deus lhe será dada; sim, ela será dada até a você. Se você for tornado disposto a recebê-la, será salvo neste mesmo dia, e salvo para sempre, sem qualquer dúvida. Digo-o novamente: este evangelho é tão digno de ser pregado, que posso entender as palavras de Paulo: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”.

Você se sente inclinado a aceitar o caminho e o método da graça? Permita-me testá-lo. Algumas pessoas acham que amam algo, mas, de fato, não o amam, pois cometeram um erro concernente ao que imaginam amar. Você entende que não tem qualquer direito em relação a Deus? Ele diz: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm 9.15). Quando nos referimos à pura misericórdia, ninguém pode realmente apresentar um direito para com ela. De fato, não existe tal direito. Se a misericórdia vem por graça, ela não é uma dívida; e, se é uma dívida, não vem por graça. Se Deus quer salvar uma pessoa e deixar outra perecer em seu próprio pecado obstinado, essa outra pessoa não pode argumentar com Deus. E, se o fizer, a resposta será: “Não posso fazer o que quero com aquilo que é meu?” Oh! você parece como se estivesse afastado da misericórdia! Preste atenção: o seu orgulho se revolta contra a soberania da graça. Deixe-me convidá-lo a retornar outra vez. Embora você não tenha qualquer direito, há outra verdade, que lhe é favorável.

Por outro lado, nada impede que você obtenha misericórdia. Se você não precisa de qualquer bondade para recomendar-lhe a Deus, visto que tudo que Ele dá é puro favor, nenhuma maldade é capaz de privá-lo desse favor. Embora você seja culpado, Deus pode mostrar-lhe favor. Em outros casos, Ele já chamou os piores pecadores. Por que não o faria com você também? De qualquer modo, nenhuma agravação de seu pecado, nenhuma permanência no pecado, nenhum aprofundamento no pecado pode ser a razão por que Deus não lhe daria sua graça; pois, se a pura graça, e nada mais do que esta, tem de exercer seu reino, o mais perverso transgressor pode ser salvo. Neste caso, há ocasião para a graça manifestar a sua grandeza. Tenho ouvido homens apresentarem desculpas com base na doutrina da eleição. Eles têm dito: “O que acontecerá se eu não for um eleito?” Parece-me mais sábio dizer: “O que acontecerá se eu for um eleito?” Sim, eu sou um eleito, se creio em Jesus, pois nunca houve um caso de uma alma descansar na expiação de Cristo, sem que fosse eleita de Deus desde antes da fundação do mundo.

Este é o evangelho da graça de Deus, e sei que ele toca o coração de muitos de vocês. Ele sempre estimula a minha alma, como o som de uma marcha militar, a pensar na graça de meu Senhor manifestada desde a eternidade, uma graça que é constante à sua escolha e lhe continuará sendo constante, mesmo quando todas as coisas visíveis desaparecerem como faíscas que se dissipam pela chaminé. Dentro de mim, o coração se regozija por ter de pregar essa graça gratuita e esse amor da morte de Cristo. Existe algo neste evangelho da graça gratuita que o torna digno ser pregado, digno de ser ouvido e digno de morrermos por ele.

Meu amigo, se o evangelho não lhe tem feito nada, abra seus lábios e fale contra ele. Mas, se o evangelho lhe tem feito o que faz por muitos de nós; se tem mudado sua vida, se o tirou da masmorra e o fez assentar-se num trono; se o evangelho é a sua comida e a sua bebida, bem como o próprio centro e o vigor de sua vida, testemunhe-o constantemente. Se o evangelho se tornou para você aquilo que ele é para mim, a luz de meu coração interior, o âmago de meu ser, proclame-o onde quer você vá e torne-o conhecido, ainda que as pessoas o rejeitem. O evangelho é para você o poder de Deus para a salvação e será isso mesmo para todos os que crerem.

Meu tempo acabou, mas tenho de detê-los mais um pouco, enquanto recordo-lhe as razões por que nós, irmãos, devemos fazer conhecido o evangelho da graça de Deus.

Primeiramente, ele é, afinal de contas, o único evangelho que existe no mundo. Esses evangelhos efêmeros do presente, que vão e vêm como um jornal barato — proeminente por um dia, mas depois lançado fora —, não têm direito ao zelo de qualquer homem. Contudo, ouvir o evangelho da graça de Deus é digno de uma caminhada de muitos quilômetros. E, se o evangelho fosse explicado com clareza em todas as igrejas, garanto-lhes que veríamos poucos bancos vazios: as pessoas viriam para ouvi-lo, pois sempre têm feito isso.

É um evangelho sem a graça de Deus que faz o rebanho passar fome, até que as ovelhas esqueçam as pastagens… Os homens querem algo que estimule seu coração em meio aos seus labores e lhes dê esperança quando estão sob o senso de pecado. Assim como o sedento necessita de água, assim também o homem necessita do evangelho da graça de Deus. E não existem dois evangelhos no mundo, assim como não existem dois sóis neste céu. Há somente uma atmosfera a respirarmos e apenas um evangelho pelo qual podemos viver.

Em segundo, viva pelo evangelho porque ele glorifica a Deus. Você percebe como o evangelho glorifica a Deus? Ele humilha o pecador, tornando-o nada, e mostra que Deus é tudo em todos. O evangelho coloca a Deus no trono e lança o homem no pó. Depois, ele conduz amavelmente o homem a adorar e reverenciar o Deus de toda graça, que perdoa a transgressão, a iniqüidade e o pecado. Então, propague o evangelho.

Propague-o porque assim você glorificará a Cristo. Oh! se Ele viesse a este púlpito nesta manhã, quão alegremente O receberíamos! Quão piedosamente O adoraríamos! Se pudéssemos apenas ver a sua face, sua face majestosa e querida, não nos prostraríamos em adoração? Se Ele falasse e dissesse: “Meus amados, eu lhes confiei o meu evangelho. Mantenham-no firme como o receberam! Não atentem às idéias e imaginações de homens, mantenham firme a verdade como a receberam. E anunciem ao mundo a minha Palavra, pois tenho outras ovelhas que ainda não fazem parte de meu rebanho e que devem ser trazidas. E vocês têm irmãos que são filhos pródigos, eles precisam retornar ao lar”. Eu lhes digo: se o Senhor os contemplasse individualmente e lhes falasse isso, cada um de vocês responderia: “Senhor, viverei para Ti! Eu farei que Te conheçam. Se for preciso, morrerei por Ti, a fim de tornar público o evangelho de Jesus Cristo!”

Extraído de um sermão pregado na manhã de 12 de agosto de 1883, em Exeter Hall.

/ On : 09:54/ SOLA SCRIPTURA - Se você crê somente naquilo que gosta no evangelho e rejeita o que não gosta, não é no Evangelho que você crê,mas, sim, em si mesmo - AGOSTINHO.

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