31 de dez de 2011

Sobre o último dia de um ano

por James Meikle
James Meikle
(esse artigo foi escrito originalmente no dia 31 de dezembro de 1758)
O tempo é medido, e ele é semelhante em ambas extremidades; começa com um dia, e terminará com um dia. Por isso “tarde e manhã” foram usadas para expressar o primeiro dia, assim como o julgamento universal é chamado de o último dia. A Eternidade é a fonte de água da qual ele surge, e a enchente para qual ele deságua. A mais longa duração do tempo é curta, e seu maior prolongamento chega ao final. Um dado momento mal é conhecido, e já se torna passado.
Alguns momentos, que duram um minuto, quando começamos a desfrutar, também já acabaram; deste modo, uma hora voa, um dia se apressar em chegar ao fim e, um ano (assim como esse ano) chega ao seu último dia. Assim, portanto, no final do ano, comerciantes fazem seus balanços financeiros, ajustam seus livros contábeis, e então pergunto a mim mesmo: Que benefício meus dons trouxeram nesses doze meses? Porque, qualquer que seja minha opinião, o tempo não é dos menores dons, e mais um ano foi adicionado à minha conta.
Que benefício meus dons trouxeram nesses meses? Tempo não é dos menores dons e outro ano foi adicionado à minha conta.
Milhares que vieram ao mundo depois de mim foram chamados à eternidade antes de mim; não é isso uma voz clamando para que eu viva melhor cada momento de minha vida? Aqueles que pouco refletem sobre o tempo são os mesmos que pensam ainda menos na eternidade. Mas se olho para o mundo vindouro, verei a grande importância de cada momento do meu tempo, o qual juntamente com o tempo a mim dado deve preparar-me para o imutável estado eterno.
Ó precioso tempo desperdiçado, que nunca mais terei de volta! Agora esse ano se foi, e nunca retornará; o que, então, fiz para a glória de Deus nesse ano que passou? Ah! ele se foi de mim como o vazio, apesar de ele brilhar nesse momento com muitas misericórdias, como um céu estrelado. Ah! eu disse vazio? Não, pior! Pois enquanto Seu amor e misericórdias brilharam ao meu redor como o Sol do meio-dia, meus pecados cresceram em grande número, como os átomos do Sol!
Agora esse ano se foi, e nunca retornará; o que, então, fiz para a glória de Deus nesse ano que passou?
Esse é o último dia do ano; e como avaliarei cada momento dele? Considerarei como o último dia da minha vida? Nada, a não ser a presunção, me bajula dizendo que viverei mais um dia. Devo considerar cada dia como meu último, pois alguns tiveram seu último dia em dias que pouco temeram que o fosse, como eu pouco temo que esse seja; no melhor dos casos, algum dia logo será meu último, quando talvez essa mesma expectativa perniciosa não terá sido dissipada de minha alma. Portanto, é sábio estar preparado para a morte. Pensar que a morte está longe e que não será surpreendido quando ela vier repentinamente? Sempre a espere, e você não ficará aterrorizado quando ela se aproximar. Assim, devo olhar para cada dia como meu último, de forma que quando meu último dia vier, não seja inesperado, nem me surpreenda despreparado.
Mas, que pesar! Esse ano me concedeu mais espetáculos lamentáveis de pecado que a minha vida inteira. Ouvi o nome divino blasfemado, vi pecados em locais de honra e todas as formas de perversidade cometidas. Ó, por migalhas os homens jogam suas almas fora! E como posso, indiferente, ver o pecado em todos os seus aspectos horrendos e o estrago terrível que causa nas almas imortais!
Mas que a divina providência preserve-me desses objetos de prazer, e que eu, pela graça, não me esqueça do que ouvi e vi! Também a paciência, pertencente a Deus, é notável. Porque quando pensamos em quanta impiedade é cometida em todo o mundo – em público e na vida privada, por grandes e pequenos, em terra e no mar – e ainda, que essa rebelião contra o Céu não começou ontem, mas vem desde a queda de Adão por mais de cinco mil anos, é difícil entender como o mundo ainda não foi entregue às chamas! Mas essa paciência cuja duração é surpreendente, deve afinal dar lugar a justiça, cuja execução será terrível.
Mas enquanto estou meditando em meu tempo fugaz, a meia-noite chega, e já estou em outro ano. Então, adeus para sempre 2011¹! E hei de lembrar-me que, por esse “adeus”, olho minha vida caminhando para seu fim, e que estou avançando para outro estágio, mais perto da eternidade – sem saber se um dia, ou um mês, ou um ano, ou dois, ou mais – serão outorgados a mim.
Olho minha vida caminhando para seu fim, e lembro que estou avançando para outro estágio, mais perto da eternidade.


¹ Adaptação para nossos dias. Para James Meikle (autor) era 1758.
Traduzido por Alex Daher | iPródigo.com | Original aqui
Fonte: [iPródigo]

29 de dez de 2011

Como Vai Ser 2012?


Quando olho o atual cenário da igreja evangélica brasileira – estou usando o termo “evangélica” de maneira ampla – confesso que me sinto incapaz de prever o que vem pela frente. Há muitas e diferentes forças em operação em nosso meio hoje, boa parte delas conflitantes e opostas. Olho para frente e não consigo perceber um padrão, uma indicação que seja, do futuro da igreja.

