3 de set. de 2010

A Chave é a Justificação pela Fé - William Tyndale (1484 - 1536)


Embutida na hermenêutica Puritana e defendida de forma tão bem-sucedida pelos reformadores; havia a crença de que a justificação pela fé através de Cristo, mediante a graça, é o prisma pelo qual as Escrituras devem passar, a fim de que possamos ver claramente a luz e a verdade que reservam para nós. William Tyndale, o qual, quanto a isso e quanto a muitas outras questões, com grande razão pode ser chamado de avô da teologia prática do Puritanos, declarou o seguinte a respeito desse assunto:
Esses dois pontos, a saber,

(1) a lei espiritualmente interpretada, considerando tudo como pecado condenável, se não procede de um amor sincero e proveniente do fundo do coração... e

(2) que as promessas são dadas a uma alma arrependida que tem sede e clama por essas promessas, devido à misericórdia paternal de Deus, mediante a fé somente, sem qualquer merecimento por feitos ou méritos, mas somente por causa de Cristo, e pelos méritos das obras dEle... pontos esses que, segundo digo, se forem gravados no teu coração, serão as chaves que abrem toda a Escritura diante de ti.. .

Seguem-se orientações acerca do estudo das Escrituras. Tyndale mencionou os trechos de 2 Timóteo 3.16, Romanos 15.4 e 1 Coríntios 10.11, e então prosseguiu:

Portanto, conforme ledes as Escrituras, buscai ali primeiramente a lei conforme Deus nos ordenou; e, em segundo lugar as promessas... em Cristo Jesus, nosso Senhor. Em seguida, buscai os exemplos, primeiro sobre a salvação: como Deus purifica a todos quantos se submetem a andar em seus caminhos, por meio de tribulações... jamais permitindo que qualquer daqueles que se apegam às suas promessas venham a perecer. E, finalmente, observai os exemplos acerca de como devemos temer a carne, a fim de que não pequemos; em outras palavras, como Deus permite que os pecadores ímpios e iníquos... continuem em sua iniquidade... pois eles endurecem os seus corações contra a verdade, e Deus os destrói totalmente.

E novamente, instrui ele:

a fim de que tomeis as histórias e as vidas contidas na Bíblia como exemplos firmes e indubitáveis de que Deus assim tratará conosco, até o fim do mundo.

Dizia Tyndale que, uma vez que esses princípios são aplicados, a Bíblia interpreta a si mesma: "As Escrituras dão testemunho de si mesmas, e sempre se explicam por meio de algum outro texto". A chave é a justificação pela fé; e a porta (como já deveríamos esperar) é a epístola aos Romanos. Tyndale refere-se a ela como "uma luz e um caminho para a Bíblia inteira"; e traduz o veredito de Lutero a respeito: "Uma luz fulgurante e suficiente para iluminar a Escritura toda".  

J. I. Packer

Fonte:[Josemar Bessa ]

Empecilhos à santidade – Joel Beek


EGOCENTRISMO

A nossa atitude para com o pecado e a própria vida tende a ser egocêntrica e não teocêntrica. Freqüentemente, estamos mais preocupados com as conseqüências do pecado ou com a vitória sobre ele do que com a maneira como nossos pecados entristecem a Deus. Para cultivarmos a santidade, temos de odiar o pecado do modo como Deus o odeia. Aqueles que amam a Deus abominam o pecado (Pv 8.36). Temos de cultivar uma atitude que reputa o pecado como algo cometido principalmente contra Deus (SI 51.4).1

Opiniões distorcidas sobre o pecado resultam em opiniões distorcidas sobre a santidade. "Pontos de vistas errados sobre a santidade têm a sua origem em pontos de vistas errados sobre a corrupção humana", afirmou J. C. Ryle. "Se um homem não compreende a perigosa natureza da enfermidade de sua alma, você não deve se admirar quando ele se satisfaz com remédios falsos ou imperfeitos." O cultivo da santidade exige a rejeição da soberba da vida e da concupiscência da carne. Também exige que oremos: "Dá-me olhos puros, para que glorifique o teu nome" (Saltério, 236, estrofe 2).

Erramos quando não vivemos conscientemente com nossas prioridades centradas na Palavra, na vontade e na glória de Deus. Nas palavras do teólogo escocês John Brown: "A santidade não consiste em especulações místicas, fervores entusiastas ou austeridades pessoais. A santidade consiste em pensar como Deus pensa e querer o que Ele quer.


NEGLIGENCIAR O ESFORÇO

Nosso progresso é obstruído quando entendemos erroneamen¬te o viver pela fé (Gl 2.20), no sentido de que nenhum esforço por santificação é exigido de nós. Às vezes, somos até inclinados a considerar pecaminoso ou "carnal" o esforço humano. Nas seguintes palavras, J. C. Ryle nos oferece um corretivo:

É sábio proclamar, de maneira franca, grotesca e inadequada, que a santidade de um convertido acontece somente pela fé, e não por esforço pessoal? Isso está de acordo com o ensino da Palavra de Deus? Duvido. Nenhum crente bem instruído negará que a fé em Cristo é a raiz de toda a santidade. Contudo, as Escrituras ensinam, com certeza, que, para seguir a santidade, o crente precisa de trabalho e empenho pessoal, bem como de fé.

