27 de out de 2010

O Mais Sublime Conhecimento. - C. H.Spurgeon



O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte. - Daniel 11.32


Todo crente sabe que conhecer a Deus é a melhor e mais sublime forma de conhecimento. Este conhecimento espiritual é uma fonte de fortalecimento para o crente. Fortalece a sua fé. As Escrituras constantemente se referem aos crentes como pessoas iluminadas e ensinadas pelo próprio Senhor. As Escrituras afirmam que os crentes possuem a unção do Santo (ver 1 João 2.20) e que o ofício peculiar do Espírito Santo é guiá-los em toda a verdade; tudo para o incremento e a nutrição de sua fé. O conhecimento fortalece o amor, assim como revigora a fé. O conhecimento abre a porta; e, por meio desta porta, vemos nosso Salvador. Ou, empregando outra figura, o conhecimento pinta um retrato do Senhor Jesus. E, quando vemos esse retrato, passamos a amar a Jesus. Pelo menos em algum grau, não podemos amar um Cristo a quem não conhecemos. Se conhecemos pouco das excelências de Jesus, o que Ele fez e o que está fazendo agora por nós, não podemos amá-Lo tanto. No entanto, quanto mais conhecemos a Jesus, tanto mais nós O amamos.

O conhecimento também revigora a esperança. Como podemos esperar algo, se não temos conhecimento da sua existência? A esperança pode ser o telescópio, mas, até que recebamos instruções, nossa ignorância se coloca na frente da lente, e nada podemos ver. O conhecimento remove o objeto interferente e quando olhamos através da brilhante lente, discernimos a glória a ser revelada e a antecipamos com confiança jubilante. O conhecimento nos fornece razões para sermos pacientes. Como teremos paciência, a menos que saibamos algo da compaixão de Cristo e entendamos o bem que é sair da disciplina na qual nosso Pai celeste nos corrige? Não existe uma única virtude do crente que, nos desígnios de Deus, não será fomentada e trazida à perfeição por meio do conhecimento. Quão importante é que cresçamos não somente em graça, mas também "no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!" (2 Pedro 3.18).

21 de out de 2010

A chocante convocação para nos gloriarmos na Cruz – John Piper



Nesse respeito, poucos versículos da Bíblia são mais radicais, de abrangência maior e de exaltação maior a Cristo do que Gálatas 6.14: "Longe esteja de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo". Ou para dizer isso de modo positivo: só se glorie na cruz de Jesus Cristo. Essa é uma idéia única. Um só alvo para a vida. Uma única paixão. Só se glorie na cruz. A palavra "gloriar-se" pode ser traduzida "exultar em" ou "alegrar-se em". Só exulte na cruz de Cristo. Só se regozije na cruz de Cristo. Paulo diz: seja esta sua única paixão, sua única ostentação e alegria e exultação. É chocante Paulo dizer que devemos nos gloriar somente na cruz de Cristo, por duas razões.


Uma é que ele parece estar dizendo: só se glorie na cadeira elétrica. Exulte somente na câmara de gás. Só se regozije na injeção letal. Que seu único motivo de orgulho seja a corda de linchamento. "Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo". Nenhuma forma de execução já inventada foi mais cruel e agonizante do que ser pregado numa cruz e pendurado para morrer como um pedaço de carne. Foi horrí¬vel. Você não teria agüentado olhá-lo - não sem gritar e arrancar o cabelo e rasgar sua roupa. Provavelmente teria vomitado. Deixe que isso, diz Pau¬lo, seja a única paixão de sua vida. É isso que choca em suas palavras.

A outra é que ele diz que isso há de ser o único orgulho de sua vida. A única alegria. A única exultação. "Longe esteja de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo". O que ele quer dizer com isso? Será que está falando sério? Nenhum outro motivo de orgulho? Nenhuma outra exultação? Nenhuma outra alegria senão a cruz de Jesus?

E como ficam as passagens onde o próprio Paulo usa a mesma pala¬vra para falar em gloriar-se ou exultar em outras coisas? Por exemplo, Ro¬manos 5.2: "Gloriamo-nos na esperança da glória de Deus". Romanos 5.3,4: "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança experiência; e a experiência esperança". E 2 Coríntios 12.9: "De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo". Também 1 Tessalonicenses 2.19: "quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?".