Há, em primeiro lugar, o crescimento das seitas neopentecostais. Embora estatísticas recentes tenham apontado para uma queda na membresia de seitas como a Universal do Reino do Deus, outras estão surgindo no lugar, como na lenda grega da Hidra de Lerna, monstro de sete cabeças que se regeneravam quando cortadas. A enorme quantidade de adeptos destes movimentos que pregam prosperidade, cura, libertação e solução imediata para os problemas pessoais acaba moldando a imagem pública dos evangélicos e a percepção que o restante do Brasil tem de nós. Na África do Sul conheci uma seita que mistura pontos da fé cristã com pontos das religiões africanas, um sincretismo que acaba por tornar irreconhecível qualquer traço de cristianismo restante. Temo que a continuar o crescimento das seitas neopentecostais e seus desvios cada vez maiores do cristianismo histórico, poderemos ter uma nova religião sincrética no Brasil, uma seita que mistura traços de cristianismo com elementos de religiões afro-brasileiras, teologia da prosperidade e batalha espiritual em pouquíssimo tempo.

Depois há o movimento “gospel”, que recentemente mostrou sua popularidade ao ter o festival “Promessas” veiculado pela emissora de maior audiência do país. Não me preocupa tanto o fato de que a Rede Globo exibiu o show, mas a mensagem que foi passada ali. A teologia gospel confunde “adoração” com pregação, exalta o louvor como o principal elemento do culto público, anuncia um evangelho que não chama pecadores e crentes ao arrependimento e mudança de vida, que promete vitórias mediante o louvor e a declaração de frases de efeito e que ignora boa parte do que a Bíblia ensina sobre humildade, modéstia, sobriedade e separação do mundo. Para muitos jovens, os shows gospel viraram a única forma de culto que conhecem, com pouca Bíblia e quase nenhum discipulado. O impacto negativo da superficialidade deste movimento se fará sentir nesta próxima geração, especialmente na incapacidade de impedir a entrada de falsos ensinamentos e doutrinas erradas.

Em Brasília, temos os deputados e senadores evangélicos que, gostemos ou não, têm conseguido retardar e mesmo impedir as tentativas de grupos ativistas LGTB de impor leis como o famigerado PL 122. O lado preocupante é que eles “representam” os evangélicos nestes assuntos e acabam, por associação, nos representando de maneira generalizada diante do grande público e da grande mídia. Por um lado, lamento que foram líderes de seitas neopentecostais e pastores de teologia e práticas duvidosas, em sua maioria, que conseguiram alcançar uma posição de destaque a ponto de serem ouvidos em Brasília. Esta é uma posição que deveria ter sido ocupada pelos reformados, como aconteceu em outros países. Mas, falhamos. E a bem da justiça, não posso deixar de reconhecer que Deus usa quem Ele quer para refrear, ainda que por algum tempo, a rápida deterioração da nossa sociedade. O que isto representará no futuro, é incerto.

Notemos ainda o rápido crescimento do calvinismo, não nas igrejas históricas, mas fora delas, no meio pentecostal. Não são poucos os pentecostais que têm descoberto a teologia reformada – particularmente as doutrinas da graça, os cinco slogans (“solas”) e os chamados cinco pontos do calvinismo. Boa parte destes tem tentado preservar algumas idéias e práticas características do pentecostalismo, como a contemporaneidade dos dons de línguas, profecia e milagres e um culto mais informal, além de uma escatologia dispensacionalista. Outros têm entendido – corretamente – que a teologia reformada inevitavelmente cobra pedágio também nestas áreas e já passaram para a reforma completa. Mas o tipo de movimento, igrejas ou denominações resultantes desta surpreendente integração ainda não é previsível. O que existe de mais próximo é o movimento neocalvinista, mas este é por demais vinculado à cultura americana para ser reproduzido com sucesso aqui, sem adaptações. Estou curioso para ver o que vai dar este cruzamento de soteriologia calvinista com pneumatologia pentecostal.

O impacto das mídias sociais também não pode ser ignorado. E há também o número crescente de desigrejados, que aumenta na mesma proporção da apropriação das mídias sociais pelos evangélicos. Com a possibilidade de se ouvir sermões, fazer estudos e cursos de teologia online, além de bate-papo e discipulado pela internet, aumenta o número de pessoas que se dizem evangélicas mas que não se congregam em uma igreja local. São cristãos virtuais que “freqüentam” igrejas virtuais e têm comunhão virtual com pessoas que nunca realmente chegam a conhecer. Admito o benefício da tecnologia em favor do Reino. Eu mesmo sou professor a quinze anos de um curso de teologia online e sei a benção que pode ser. Mas, não há substituto para a igreja local, para a comunhão real com os santos, para a celebração da Ceia e do batismo, para a oração conjunta, para a leitura em uníssono das Escrituras e para a recitação em conjunto da oração do Pai Nosso, dos Dez Mandamentos. Isto não dá para fazer pela internet. Uma igreja virtual composta de desigrejados não será forte o suficiente em tempos de perseguição.

Eu poderia ainda mencionar a influência do liberalismo teológico, que tem aberto picadas nas igrejas históricas e pentecostais e a falta de maior rapidez e eficiência das igrejas históricas em retomar o crescimento numérico, aproveitando o momento extremamente oportuno no país. Afinal, o cristianismo tem experimentado um crescimento fenomenal no chamado Sul Global, do qual o Brasil faz parte.

Algumas coisas me ocorrem diante deste quadro, quando tento organizar minha cabeça e entender o que se passa.

1 – Historicamente, as igrejas cristãs em todos os lugares aqui neste mundo atravessaram períodos de grande confusão, aridez e decadência espiritual. Depois, ergueram-se e experimentaram períodos de grande efervescência e eficácia espiritual, chegando a mudar países. Pode ser que estejamos a caminho do fundo do poço, mas não perderemos a esperança. A promessa de Jesus quanto à Sua Igreja (Mateus 16:18) e a história dos avivamentos espirituais nos dão confiança.