Somos responsáveis por santidade. Se não somos santos, de quem é a culpa, se não de nós mesmos? Conforme aconselha Ralph Erskine, precisamos implementar a atitude de "lutar ou lutar" em relação às tentações pecaminosas. Às vezes, precisamos apenas atentar à exortação clara do apóstolo Pedro: "Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma" (1 Pe 2.11). Abster-se — freqüentemente, precisamos fazer apenas isso.
Se você já se despojou do velho homem e se revestiu do novo (Ef 4.22-32), viva de acordo com isso (Cl 3.9-10). Mortifique os seus membros (ou seja, hábitos impuros) e siga as coisas do alto (Cl 3.1-5) — não como uma forma de legalismo, e sim como uma repercussão da bênção de Deus (Cl 2.9-23).5 Faça uma aliança com seus olhos, pés e mãos, para abandonar a iniqüidade (Jo 3.1). Con¬sidere o outro caminho e ande nele. Jogue fora a ira descontrolada, a fofoca e a amargura. Mortifique o pecado (Rm 8.13) pelo sangue de Cristo. "Exercite a sua fé em Cristo para mortificar o pecado", escreveu John Owen, "e você... viverá para contemplar as concupiscências mortas aos seus pés".


DEPENDÊNCIA DE SEUS PRÓPRIOS ESFORÇOS

Por outro lado, erramos miseravelmente quando nos orgulhamos de nossa santidade e' achamos que nossos esforços podem, de algum modo, produzir santidade, sem a fé. Do começo ao fim, a santidade é obra de Deus e de sua livre graça (Catecismo de Westminster, cap. 3). Como Richard Sibbes sustentava: "Pela graça, somos o que somos na justificação e fazemos o que fazemos na santificação".7 A santidade não é uma obra realizada, em parte, por Deus e, em parte, por nós. A santidade produzida por nosso próprio coração não está em harmo¬nia com o coração de Deus. Todos os frutos da vida cristã em nós são resultado da obra de Deus em e por nós. "Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, mui¬to mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.12-13).

"Os regenerados têm uma natureza espiritual que os capacita para o viver santo; de outro modo, não haveria qualquer diferença entre eles e os não-regenerados", escreveu A. W. Pink. No entanto, falando do modo restrito, a auto-santincação não existe. "Fazemos boas obras, mas não para obtermos mérito por meio delas (pois que mérito poderíamos ter?); antes, somos devedores a Deus pelas boas obras que fazemos, e não Ele a nós" (Confissão Belga de Fé, Artigo 24). Conforme Calvino explicou: "A santidade não é um mérito pelo qual atingimos a comunhão com Deus, e sim um dom de Cristo que nos capacita a nos apegarmos a Ele e segui-Lo".10 John Murray o expressou assim: "O agir de Deus em nós não cessa porque nós agi¬mos, nem o nosso agir é suspenso por causa do agir dEle. Tampouco há uma relação de cooperação estrita, em que Deus faz a parte dEle e nós, a nossa... Deus age em nós, e nós também agimos". Mas a relação é esta: "Porque Deus age, nós agimos também".


Toda virtude que possuímos, Toda conquista que obtemos, Todo pensamento de santidade Pertence somente a Ele.


Kenneth Prior escreveu: "Há um perigo sutil em falar sobre a santificação como algo que resulta essencialmente de nosso próprio esforço ou iniciativa. Podemos fazer isso inconscientemente, até reconhecendo nossa necessidade do poder do Espírito Santo, tornando a atividade desse poder dependente de nossa entrega e consagração".

Nossa dependência de Deus, quanto à santidade, tem de nos humilhar. A santidade e a humildade são inseparáveis.13 Elas têm em comum o fato de que nenhuma delas reconhece-se a si mesma. Os cristãos mais santos lamentam a sua impureza; os mais humil¬des, o seu orgulho. Aqueles que de nós que são chamados a ser mes¬tres e exemplos de santidade têm de acautelar-se do orgulho sutil e insidioso agindo em nossa suposta santidade.

A santidade é bastante impedida por qualquer opinião errada f. sobre ela mesma e sua relação com a humildade. Por exemplo:

Quando pensamos, falamos e agimos como se a nossa santidade nos fosse, de algum modo, suficiente, sem nos vestirmos da humildade de Cristo, já estamos envolvidos em orgulho espiritual. I Quando começamos a nos sentir complacentes quanto à nossa santidade, estamos longe da santidade, bem como da humildade. Quando a mortificação pessoal está ausente, a santidade também está ausente.

Quando a mortificação pessoal não nos faz buscar refúgio em Cristo e em sua santidade, nesse caso não há santidade. Sem uma vida de dependência de Cristo, não possuímos santidade.


OPINIÕES ERRÔNEAS A RESPEITO DA SANTIDADE

Aceitar opiniões erradas e contrárias à Bíblia pode impedir nossa santidade. A necessidade de experimentar "a segunda bênção", uma busca intensa por nosso dom especial do Espírito (ou o desejo de exercer um dom carismático, como o dom de falar em línguas ou de fé curadora) e a aceitação de Jesus como Senhor, mas não como Salvador — essas são apenas algumas das muitas interpretações erradas da Bíblia que podem distorcer o entendimento correto da santidade bíblica em nosso viver.