2 – Apesar de toda a mistura de erro e verdade que testemunhamos na sincretização cada vez maior das igrejas, é inegável que Deus tem agido salvadoramente e não são poucos os que têm sido chamados das trevas para a luz, regenerados e justificados mediante a fé em Cristo Jesus, apesar das ênfases erradas, das distorções doutrinárias e da negligência das grandes doutrinas da graça. Ainda assim, parece que o Espírito Santo se compraz em usar o mínimo de verdade que encontra, mesmo em igrejas com pouca luz, na salvação dos eleitos. Não digo isto para justificar o erro. É apenas uma constatação da misericórdia de Deus e da nossa corrupção. Se a salvação fosse pela precisão doutrinária em todos os pontos da teologia cristã, nenhum de nós seria salvo.

3 –  Deus sempre surpreende o Seu povo. É totalmente impossível antecipar as guinadas na história da Igreja. Muito menos, fazer com que aconteçam. Há fatores em operação que estão muito acima dos poderes humanos. Resta-nos ser fiéis à Palavra de Deus, pregar o Evangelho completo – expositivamente, de preferência – viver uma vida reta e santa, usar de todos os recursos lícitos para propagar o Reino e plantar igrejas bíblicas e orar para que nosso Deus em 2012 seja misericordioso com os seus eleitos, com a Sua igreja, com aqueles que Ele predestinou antes da fundação do mundo e soberanamente chamou pela Sua graça, pela pregação do Evangelho.

Fonte: [O Tempora! O Mores!]

20 de dez de 2011

O Natal e o Nome do Menino

"Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles" (Mateus 1:21).

De acordo com o relato acima do Evangelho de Mateus, o nome de Jesus Cristo foi dado pelo anjo Gabriel quando anunciou seu nascimento a José, desposado com a virgem Maria.  Gabriel não somente disse que Maria estava grávida pelo Espírito Santo de Deus como orientou José a chamar o filho de "Jesus". 

A razão para este nome, cuja raiz em hebraico significa "salvar," é que aquele menino, filho de Maria e Filho de Deus, haveria de salvar o seu povo dos seus pecados, conforme anunciou o anjo.
Não precisamos ir mais longe do que isso para entender o significado do Natal. Está tudo no nome do Menino. No nome dele, Jesus, temos a razão para seu nascimento, a sua identidade e a missão de sua vida. Em outras palavras, aquilo que o Natal realmente representa.

A razão do seu nascimento é simplesmente esta, que somos pecadores, estamos perdidos, não podemos resolver este problema por nós mesmos e precisamos desesperadamente de um Salvador, alguém que nos livre das consequências passadas, presentes e futuras dos nossos erros. Deus atendeu nossa necessidade escolhendo um homem como nós para ser nosso representante e Salvador, alguém que partilhasse da nossa humanidade e fosse um de nós. Esse homem nasceu há dois mil anos naquela manjedoura da cidade de Belém, num pais remoto, lá no Antigo Oriente. E ganhou o nome de Jesus por este motivo.

Sua missão era assumir nosso lugar como nosso representante diante de Deus e sofrer todas as consequências de nossos pecados, erros, iniqüidade, desvios e desobediências. Em vez de castigar-nos com a morte eterna, como merecemos, Deus faria com que ele a experimentasse em nosso lugar, que ele experimentasse toda dor e sofrimento conseqüentes dos nossos pecados. Essa missão foi revelada logo ao nascer pelo anjo Gabriel ao recitar seu nome a José: Jesus.

Para nos salvar de nossos pecados, ele teria de sofrer e morrer, ser sepultado, ficar sob o domínio da morte e desta forma pagar inteiramente nossa dívida para com Deus. Somente assim poderíamos ser salvos das consequências eternas de nossa desobediência. Mas, para que os benefícios de seu sofrimento e de sua morte pudessem ser transferidos a outros seres humanos, ele não poderia ter pecado ou culpa pois, senão, ao morrer, estaria simplesmente recebendo o salário do seu próprio pecado. Mas, se ele fosse inocente, sem pecado e perfeito, sua morte teria valor para os pecadores. Por este motivo, ele foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, ainda virgem, Filho de Deus, sem pecado. O Salvador tinha que ser Deus e homem ao mesmo tempo.

Quando um colunista, que objeta ao nascimento sobrenatural de Jesus, escreveu recentemente em um jornal de grande circulação de São Paulo que virgens não dão à luz todos os dias, ele estava mais certo do que pensava. Esse é o único caso. Jesus é único. Deus e homem numa só pessoa. Nem antes e nem depois dele virgens engravidam sobrenaturalmente. Da mesma forma que Deus não cria mundos todos os dias, também não gera salvadores de virgens cotidianamente. Pois nos basta este.

O famoso teólogo suíço Emil Brunner disse que todo homem tem um problema no passado, no presente e no futuro. No passado, culpa. No presente, medo. E no futuro, a morte. Jesus nos salva de todas estas consequências do pecado: nos perdoa da culpa de nossos erros passados, nos livra no presente do medo ao andar conosco e nos livrará da morte pois ressurgiu dos mortos e vive à direita de Deus. Um dia haverá de nos ressuscitar.

É isto que o Natal representa. É por isto que os cristãos o celebram com tanta gratidão e alegria. Nasceu o Salvador. Nasceu Jesus!  Como este anúncio alegra o coração daqueles que têm culpa, sentem medo e sabem que vão morrer!

Fonte: [O Tempora! O Mores!]

17 de dez de 2011

John Piper & Sovereign Grace Ministries - A Canção do Evangelho


Fonte: [Youtube]


Uma das mais lindas e singelas mensagens do Evangelho (de salvação) que já vi e ouvi. Na voz de John Piper passando a mensagem e no fundo uma linda canção da Sovereign Grace Ministries. A doce voz é de Shannon Harris, esposa de Joshua Harris, bastante conhecido de todos nós. Songs for the Cross Centered Life é o título do album.