Embora a abordagem desses assuntos esteja fora do escopo deste capítulo, permita-me fazer um resumo em três afirmações. No que diz respeito ao primeiro erro mencionado no parágrafo anterior, não é apenas a segunda bênção que o crente necessita — ele necessita da segunda, bem como da terceira, da quarta, da quinta — sim, ele precisa da bênção contínua do Espírito Santo, a fim de progredir em santidade, para que Cristo cresça, e ele, crente, diminua (Jo 3.30). No que concerne ao segundo erro, alguém comentou sabiamente: "Quando Paulo escreveu aos crentes de Corinto, dizendo-lhes que não deviam ter falta de nenhum dom (1 Co 1.7), ele deixou claro que a evidência da plenitude do Espírito não é o exercício de seus dons (dos quais aqueles crentes tinham muitos), e sim a colheita de seu fruto (do qual eles tinham pouco)".14 E, no que diz respeito ao terceiro erro, de separar o Salvador de seu senhorio, o Catecismo de Heidelberg nos proporciona um resumo corretivo na Pergunta 30: "Uma destas duas coisas tem de ser verdade: ou Jesus não é um Salvador completo, ou aqueles que, por fé verdadeira, recebem este Salvador têm de encon¬trar nEle tudo que é necessário para a sua salvação".


EVITANDO O CONFLITO

Somos propensos a esquivar-nos de nossa batalha espiritual cotidiana. Ninguém gosta de guerra. Além disso, o crente é cego quanto aos seus reais inimigos — um Satanás astuto, um mundo tentador e, especialmente, a realidade de sua própria corrupção, que Paulo descreveu de modo tão penetrante em Romanos 7.14-25. Ser san¬to entre os santos exige graça; ser santo entre os impuros significa grande graça. Manter a santidade pessoal em um mundo ímpio, com um coração inclinado a desviar-se, necessita de luta perene. Envolve um conflito, uma guerra santa, uma batalha contra Satanás, uma luta entre a carne e o Espírito (Gl 5.17). Um crente não somente tem paz na consciência, mas também guerra no seu íntimo (Rm 7.24-8.1). Como asseverou Samuel Rutherford: "A guerra do diabo é melhor do que a paz do diabo".15 Portanto, os remédios da santidade de Cristo (Hb 7.25-28) e da armadura cristã suprida pelo seu Espírito (Ef 6.10-20) são ignorados ao nosso próprio risco. A verdadeira santidade tem de ser buscada no contexto de uma profunda consciência do pecado, que continua a habitar em nosso coração e a enganar nosso entendimento. O homem santo, diferentemente dos outros, não está em paz com o pecado, que habita nele. Embora ele venha a cair, ele se sentirá humilhado e envergonhado por causa de seu pecado.

Fonte: [Josemar Bessa]

1 de set. de 2010

John Piper - Faça Guerra


Fonte: [Youtube]
Via: [Voltemos ao Evangelho]

31 de ago. de 2010

Um Sopro de Abominação – Joseph Alleine (1634 – 1668 )



Sem verdadeira conversão todas as suas práticas religiosas são nada mais que perdas, pois elas não cumprem os verdadeiros propósitos do evangelho, isto é, não podem agradar a Deus nem salvar sua alma (Romanos 8:8; I Coríntios 13:2-3). Mesmo que seus cultos sejam muito especiais, Deus não tem prazer neles (Isaías 1:14; Malaquias 1:10). Não é terrível a situação daquele homem, cujos sacrifícios são como homicídios e cujas orações como um sopro de abominação? (Isaías 66:3; Provérbios 28:9). Muitos, sob convicção, pensam que estão determinados a se corrigirem e que algumas orações e esmolas poderão consertar tudo; mas que tristeza, senhores, enquanto seus corações permanecerem sem santificação, nenhuma de suas obrigações será aceita.

Quão meticuloso era Jeú! No entanto, tudo foi rejeitado porque o seu coração não era justo (II Reis 10 com Oséias 1:4). Quão irrepreensível era Paulo! Contudo, não sendo convertido, tudo não passava de perda (Filipenses 3:6-7). Os homens acham que fazem muito em dar atenção ao serviço de Deus, e até O consideram em débito com eles, entretanto, não estando santificados, suas práticas religiosas não podem ser aceitas.

Ó alma, não pense que quando seus pecados a perseguem, uma simples oraçãozinha e uma reformazinha de sua conduta poderão apaziguar a Deus. É necessário começar com o seu coração. Se ele não for renovado, você não pode agradar a Deus mais do que alguém que, tendo-o ofendido indizivelmente, viesse trazer-lhe a coisa mais asquerosa para acalmá-lo; ou, havendo caído no lodo, pensasse em reconciliar-se com você com seus abraços imundos.

Ê uma grande desgraça labutar no fogo. Os poetas não poderiam inventar um inferno pior para Sísifo, do que ficar labutando eternamente, a fim de levar para cima da montanha a pesada pedra que sempre rolava para baixo novamente, obrigando-o a recomeçar o seu trabalho. Para Deus o maior dos julgamentos temporais é que os que desobedecem edifiquem uma casa sem habitar nela, plantem e não colham, e o seu trabalho seja devorado pelos estrangeiros (Deuteronômio 28:20, 38-41). Não é uma grande desgraça perder todo nosso trabalho, semear e construir em vão? Mas é muito pior perder nossos esforços religiosos — orar, ouvir a Palavra de Deus e jejuar em vão! Trata-se de uma perda eterna e irreparável. Não se deixe enganar: se você continuar no seu estado pecaminoso, ainda que estenda as suas mãos, Deus vai esconder os olhos; mesmo que você faça muitas orações. Ele não ouvirá (Isaías 1:15). Se um homem incapaz começa a fazer o nosso trabalho e o estraga, mesmo que ele capriche, não o agradecemos por isso. Deus tem que ser adorado conforme Sua determinação. Se um servo faz o nosso trabalho totalmente contrário à nossa ordem, ele deverá receber açoites ao invés de louvores. A obra de Deus precisa ser feita de acordo com a vontade dEle, ou Ele não Se agradará; e isto não pode ser, a menos que seja feito com um coração santo.

Fonte: [Josemar Bessa]

28 de ago. de 2010

Calvino, Pietas e o Soli Deo Gloria – Joel Beek


As Institutas, escritas por João Calvino, fizeram-no receber o título de "o sistematizador preeminente da Reforma Protestante". Com freqüência, a reputação de Calvino como um intelectual é vista separadamente do contexto pastoral e espiritual em que ele escreveu sua teologia. Para Calvino, o entendimento teológico e a verdade, a piedade e a utilidade prática são inseparáveis. Antes de tudo, a teologia lida com o conhecimento — conhecimento de Deus e de nós mesmos; mas não há conhecimento verdadeiro, onde não há piedade verdadeira.

O conceito de piedade (pietas) ensinado por Calvino se fundamentava no conhecimento de Deus, incluindo atitudes e ações di¬recionadas à adoração e ao serviço de Deus. Além disso, a pietas de Calvino incluía uma hoste de temas relacionados, tais como o amor nos relacionamentos humanos e o respeito à imagem de Deus nos seres humanos. Essa piedade é evidente em pessoas que reconhecem, por meio da fé experiencial, que foram aceitas em Cristo e enxertadas no corpo dEle, pela graça de Deus. Nesta "união mística", o Senhor declara essas pessoas como pertencentes a Ele, tanto na vida como na morte. Elas se tornam povo de Deus e membros de Cristo pelo poder do Espírito Santo. Este relacionamento restaura lhes o gozo da comunhão com Deus e recria-lhes uma nova vida. Liberta-as da escravidão ao mundanismo carnal.

O propósito agora é mostrar que a piedade de Calvino é uma resposta suficiente ao problema do mundanismo; seu conceito de piedade é algo que conquista o nosso coração. A piedade de Calvino é bíblica, com uma ênfase no coração mais do que na mente. A mente e o coração devem trabalhar juntos, mas o coração é mais importante.

A DEFINIÇÃO E A IMPORTÂNCIA DA PIEDADE

Pietas é um dos grandes temas da teologia de Calvino. Como nos diz John T. McNeill, a teologia de Calvino é a "sua piedade descrita em profundidade". Ele estava determinado a confinar a teologia aos limites da piedade. No prefácio dirigido ao rei Francisco I, Calvino afirma que o propósito em escrever as Institutas era "transmitir unicamente certos rudimentos pelos quais aqueles que possuem zelo pelo cristianismo podem ser moldados na verdadeira piedade[pietas]".

Para Calvino, pietas designa a atitude correta de um homem para com Deus. E uma atitude que inclui conhecimento verdadeiro, adoração sincera, fé salvadora, temor filial, submissão e amor reverentes. Saber quem e como Deus é (teologia) envolve atitudes corretas para com Ele e fazer o que Ele deseja (piedade). Em seu primeiro catecismo, Calvino escreveu: "A verdadeira piedade consiste em um sentimento sincero que ama a Deus como Pai e O reverencia como Senhor; apropria-se de sua justiça e teme mais o ofendê-Lo do que o enfrentar a morte". Nas Institutas, João Calvino é mais sucinto: "Chamo de piedade aquela reverência unida ao amor a Deus, o amor que é fruto do conhecimento de seus benefícios". Esse amor e reverência para com Deus é um acompanhamento indispensável a qualquer conhecimento de Deus e abrange todos os aspectos da vida. Conforme afirmou Calvino: "Toda a vida dos crentes deve ser um tipo de prática da piedade". O subtítulo da primeira edição das Institutas dizia:"Incluindo quase todo o resumo da piedade e qualquer coisa necessária para se conhecer a doutrina da salvação: Uma obra muito digna de ser lida por todos os zelosos por piedade".

Os comentários de Calvino também refletem a importância de pietas. Por exemplo, ele escreveu sobre 1 Timóteo 4.7-8: "Você fará algo de grade valor se, com todo o seu zelo e habilidade, se dedicar unicamente à piedade [pietas]. A piedade é o começo, o meio e o fim do viver cristão. Onde ela é completa, não há falta de nada... A conclusão é que devemos concentrar-nos, exclusivamente, na piedade, pois, uma vez que a tenhamos atingido, Deus não exige de nós qualquer outra coisa".10 Comentando 2 Pedro 1.3, Calvino disse: "Quando Pedro fez menção da vida, acrescentou imediatamente a piedade [pietas), como se esta fosse a essência da vida".

O ALVO SUPREMO DA PIEDADE: SOLI DEO GLORIA

O alvo da piedade, bem como de toda a vida cristã, é a glória de Deus — a glória que resplandece nos atributos de Deus, na estrutura do mundo, na morte e na ressurreição de Jesus Cristo. No que diz respeito a todos os que são verdadeiramente piedosos, o glorificar a Deus supera a salvação pessoal. Por isso, Calvino escreveu ao cardeal Sadoleto: "Não é uma teologia bastante saudável confinar os pensamentos de um homem a ele mesmo e não apresentar-lhe, como motivo fundamental de sua existência, o zelo pela glória de Deus... Estou convencido: não existe nenhum homem que possua a piedade verdadeira e não considere como insípida aquela extensa e laboriosa exortação em favor do zelo pela vida celestial, um zelo que o mantém totalmente dedicado a si mesmo e que não o desperta, nem mesmo por uma única expressão, a santificar o nome de Deus".