Abaixo do vídeo, está a versão em português, cuidadosamente feita pelo meu querido irmão, Fabiano Medeiros, com rima e métrica para cantar.


CANÇÃO DO EVANGELHO


Santo Deus só por a - mor
fez-se Homem, Salvador.
Meu pecar levou na cruz;
vivo, pois morreu Jesus.

Santo Deus só por a - mor
fez-se Homem, Salvador.
Meu pecar levou na cruz;
vivo, pois morreu Jesus.



The Gospel song, letra de Drew Jones e música de Bob Kauflin.
Letra ©2002, de Sovereign Grace Worship (ASCAP). Tradução ©2008, de Fabiano Silveira Medeiros.
Música ©2002, de Sovereign Grace Praise (BMI). Sovereign Grace Music, divisão de Sovereign Grace Ministries. Dos álbuns Songs for the cross centered life e Awesome God. Todos os direitos reservados. Direitos internacionais assegurados. Administração nos Estados Unidos pela Integrity Music. Administração internacional pela CopyCare International.
Usado com permissão.

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Fonte: Voltemos ao Evangelho: http://voltemosaoevangelho.com/blog/
Por: John Piper e Sovereign Grace. Websitedesiringgod.org e sovereigngracemusic.org
Tradução e Edição: Voltemos ao Evangelho.


Via: [Soberana Graça]

15 de dez de 2011

Preocupação, ansiedade e o Reino de Cristo

por Russell D. Moore
Russell Moore
Russell Moore
Eu fui um adolescente satanista. Não, eu nunca estivo no centro de um pentagrama feito com sangue ou me juntei a alguma seita. Os sinais do meu satanismo são as marcações amarelo-neon na velha Bíblia King James que minha avó me deu quando eu tinha 12 anos. Eu dei uma olhada nessa Bíblia há um tempo, e podia quase instantaneamente identificar, a cada texto marcado, o que estava acontecendo na minha vida na época.
A marcação de “Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4.13) estava lá porque estava preocupado por talvez não passar em geometria. Eu passei, por pouco, e apesar da presença de Cristo em minha vida, até hoje não consigo te dizer a diferença entre um trapezóide e um polígono. Mais ainda, eu nem entendia direito o versículo, que fala de contentamento em todas as circunstâncias (incluindo aulas de matemática em uma escola pública do Mississippi), não de um encorajamento do tipo “você consegue!”.
Quando vejo a marcação sobre o verso “E eu farei o que vocês pedirem em meu nome” (João 14.13), sei que foi quando estava orando para Deus fazer aquela garota na minha classe prestar atenção em mim. Eu fazia esse pedido e então repetia a cláusula “em nome de Jesus… em nome de Jesus… em nome de Jesus…” como se isso fosse fazer Deus atender à promessa. Ele não realizou esse meu pedido e, rapaz, como sou grato por isso.
A marcação de 1 Samuel 16.7, “Não considere sua aparência nem sua altura… O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”, foi porque eu era, na época, e até hoje sou, um pequeno homenzinho, e esperava crescer o suficiente, se não para ser considerado para o time de basquete, pelo menos para ser mais alto que aquela garota da minha classe. Isso também não aconteceu.
Obviamente, não há nada de errado em orar pela Bíblia. E não há nada de errado em pedir a Deus que ele resolva as coisas que te preocupam. É isso que Jesus ordena que façamos. Mas essas marcações me lembram quão dominada minha vida era pela preocupação e ansiedade.
Eu não era, de forma alguma, o que alguém consideraria orgulhoso ou arrogante (pelo menos, é o que eu penso, mas talvez seja meu orgulho e minha arrogância me impedindo de enxergar). Mas na raiz de toda a minha preocupação havia algum tipo de presunção e desejo de poder. Sim, eu estava orando, mas minhas orações eram simplesmente um disfarce para minhas preocupações. E minhas preocupações eram de manter meus pequenos reinos seguros e sob controle. Quando não estavam, eu ficava agitado, pra não dizer enfurecido.
E eu escrevo essas coisas como se estivessem somente no passado.
Se eu pudesse ver as marcações na minha própria mente, meu ego preocupado, descobriria que não cresci realmente desde então (tanto espiritualmente quanto fisicamente) como eu gostaria de pensar.
Às vezes os empurrões de Satanás para o orgulho em nossas vidas não é tanto sobre no que estamos nos acomodando, mas naquilo que estamos nos preocupando. Nossa ansiedade muitas vezes revela uma recusa em confiar na providência paterna de Deus. E, sempre que começamos a ignorar isso, há um demônio pronto a nos adotar, a nos prometer pão ao invés de pedras, peixe ao invés de cobras. Nós não reconhecemos a voz de réptil, mas olhamos para o nosso futuro, ou para nossas Bíblias, e nos perguntamos “Deus disse o que mesmo?”.
Sempre que deixamos de confiar na providência do Pai, há um demônio pronto a nos adotar e oferecer pão ao invés de pedras

Jesus, todavia, era livre da adoração demoníaca da preocupação e da ansiedade. Ele entendia o cuidado de seu Pai por ele, e que a exaltação viria “no tempo devido” (1 Pedro 5.6), um tempo que não cabia a ele escolher.
Jesus nos diz que até mesmo olhando para o mundo natural, o ecossistema dos pássaros e plantas e campos, podemos ver demonstrações da herança de Deus para nós: “Eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles” (Mateus 6.29).
Não precisamos buscar poder, glória ou segurança. Deus está nos preparando para tudo isso gratuitamente. Por conta disso, somos livres para buscar “em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” (Mateus 6.33).
Estou sendo levado a me preocupar atualmente. Você, provavelmente, também está. Pare e ore; descanse no poder e na sabedoria do seu Pai e reconheça que, por trás dessa ansiedade, está alguém de língua fendida rastejando.
Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui
Fonte: [iPródigo]

9 de dez de 2011

Fique perto de Deus – Martyn Lloyd-Jones (1899-1981)



Outra tradução (do Salmo 73.28) podia ser esta: «quanto a mim bom é estar junto a Deus» ... A sua maior ambição vem a ser precisamente esta: ficar perto de Deus. ... Todos nós estamos ou longe ou perto de Deus ... de sorte que é vitalmente importante que cheguemos à resolução tomada por este homem, de ficar perto de Deus.