O alvo da piedade — que Deus seja glorificado em nós — é aquilo para o que fomos criados. Portanto, o nascido de novo anela por vivenciar o propósito de sua criação original. De acordo com Calvino, o homem piedoso confessa:"Somos de Deus; vivamos e morramos para Ele. Somos de Deus; sejamos governados por sua sabedoria e vontade em todos os nossos atos. Somos de Deus; em harmonia com isso, devemos segui-Lo como nosso único objetivo lícito, em todo os aspectos de nossa vida".

Deus redime, adota, santifka o seu povo, para que sua glória resplandeça neles e os liberte da busca pelo egoísmo ímpio. O profundo interesse do homem piedoso é Deus mesmo e suas coisas — sua Palavra, sua autoridade, seu evangelho, sua verdade. O homem piedoso tem intenso desejo de conhecer mais a Deus e de ter mais comunhão com Ele como o seu único alvo.

Mas, como glorificamos a Deus? Calvino escreveu: "Deus nos prescreveu uma maneira pela qual Ele pode ser glorificado por nós, a saber, a piedade, que consiste na obediência à sua Palavra. Aquele que ultrapassa esses limites não está honrando a Deus; pelo contrário, está desonrando-O". A obediência à Palavra de Deus significa refugiar-se em Cristo para o perdão de nossos pecados, conhecê-Lo por meio de sua Palavra, servi-Lo com um coração repleto de amor, praticar boas obras em gratidão por sua bondade e exercitar auto-renúncia, a ponto de amar os nossos inimigos. Esta resposta envolve rendição total a Deus mesmo, à sua Palavra e à sua vontade.

Calvino disse: "Ofereço-Te meu coração, Senhor, imediata e sinceramente".Esse é o desejo de todos os que são verdadeiramente piedosos. Contudo, esse desejo pode ser realizado apenas por meio da comunhão com Cristo e da participação nEle; pois, fora de Cristo, até a pessoa mais religiosa vive para si mesma. E apenas em Cristo os piedosos podem viver como servos voluntários, soldados leais de seu Comandante e filhos obedientes de seu Pai.

Fonte: [Josemar Bessa]

23 de ago. de 2010

Herdeiros da Ira de Deus – Thomas Watson – (1620-1686)



a. Sob o poder de Satanás

A primeira desgraça é que, pela natureza, estamos "sob o poder de Satanás", que é chamado de "o príncipe da potestade do ar" (Ef 2.2). Antes da queda, o homem era um cidadão livre, agora é um escravo; antes, um rei em seu trono, agora, está em grilhões. A quem o homem está escravizado? Aquele que é seu inimigo. Isso tornava pior o cativeiro de Israel. "Sobre eles dominaram os que os odiavam" (SI 106.41). Pelo pecado somos escravizados a Satanás, inimigo da humanidade, que escreve todas as suas leis com sangue. Os pecadores, antes da conversão, estão sob as ordens de Satanás; como o asno está sob o comando do condutor, assim ele conduz todos que labutam pelo mal. Assim que Satanás tenta, eles obedecem. Como o navio está sob o comando do piloto, que o guia pelos caminhos que quiser, assim é o pecador sob o comando de Satanás: e este sempre conduz o navio para o inferno. O maligno dirige todos os poderes e todas as faculdades do pecador.

i.       Satanás dirige o entendimento. Ele cega os homens com ignorância e. depois, dirige-os. Como os filisteus arrancaram os olhos de Sansão e, assim, o amarraram, Satanás pode fazer o que quiser com um homem ignorante, uma vez que ele não enxerga o erro em seu caminho, o mal pode guiá-lo a qualquer pecado. Você pode guiar um cego para onde quiser, pois todo o pecado está fundamentado na ignorância.

ii.      Satanás dirige a vontade. Embora ele não possa obrigar, pode, pela tentação, atrair. "Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos" (Jo 8.44). Ele toma os corações, e estes, passam a lhe obedecer. "Queimaremos incenso à Rainha dos Céus" (Jr 44.17). Quando o mal instiga um pecador com a tentação, ele irá atropelar e quebrar todas as leis de Deus, de maneira a obedecer Satanás. Onde está, então, o livre-arbítrio, quando Satanás exerce tal poder sobre a vontade? "E quereis satisfazer-lhe os desejos." Não há uma só parte do corpo que não esteja a serviço do mal: a cabeça planeja o pecado, as mãos o executam, os pés correm para executar a tarefa do maligno. Cícero dizia: "A escravidão é odiosa para um espírito nobre". Satanás é o pior tirano. A crueldade de um canibal ou de Nero é nada para ele. Outros tiranos governaram sobre o corpo, ele governa sobre a consciência. Outros tiranos mostraram alguma misericórdia para com seus escravos: ainda que trabalhassem nas galés, eles lhes davam carne, davam-lhes horas de descanso. Satanás é um tirano impiedoso: não dá descanso. Quanto pesar Judas suportou. O diabo não lhe deu nenhum descanso até que traísse Cristo e, depois, encharcasse as mãos em seu próprio sangue.

APLICAÇÕES

Primeira aplicação: veja nossa desgraça causada pelo pecado original, escravizados a Satanás. Efésios 2.2 diz que Satanás atua absolutamente nos filhos da desobediência. Que triste praga é para um pecador estar a serviço do mal. Exatamente como um escravo, se os senhores mandam que cave nas minas, quebre pedras nas pedreiras ou puxe os remos, ele tem de obedecer, não ousa recusar. Se o diabo manda que um homem minta ou roube, ele não se recusa e, o que é pior, voluntariamente obedece a esse tirano. Outros escravos são forçados contra sua vontade: "os filhos de Israel gemiam sob a servidão" (Êx 2.23). Os pecadores, porém, estão dispostos a serem escravos, não escolhem a liberdade, mas beijam seus grilhões.

Segunda aplicação: trabalhemos para sair dessa condição deplorável na qual o pecado nos afunda, saindo debaixo do poder de Satanás. Se qualquer um de seus filhos fosse feito escravo, você daria grandes somas de dinheiro para resgatar sua liberdade. Quando, então, suas almas estão escravizadas, não devemos lutar para libertá-las? Promova o evangelho. O evangelho proclama alegria para os cativos. O pecado prende os homens, porém o evangelho os liberta. A pregação de Paulo era "para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus" (At 26.18). A estrela do evangelho guia a Cristo e, se tiverem Cristo, então serão livres, embora não da existência do pecado, mas da tirania de Satanás. "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" (Jo 8.36). Vocês desejam ser reis para reinarem no céu e vão deixar que Satanás reine em vocês? Não pensem em ser reis quando morrerem e escravos enquanto viverem. A coroa de glória é dos vencedores, não dos cativos. Então, saia da jurisdição de Satanás, deixe que seus grilhões de pecado sejam eliminados pelo arrependimento.

b. Herdeiros da ira de Deus

"Éramos por natureza filhos da ira." A explanação que Tertuliano faz dessa passagem está errada, pois ele entende a expressão "filhos da ira" de maneira subjetiva, ou seja, sujeitos à ira e à cólera, transgressores freqüentes na irascível faculdade de um espírito irado. Por "filhos da ira", o apóstolo, passivamente, quer dizer herdeiros da ira, expostos à cólera de Deus. O Senhor, no passado, foi um amigo, porém, o pecado quebrou os laços de amizade. Agora, o sorriso de Deus se transformou numa carranca. Julgados no tribunal, fomos feitos filhos da ira. "Quem conhece o poder da tua ira?" (SI 90.11). "Como o bramido do leão, assim é a indignação do rei" (Pv 19.12). Como o coração de Hamã não deve ter tremido, quando o rei, enfurecido, levantou-se durante o banquete (Et 7.7).

A ira de Deus, todavia, é infinita, outras iras são somente fagulhas: em Deus, a ira não é passional, como em nós; é, antes, uma ação da santa vontade de Deus, pela qual ele execra o pecado e decreta a sua punição. Essa ira é muito triste e é ela que acirra a aflição desta vida, como quando vem a doença, atendendo à cólera de Deus, e a consciência entra em agonia. A mistura do fogo com a saraiva deixa a situação mais terrível (Ex 9.24). Portanto, a mistura da ira de Deus com a aflição produz algo torturante: é um cravo a mais no jugo. A ira de Deus, mesmo só ameaçadora (como o aguaceiro suspenso nas nuvens) fazia as orelhas de Eli tinirem; o que dizer, então, de quando a ira é efetuada? É terrível quando o rei avalia e censura um traidor, mas, é muito mais terrível quando ele o manda para o cavalete ou para ser moído na roda. "Quem conhece o poder da ira de Deus?"

Enquanto formos filhos da ira não podemos fazer nada com as promessas, elas são como a árvore da vida, produzindo muitos tipos de fruto, mas da qual não temos o direito de tirar nem uma só folha. "Filhos da ira" (Ef 2.3), "estranhos às alianças da promessa" (Ef 2.12). As promessas são como uma fonte selada. Enquanto estivermos no estado natural, não vemos nada a não ser a espada flamejante, como diz o apóstolo: "Pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador" (Hb 10.27). Enquanto formos filhos da ira, estamos todos "debaixo da maldição" (Gl 3.10). Como o pecador pode comer e beber estando em tal condição? É como Dâmocles, no banquete, que ao sentar para a refeição principal tinha uma espada sobre sua cabeça, pendurada somente por um fio, por isso não podia comer. Assim é a espada da ira e da maldição de Deus, suspensa a todo o tempo sobre o pecador. Lemos sobre um rolo voador, cheio de maldições (Zc 5.3). Um rolo com maldições vai contra cada pessoa que vive e morre em pecado. A maldição de Deus arruina tudo por onde passa. Há uma maldição sobre o nome do pecador, uma maldição sobre sua alma, uma maldição sobre seu estado e sobre sua posteridade, uma maldição sobre a lei. É muito triste se tudo o que o homem comer se transformar em veneno; assim, o pecador come e bebe a própria condenação à mesa de Deus. É assim antes da conversão. Como o amor de Deus transforma qualquer coisa amarga em doce, do mesmo modo a maldição de Deus transforma tudo o que for doce em amargo.

Observe nossa desgraça por causa da queda. "Herdeiros da ira." E esse um estado em que devemos descansar? Se um homem ficar sob a ira do rei não irá se esforçar para se reintegrar a seu favor? Fujamos da ira de Deus. E para onde podemos fugir, senão para Jesus Cristo? Não existe nada mais que nos proteja da ira de Deus. "Jesus, que nos livra da ira vindoura" (lTs 1.10).