... o que tomava o lugar de primazia em sua mente era algo parecido com isto. Revisando sua triste experiência chegou à conclusão de que o que realmente havia de errado com ele ... era simplesmente o fato de que ele não se mantinha perto de Deus. Ele tinha pensado que era o fato de que os ímpios pareciam prosperar enquanto que ele só experimentava dificuldades.


Mas agora, havendo recebido no santuário de Deus a iluminação necessária, ele vê com toda a clareza que não era essa, de modo nenhum, a causa radical do seu problema. Só uma coisa importa: é a relação do homem com Deus. Se estou perto de Deus, diz este homem, realmente não importa o que me aconteça; mas se estou longe de Deus, nada pode andar bem, em última análise...


Este é o princípio e o fim da sabedoria na vida cristã. No instante em que nos movemos para longe de Deus, tudo vai mai. O segredo por excelência é ficar perto de Deus. Quando falhamos, somos qual navio que, em alto mar, perde de vista a estrela polar, ou cuja bússola deixa de funcionar bem. Se perdermos nossos pontos de apoio, não devemos ficar surpresos ante as consequências. É isso que este homem descobriu: «É isto de que eu preciso», diz ele; «não das bênçãos, não da prosperidade que outras pessoas têm. ... Portanto, tomo a seguinte resolução: De minha parte, vou viver perto de Deus. Será sempre essa a coisa mais importante de minha vida. Cada dia que vai chegando vai se iniciar com esta convicção. Direi a mim mesmo: Haja o que houver, o que é de essencial valia é estar perto de Deus.»


Faith on Trial, p. 117,18.



Fonte:[Josemar Bessa]

6 de dez de 2011

Você é justo?