Fonte: [Josemar Bessa]

17 de ago. de 2010

Qual é sua reação a cruz? – Lloyd-Jones


Você ouve o clamor do Filho em agonia: "Deus meu! Deus meu! Por que me desamparaste?" (Mateus 27.46). Literalmente, Jesus morreu com o coração quebrantado. João nos relata que quando os soldados perfuraram o seu lado com uma lança "logo saiu sangue e água" (João 19.34). O coração de Jesus havia se rompido e o sangue havia se coagulado, e havia soro e coágulo sanguíneo, porque o coração, literalmente, se rompeu com a agonia da ira de Deus sobre ele, e pela separação da face de seu Pai. Este é o amor de Deus. Meu amigo, este é o amor de Deus por você, um pecador. Ele não olha passivamente e diz: "Eu o perdôo apesar do que fez ao meu Filho". Não! Ele mesmo castigou o Filho. Ele fez ao Filho o que eu e você jamais poderíamos ter feito. Deus derramou sua ira eterna sobre Jesus, e escondeu sua face dele, seu Unigénito e Amado. E Deus assim agiu para que nós não recebêssemos a punição e fôssemos para o inferno, passando lá toda a eternidade em miséria, tormento e infelicidade. Tal é o amor de Deus, e esta é a maravilha e a glória da cruz. Deus punindo o seu próprio Filho para que não precisasse punir a você e a mim.

Isto também foi feito a fim de que a mensagem da cruz pudesse ser pregada desta forma: "Crê no Senhor Jesus, e serás salvo..." (Atos 16.31). Creia que Jesus morreu a sua morte, suportou a sua punição, sofreu em seu lugar, que a punição que lhe traz a paz estava sobre ele. Creia e, imediatamente, será perdoado. Esta é a glória da cruz. A sabedoria de Deus legando o caminho, o amor divino executando o plano, apesar do que isso significava para ele, e seu Filho, voluntária e prontamente, submetendo-se a este plano, a fim de que você e eu pudéssemos ser perdoados, tornando-nos filhos de Deus. Oh:

Ao contemplar a maravilhosa cruz Na qual o Príncipe da glória morreu, - levado à morte por seu próprio Pai -Meu mais rico ganho eu reputo por perda, E desprezo por todo o orgulho meu.

- e por toda a minha autojustiça. "Ao contemplar a maravilhosa cruz" é que vejo estas coisas: O Deus eterno, em toda a glória de seu coração de Pai, entregando o seu próprio Filho para morrer em meu lugar.

Na verdade, vejo lá na cruz a harmonia de todos os atributos divinos. Vejo santidade e amor, contemplo "misericórdia e verdade se unindo. Justiça e paz fundindo-se". Vejo todos os eternos atributos do Deus eterno, todos eles mostrados ao mesmo tempo. Não há contradição entre a retidão, a justiça, o amor, a misericórdia e a compaixão. Todos lá estão, na plenitude da Divindade. Só há uma coisa a dizer quando contemplo coisas assim: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo". E lá na cruz que eu vejo a Deus como ele é, e como o meu Pai. Vejo o seu glorioso caráter justificado em todos os mínimos detalhes. Portanto, eu confio a ele a minha alma, descanso na palavra do Deus eterno e imutável.

Esta é a sua reação com respeito à cruz, meu amigo? Já viu estas coisas na cruz - o Filho, com o Pai e o Espírito Santo sustentando o Filho? Jesus se ofereceu por meio do Espírito eterno ao Pai em nosso favor. E a sua reação a isto que decide se você é um cristão ou não. Não me venha falar de suas boas obras, pois não me importa. Não venha me dizer que é membro de igreja, pois não estou nem um pouco interessado. Você está se gloriando na cruz? Ela é tudo para você? É a sua vida? Você está pronto a morrer em vez de negar esta mensagem gloriosa? Isto é ser um cristão e, se não nos gloriarmos na cruz, não a vimos, nem a compreendemos. E, se não a temos visto, na verdade não cremos nela. E, se não cremos na cruz, ainda estamos em nossos pecados e deveríamos ter igual morte. Iremos a julgamento e seremos condenados ao inferno. O seu destino eterno depende apenas disso. Você já compreendeu que Deus providenciou na cruz o único caminho pelo qual você pode ser perdoado e se tornar um filho de Deus, herdando as glórias da eternidade? Possa Deus ter misericórdia de todos nós e, pelo seu Espírito, abrir nossos olhos para vermos a glória da cruz.

A Soberana Liberdade de Deus - James Montgomery Boice


Nestes dias de múltiplos "direitos" humanos, a maioria das pessoas considera erroneamente que Deus nos deve algo — a salvação ou pelo menos uma oportunidade de salvação. Mas na argumentação de Packer sobre a graça, à qual nos referimos no início deste capítulo, o autor aponta corretamente que Deus não nos deve coisa alguma. Ele mostra um surpreendente favor a muitos — isto é o que graça significa — mas ele não tem de fazê-lo. Se ele fosse obrigado a ser gracioso, a graça não seria mais graça e a salvação seria baseada nos méritos humanos ao invés de ser sola gratia.

Quando dizemos que Deus não é obrigado a ser gracioso estamos falando a respeito de graça soberana e quando falamos a respeito de graça soberana não há melhor passagem bíblica para estudar do que Efésios 1. A maior parte dos cristãos está ciente do ensino de Paulo sobre a graça em Efésios 2. Na verdade, muitos memorizaram Efésios 2.8,9, que descreve a graça. O que a maioria não percebe é que o significado de graça naqueles versículos já havia sido definido através do que foi dito a respeito de graça no capítulo 1. O capítulo 1 é, do começo ao fim, sobre a soberana graça de Deus.