por Tullian Tchividjian
Tullian Tchividjian
por Tullian Tchividjian
“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”.2 Coríntios 5.21
Comportamento ético é um termo muito usado na psicologia que define a justiça exclusivamente por termos do que alguém faz ou deixa de fazer. Neste sentido, uma pessoa justa é aquela que faz coisas certas e evita as erradas. Uma pessoa injusta é a que faz coisas erradas e evitas as certas. Definida desta forma, justiça é uma qualidade que pode ser julgada pela observação do comportamento de alguém. Então, virtude e retidão são puramente questões de conduta externa, sem qualquer indício do que se passa dentro de você.
William Hodern ilustra bem como a justiça é definida pelo mundo:
As instituições que fazem cumprir a lei estão preocupadas com um comportamento correto. Eles não se preocupam com o porquê das pessoas obedecerem à lei, desde que a obedeçam. A pessoa que não as quebra é justa aos seus olhos, independente da motivação que produziu o comportamento desejado.
No Sermão do Monte, Jesus quebra radicalmente essa definição de justiça. Ele ignora inteiramente o comportamento externo de uma pessoa e olha para o que está no coração. Jesus insiste que justiça não é simplesmente uma questão de o que fazemos ou deixamos de fazer, mas sim uma questão do por que nós fazemos isso ou por que não fazemos.
Há alguns anos atrás, quando meus filhos eram jovens, eles reuniam todas as crianças da vizinhança em nosso quintal para jogar futebol americano. E de vez em quando, um passe saía errado e ia parar na grama do vizinho. Meu vizinho (um idoso irritado, rabugento e mal-humorado) sempre vinha pra fora gritando com meus filhos e seus amigos dizendo que iria confiscar a bola se isso ocorresse de novo. Meus filhos, muito novos nessa época, sempre entravam em casa com os olhos cheios de lágrimas, os lábios trêmulos, por causa do medo que eles tinham desse vizinho. Bem, briguento que sou, muitas vezes eu desejei ir marchando até meu vizinho e falar umas verdades para ele. Eu queria deixar claro para ele que se ele gritasse com meus meninos de novo… bem, você entendeu. Todavia, eu nunca fiz isso. Eu o encarava de vez em quando, mas nunca fui à porta dele para falar isso. Alguns diriam que a minha opção por deixar meu vizinho quieto era um ato de justiça. Eu estava exercendo amor, paciência e autocontrole. Mas foi isso mesmo?
Somente eu e Deus (e agora você!) sabemos a verdadeira razão real de eu nunca ter ido atrás do meu vizinho: o risco potencial era muito alto para mim. Eu não queria problemas, não queria que ele chamasse a polícia, não queria que ele apresentasse uma queixa contra mim ou minha família na nossa associação de moradores, não queria ele fofocando de nós para as outras pessoas do bairro para que elas pensassem mal de mim. Além disso, todos sabiam que eu sou pastor e eu não queria manchar minha imagem. E assim por diante. Em outras palavras, a mesma coisa que fez a superfície parecer justa foi motivado por algo terrivelmente injusto: o egoísmo.
Então, a aparente “justiça” do meu ato foi destruída pela motivação que a inspirou. Não foi tão “justa” assim, para não dizer o pior.
Hodern continua dizendo isso muito claramente:
Antes de um assassinato ou adultério ter sido cometido, primeiro, existem as motivações da pessoa envolvida. Em seu coração há uma raiva assassina ou luxúria adúltera. O que Jesus diz no Sermão do Monte é que muitas pessoas podem ter essas mesmas motivações em seus corações sem mostrá-las em ações externas. Pode haver várias razões para agir contra nossas motivações, mas obviamente a razão mais comum é o medo das conseqüências. As leis de todas sociedades tornam perigoso cometer um assassinato e as leis e pressões sociais tornam custoso cometer um adultério. Portanto, quando uma pessoa se abstém de certa atitude, pode não ser por causa do seu coração puro, mas simplesmente por uma questão de auto-proteção. Jesus está dizendo que quando a motivação para não agir de acordo com um desejo é o egoísmo, essa pessoa é tão injusta aos olhos de Deus quanto a pessoa que cometeu o crime.
A razão disso ser tão importante é que muitos cristãos pensam que Deus se importa apenas que eles obedeçam. De fato, muitos acreditam que é muito mais honrável e, portanto, muito mais “justo”, quando obedecemos a Deus contra todos nossos desejos. De onde tiramos a idéia de que se fizermos tudo o que Deus nos diz para fazer, ainda que “nossos corações estejam longe dEle”, é algo para se orgulhar, algo admirável, louvável ou justo? Não me entenda errado, nós devemos obedecer mesmo quando não nos sentimos assim (espero que meus filhos, por exemplo, limpem seus quartos e respeitem sua mãe e eu, mesmo quando eles não se sintam assim). Mas não vamos cometer o erro comum de, orgulhosamente, igualar isso à justiça que Deus exige.
A verdade é que Deus não está preocupado com qualquer tipo de obediência. Ele está preocupado com certo tipo de obediência. O que motiva nossa obediência determina se o que praticamos é sacrifício de louvor ou não. Fazer o certo com o coração errado revela uma profunda injustiça, e não justiça. T.S. Eliot diz melhor: “A última tentação é a pior traição: ter a atitude correta pela razão errada”.
Se o que Deus procura é qualquer tipo de obediência, independente do que a motiva, então ele teria exibido os fariseus e exortado a todos nós para seguirmos seus exemplos e imitá-los. Mas ele não fez isso. Jesus os chamou de “sepulcros caiados” – limpos por fora, mas mortos por dentro. Eles obtiveram sucesso ao alcançar um “comportamento justo” e acharam que isso era o que mais importava para Deus. Mas Jesus disse, “Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade” (Mateus 23.28). De novo Jesus nos mostra que a verdadeira justiça é uma questão de coração – o que está dentro importa mais do que está fora. Isso é o que ele quis dizer em Mateus 5.20: “Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”.
No Sermão do Monte, Jesus quer nos deixar livres ao mostrar nossa necessidade de uma justiça que nunca alcançaremos por nós mesmos, uma justiça impossível que está sempre além de nossa capacidade. O propósito do Sermão do Monte é demolir todas as noções de que podemos alcançar a justiça que Deus requer – ele trata de exterminar todas as tentativas de um comportamento moral autossuficiente.
Justiça externalizada é algo que todos podemos encontrar em nós mesmos com uma pequena autodisciplina e um pouco de auto-justiça. Mas Jesus quer que nós vejamos que, independente de quão bom o ato que estamos praticando, ou quão retos achamos que somos, quando vemos que “você, portanto, deve ser perfeito como o Pai celeste é perfeito” torna-se o padrão e não o “quanto eu tenho melhorado ao longo dos anos”, percebemos que estamos muito pior do que imaginávamos, que a injustiça é inevitável e que mesmo as coisas mais nobres que fazemos tem algo que deva ser perdoado.
Jesus me mostra que o que quer que eu pense que seja a minha maior depravação, na verdade, minha situação é bem pior