Qual é a diferença entre Efésios 1 e 2? Ambos usam a palavra graça três vezes. Mas o capítulo 1 olha para o assunto sob o ponto de vista de Deus, mostrando que nós somos salvos por causa do que Deus quis, enquanto que o capítulo 2 olha para o assunto pela nossa perspectiva, mostrando como estes decretos anteriores de Deus impactam o crente individual. A coisa mais importante é que Paulo começa com Deus. E ainda mais, começando com Deus, ele destaca o papel de cada pessoa da Trindade em seu trabalho.

1. O papel de Deus o Pai: eleição, "assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado" (Ef 1.4-6). Estes versos são uma das mais fortes expressões da graça soberana na Escritura, pois ensinam que as bênçãos da salvação vêm para algumas pessoas porque Deus deter-minou desde antes da criação do mundo dar estas bênçãos àquelas pessoas — e somente por esta razão.

Muitas pessoas hoje não gostam desta doutrina porque pensam que não é justa. Alguns a negam francamente. Alguns a admitem mas negam seus efeitos dizendo que a escolha é baseada no pré-conhecimento de Deus — como se houvesse qualquer coisa boa em nós para Deus prever, à parte dele ter previamente determinado colocar isto em nós. Alguns ignoram a doutrina. Mas é difícil ignorar a eleição, pois ela tem seus alicerces do começo ao fim da Bíblia e em muitas passagens decisivas. Sem a prévia eleição divina dos pecadores para a salvação, a graça é esvaziada de seu significado.

2. O papel de Deus o Filho: redenção. A eleição não é a única coisa que Deus fez como expressão de sua graça na salvação. Seguindo o padrão trinitariano deste capítulo, vamos para a doutrina da redenção. O que Deus fez por meio de Jesus Cristo foi redimir seu povo eleito ou escolhido, o que também flui de graça imerecida ou total-mente soberana. "No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência" (Ef 1.7,8).

A razão pela qual a redenção é particularmente associada a Jesus Cristo é que redenção é um termo comercial que significa "comprar no mercado para que o objeto ou pessoa comprada possa ser libertada" e Jesus fez esta compra e obra libertadora por nós através de sua morte em nosso lugar. Para levar a efeito a ilustração, somos descritos como escravos do pecado, incapazes de nos libertar a nós mesmos da escravidão do pecado e das garras do mundo. Na verdade, em vez de nos libertar, o mundo brinca alegremente com nossos corpos e almas. E oferece seu sedutor pagamento — fama, sexo, prazer, poder, riqueza. Por estas coisas milhões vendem suas almas eternas e perecem. Mas Jesus entra no mercado como nosso Redentor. Jesus oferece o preço de seu sangue. Deus diz: "Vendido para Jesus, pelo preço de seu sangue!" Não há lance mais alto que este. Assim nos tornamos sua posse para sempre.

O apóstolo Pedro escreveu: "sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo" (1 Pe 1.18,19). Charles Wesley expressou isto poeticamente:

Há muito meu aprisionado espírito jaz
Prisioneiro do pecado e da noite da natureza;
Teu olho difundiu um rápido raio;
Acordei, a masmorra brilhou com luz;
Minhas cadeias caíram, meu coração foi liberto;
Levantei, prossegui e te segui.


3. O papel de Deus Espírito Santo: chamada eficaz. A terceira expressão da graça soberana de Deus em nossa salvação enfatizada em Efésios 1 é a obra do Espírito Santo, que aplica ao indivíduo a salvção planejada por Deus Pai e alcançada por Deus Filho. "Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo; em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória" (Ef 1.11-14).

Ao primeiro relance a palavra "herança" no verso 11 parece estar descrevendo a mesma coisa que as palavras de Paulo a respeito da escolha do Pai no verso 4, ou seja, eleição. Mas na verdade a idéia é diferente. No verso 4 a escolha predestinadora do Pai está antes de tudo. No verso 11, "herança" se refere ao que os teólogos denominam o chamado eficaz do Espírito Santo, o qual flui e é determinado pelo exercício da soberana vontade de Deus na eleição.

Provavelmente a maior ilustração da graça de Deus chamando um pecador morto para a vida seja a de Jesus ressuscitando Lázaro, registrado em João 11. Quando Jesus retornou a Betânia a pedido das irmãs do homem morto, foi dito a ele que Lázaro havia morrido há quatro dias e que ele já estava em decomposição: "Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias" (v.39). Que descrição gráfica do estado de nossa decadência moral e espiritual por causa do pecado! Morto, decompondo, com mal cheiro, sem esperança. Não havia nada que alguém pudesse fazer por Lázaro nesta condição de morte. Sua situação não era meramente séria ou severa; era impossível.

Mas não para Deus! "Para Deus tudo é possível" (Mt 19.26). Por-tanto, havendo orado, Jesus chamou: "Lázaro, vem para fora" (Jo 11.43), e o chamado de Jesus trouxe vida ao homem morto, assim como a voz de Deus trouxe do nada o inteiro universo à existência.

Isto é o que o Espírito Santo faz a pecadores moribundos hoje. O Espírito Santo trabalha por meio da pregação da Bíblia para chamar à fé aqueles que ele previamente escolheu para a salvação e por quem especificamente Jesus morreu. A parte destas três graciosas ações — o ato de Deus em eleger, a obra de Cristo em morrer, e a operação do Espírito Santo em chamar — não haveria salvação para nin¬guém. Mas devido a estas ações — por causa da graça soberana de Deus — mesmo o pior dos rebeldes blasfemos pode ser mudado de sua insensatez e pode encontrar Cristo.

Fonte: [Josemar Bessa]
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