Em Mateus 5.17-48, Jesus me mostra que o que quer que eu pense que seja a minha maior depravação, na verdade, minha situação é bem pior: se eu acho que é raiva, Jesus me mostra que na verdade é assassinato; se eu acho que é lascívia, Jesus me mostra que na verdade é adultério; se eu acho que é impaciência, Jesus me mostra que na verdade é idolatria. Dolorosamente, isso revela minhajustiça como um castelo de cartas, que é o que ela realmente é. Quebra meu coração e mostra minha profunda necessidade de uma ajuda externa, uma “justiça alheia”.
Somente quando nosso entendimento de justiça “excede a dos escribas e fariseus”, e vai além da conduta exterior, iremos perceber a impossibilidade de alcançarmos justiça por nós mesmos e a necessidade de recebermos a justiça de Cristo. Não há nada que pecadores odeiam mais do que ouvirem que não há nada que eles possam fazer, que tudo foi tirado de suas mãos, que não importa quão difíceis têm sido suas tentativas, o seu melhor nunca é bom o suficiente. Mesmo assim, nunca seremos livres até que desistamos de lutar por uma justiça que  reivindiquemos como nossa.
No sermão intitulado “The Death of Self” [“A morte do Eu”], Gerhard Forde mostra como a obra de Cristo a nosso favor finalmente destrói qualquer presunção de que exista algo aceitável que possamos trazer a Deus:
Na traição do Gêtsemani, quando a multidão vem contra Jesus com espadas e pedaços de pau, os discípulos queriam fazer alguma coisa. Eles ainda queriam fazer sua parte para Deus. Eles queriam tomar as espadas, arriscar suas vidas, talvez, e lutar. Um deles saca a espada e arranca a orelha de um dos agressores. Mas Jesus não queria nada disso: “Guarde sua espada”, ele diz, “não há nada que você pode fazer”. No relato de Lucas, o próprio Jesus estende a mão para desfazer o que o discípulo fizera, e cura o homem ferido. Sem dúvida, nesse ponto tudo dentro de nós grita em protesto juntamente com os discípulos. Não há nada que possamos fazer? Não poderíamos pelo menos organizar uma marcha de protesto em nome de Deus? Não poderíamos tentar uma audiência com Pilatos? Não poderíamos tentar “influenciar as estruturas” que detinham o poder? Qualquer coisa, mesmo que pequena? Mas a resposta inflexível retorna, ”Não, não há nada que vocês possam fazer, absolutamente nada. Se houvesse algo a ser feito, meu Pai mandaria legiões de anjos para lutar!” Mas não há nada a ser feito. E quando ele chegou ao último momento de amargura, quando estes bons homens “justos” finalmente perceberam que não havia nada que pudessem fazer, eles o abandonaram e fugiram.
Você consegue perceber isso? Você consegue ver o que está escondido nestas palavras, nestes eventos, é que a própria morte que você tem tanto medo vem até você? Quando eles finalmente viram que não podiam fazer nada, eles o abandonaram e fugiram diante desta verdade desconcertante. Você, que presume que pode fazer negócios com Deus, você enxerga isso? Você consegue ver que essa morte de si mesmo, em última análise, não é algo que você pode fazer? Para esse ponto é que Deus tem reservado para si, de uma vez por todas, a responsabilidade da sua salvação. Aqui, não há nada que você possa fazer agora a não ser, como dizem as palavras daquele velho hino: “subir a escalada triste do calvário”, ficar com seus braços impotentes ao seu lado e tremer diante do “milagre, o sacrifício do próprio Deus se completou! Está consumado; ouvi-lo chorar, aprender com a morte de Jesus Cristo!”
Na cruz, “Deus invadiu o último reduto de auto-suficiência, a última presunção que você poderia fazer alguma coisa para ele… Ele morreu em seu lugar! Ele fez isso. Ele fez. Está tudo terminado e acabado entre você e Deus. Ele morreu em seu lugar, morreu quando você deveria morrer. Ele fez dessa maneira para salvar você. Ele tomou tudo sobre si. O fato de que não há mais nada que se possa fazer é a morte do ego e o nascimento da nova criatura” (Forde).
Sendo tudo, ele se tornou nada para que você, sendo nada, pudesse ter tudo. Você não trouxe nada para a mesa, a não ser a sua injustiça que faz necessária a justiça de Cristo. A perfeita justiça de Cristo foi livremente creditada na sua conta falida para sempre (o que, teologicamente, chamamos de “imputação”). O evangelho é uma boa notícia para aqueles que finalmente foram esmagados pelo peso de tentarem fazer “justiça” por conta própria.
O fato de que não há mais nada que se possa fazer é a morte do ego e o nascimento da nova criatura

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui

Fonte: [iPródigo]

5 de dez de 2011

Por que devemos ser intencionalmente teológicos

por Kevin DeYoung
Kevin DeYoung
Kevin DeYoung
Se não estou enganado, nossa igreja tem a reputação de ser bastante teológica. Eu sei que esta é a razão pela qual muitas pessoas vieram para a nossa igreja. E imagino também que por esse mesmo motivo algumas pessoas saíram de nossa igreja ou nem mesmo quiserem conhecê-la. Mas nenhuma igreja deve desculpar-se por amar e falar sobre teologia. Mas – e isso é uma advertência importante – se somos arrogantes com nossa teologia, ou se nossa paixão doutrinária se trata simplesmente de astúcia intelectual, ou se somos exagerados em nossos sentimentos por doutrinas menos importantes, então que o Senhor nos repreenda. Não devemos nos surpreender em saber que a teologia é mal vista em circunstâncias como essas.
Porém, quando se trata em refletir, alegrar-se e construir uma igreja sobre sólidas verdades bíblicas, todos nós devemos desejar uma igreja ricamente teológica.
Eu poderia citar muitas razões para pregar teologicamente e muitas razões para um pastor desejar uma congregação que ama teologia. Deixe-me mencionar seis:
1. Deus se revelou para nós em sua Palavra e nos deu seu Espírito para que possamos entender a verdade. Obviamente, você não precisa dominar todos os temas das Escrituras para ser um cristão. Deus é gracioso e salva muitos de nós mesmo com diversas lacunas em nosso entendimento. Mas se nós temos uma Bíblia, para não mencionar o volume enorme de literatura em Inglês (N.T.: em Português também, ainda que em menor número), por que não desejaríamos entender o máximo possível da autorrevelação de Deus? Teologia é receber mais de Deus. Você não quer que sua igreja conheça Deus melhor?
2. O Novo Testamento dá bastante importância para o discernimento entre a verdade e o erro. Existe um depósito de verdades que deve ser protegido. O falso ensino deve ser completamente afastado. O bom ensino deve ser promovido e defendido. Não se trata de uma preocupação de algum candidato a Ph.D. sem sentimentos que está definhando na frente do computador. Trata-se da paixão dos Apóstolos e do próprio Senhor Jesus que elogiou a Igreja de Éfeso por se opor firmemente aos falsos mestres e odiar as obras dos nicolaítas.
3. Os mandamentos do Novo Testamento sobre ética têm como alicerce proposições teológicas. Diversas cartas de Paulo têm uma estrutura em duas partes: Os capítulos iniciais apresentam doutrina e os capítulos finais nos exortam à obediência. Doutrina e vida prática estão sempre juntas na Bíblia. É a partir da visão da misericórdia de Deus, das inúmeras realidades teológicas de Romanos 1-11, que nós somos chamados a oferecer nossas vidas como sacrifício vivo em Romanos 12. Conhecendo doutrina você está aprendendo sobre vida prática. Sem doutrina não há vida prática.
Doutrina e vida prática estão sempre juntas na Bíblia. Conhecendo doutrina você está aprendendo sobre vida prática.

4. O ensino teológico nos habilita a um regozijo mais completo e profundo na glória de Deus. Verdades simples são maravilhosas. É bom cantarmos canções simples como “God is Good. All the time!” (Deus é bom. O tempo todo!). Se você canta músicas assim com fé sincera, o Senhor se agrada bastante. Mas Ele também se agrada quando cantamos e oramos sobre como exatamente Ele tem sido bom para nós no plano de salvação e através da história da salvação. Ele se agrada quando podemos nos gloriar na obra consumada de Cristo, descansar em sua providência que abrange tudo, nos maravilhar em sua infinitude e asseidade, quando podemos nos deleitar em sua santidade e meditar em sua tri-unidade na unidade e reverenciamos com temor sua onisciência e onipotência. Essas verdades teológicas não existem para nos tornar mais inteligentes, mas para nos dar corações mais apaixonados que adoram mais profundamente e intensamente a Deus por causa do que temos visto nEle.
5. A teologia ajuda a nos regozijarmos mais completamente e profundamente nas bênçãos que são nossas em Cristo. Novamente, é um pensamento doce saber que Jesus te salva dos seus pecados. Não há notícia melhor em todo o mundo. Mas quão mais completo e profundo será seu deleite quando você entender que salvação significa eleição para o louvor da graça de Deus, expiação para cobrir seus pecados, propiciação para desviar a ira divina, redenção para comprá-lo para Deus, justificação diante do trono do julgamento de Deus, adoção na família de Deus, um processo de santificação pelo Espírito, e a promessa de glorificação no final dos tempos? Se Deus nos deu bênçãos em Cristo de formas tão variadas e de tantas perspectivas diferentes, entender essas bençãos não te ajudaria e honraria a Ele?
6. Até mesmo (ou seria especialmente?) não-cristãos precisam de boa teologia. Eles podem até não se empolgar em ouvir uma apresentação chata sobre ordo salutis. Mas quem quer assistir uma apresentação chata sobre o que quer que seja? Se você consegue falar de forma cativante, apaixonada e simples sobre as bênçãos do chamado eficaz, regeneração e adoção, e como todas essas benção são encontradas em Cristo, e como a vida cristã não é nem mais nem menos daquilo que somos em Cristo, e como Deus realmente quer que vivamos de acordo com nosso “eu”, mas o nosso “novo eu” a partir da regeneração e não o “eu” nascido em pecado – se você dá aos não-cristãos tudo isso, e explica a eles de maneira clara, então você estará dando a eles muita teologia. E, se o Espírito de Deus estiver operando, talvez eles voltem procurando por mais.
Não há nenhuma razão para uma igreja ser algo diferente do que uma igreja fortemente teológica. Haverá igrejas de diversos formatos e tamanhos. Mas “não-teológica” ou, ainda pior, “antiteológica”, não deve ser um deles.
Haverá igrejas de diversos formatos e tamanhos. Mas “não-teológica” ou, pior, “antiteológica”, não deve ser um deles.

Traduzido por Alex Daher | iPródigo.com | original aqui
Obs.: A imagem do post é baseada na capa da Teologia Sistemática de Douglas F. Kelly
Fonte: [iPródigo]

25 de nov de 2011

Dois Cálices - Venenos diferentes - John Stott

A agonia no Getsêmani


[Jesus] começou a ficar aflito e angustiado. E lhes disse:
"A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal".
MARCOS 14.33-34

A agonia de Jesus no jardim do Getsêmani é um exemplo vívido do paradoxo de sua pessoa. Por um lado, observamos sua sede por companhia e pelo apoio dos amigos em oração, bem como pelo reconhecimento de que a sua vontade poderia ser distinta da de seu Pai ("todavia não se faça a minha vontade, mas a tua" [Lc 22.42, ARA]). Por outro, mesmo em meio à dor, ele dirigiu-se a Deus na intimidade única da expressão "Abba, Pai" (Mc 14.36).

Mas qual era a sua angústia? As palavras gregas merecem ser mais vividamente traduzidas do que o foram na NVI. A ARC diz: "Começou a ter pavor, e a angustiar-se. E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte" (v. 33-34). E apenas Lucas acrescenta, com seu interesse de médico, que "o seu suor era como gotas de sangue que caíam no chão" (Lc 22.44). Jesus se referiu à provação que se aproximava como um "cálice" diante do qual tremia de pavor. Seria esse cálice simplesmente a morte?

Sócrates morreu em uma cela de prisão com uma disposição de ânimo totalmente diferente. Ele bebeu seu cálice de cicuta, escreveu Platão, "sem tremer... alegre e silenciosamente". Teria Sócrates sido mais corajoso que Jesus? Não, todas as evidências são contrárias a essa possibilidade. A coragem física e moral de Jesus não vacilou por um só momento. Nesse caso, os cálices de Sócrates e de Jesus deviam conter diferentes venenos. O cálice que Jesus desejou ardentemente evitar não foi nem a dor física da crucificação nem a angústia mental da deserção por parte de seus amigos, mas o horror espiritual de carregar sobre si os pecados do mundo. No Antigo Testamento, o cálice era um símbolo da ira de Deus. Por exemplo, Isaías descreveu Jerusalém depois de sua destruição como tendo bebido "da mão do Senhor o cálice da ira dele" (Is 51.17).

Da agonia no jardim, Jesus se levantou com a determinação resoluta de ir para a cruz. Embora João não registre o episódio do Getsêmani, ele menciona uma fala de Jesus que os outros evangelistas não narram: "Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18.11).


Fonte: [Josemar Bessa]
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