"Glorie-se só nisso" significa que "todo gloriar-se seja gloriar-se nisso"

Então se Paulo pode gloriar-se e exultar e alegrar-se em todas essas coisas, o que ele quer dizer - que ele não se gloriaria senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo? Será que há incoerência ou sentido duplo? Exultar-se em uma única coisa, mas dizer que exulta em outra? Não. Há uma razão bem profunda para se dizer que toda exultação, todo regozijo, todo gloriar-se em algo deve ser um alegrar-se na cruz de Jesus Cristo.

Paulo quer dizer algo que mudará todas as partes de sua vida. Ele quer dizer que, para o cristão, todo outro gloriar-se também deve ser um gloriar-se na cruz. Toda exultação em tudo mais deve ser exultação na cruz. Se você exulta na esperança da glória, você deve estar exultando na cruz de Cristo. Se você exultar na tribulação, porque a tribulação opera a esperança, sua exultação deve ser na cruz de Cristo. Se exultar em suas fraquezas, ou no povo de Deus, você deve estar se exultando na cruz de Cristo.


Sofrimento - C. H. Spurgeon


Depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar - 1 Pedro 5.10

Você já contemplou o arco-íris quando ele se mostra no céu: gloriosas são suas cores e raras suas nuanças. E lindo, mas logo desaparece. O arco-íris não é permanente. Como pode acontecer isso? Como pode perdurar um glorioso espetáculo feito de tran¬sitórios raios de sol e passageiras gotas de chuva? As virtudes do caráter cristão não devem ser semelhantes ao arco-íris em sua beleza momentânea, mas, pelo contrário, devem ser firmes, estáveis, duradouros.

Crente, procure fazer com que toda coisa boa que você pos¬sui seja permanente, firme. O seu caráter não deve assemelhar-se a uma escrita feita na areia, e sim a uma inscrição gravada na rocha. Não seja a sua fé "a construção de uma visão sem alicerce", mas que seja construída de um material capaz de suportar o terrível fogo que consumirá madeira, feno e palha (ver 1 Coríntios 3.12) do hipócrita. Seja uma pessoa arraigada e fundamentada no amor (ver Efésios 3.17).

Sejam profundas suas convicções; seu amor, realce, seus desejos, sérios. E toda a sua vida deve estar tão bem firmada, que todas as rajadas de vento do inferno e as tempestades da terra jamais serão capazes de abalá-lo. Observe como obtemos esta bênção de ser firmado na fé (ver Colossenses 2.7). As palavras do apóstolo nos indicam o sofrer como o instrumento utilizado — "Depois de terdes sofrido por um pouco". Não adianta esperar que seremos bem fundamentados, se não nos sobrevier nenhum vento impetuoso. Todos aqueles velhos nós na raiz do carvalho e aqueles estranhos entrelaçamentos nos galhos falam de muitas tempestades que passaram sobre ele, e também são indicadores da profundidade na qual as raízes foram forçadas a abrir caminho. Assim o crente é enraizado forte e firmemente por meio das provações e tempestades da vida.

Não desanime por causa dos rigorosos ventos de provação; pelo contrário, receba consolação, crendo que, por meio da disciplina severa, Deus está cumprindo em você a bênção descrita neste versículo.

Calvino e o zelo de expor a glória de Deus - por John Piper



Em 1538, o cardeal italiano Sadoleto escreveu aos líderes de Genebra tentando reconquistá-los novamente para a Igreja Católica Romana, depois de terem se voltado aos ensinamentos reformados. Ele começou sua carta com um longo parágrafo conciliatório sobre a preciosidade da vida eterna, antes de começar com suas acusações contra a Reforma. Calvino escreveu a resposta a Sadoleto em seis dias no outono de 1539. Foi uma das suas primeiras obras, que espalhou seu nome como reformador por toda a Europa. Lutero a leu e disse: "Eis aqui uma obra que possui mãos e pés. Alegro-me em saber que Deus levanta homens como este".

A resposta de Calvino a Sadoleto é importante, pois revela a raiz da disputa de Calvino com Roma, que definiria toda a sua vida. O assunto não inclui, principalmente, os pontos característicos e bem conhecidos da Reforma: justificação, abuso sacerdotal, transubstanciação, oração aos santos e autoridade papal. Todos esses itens serão discutidos. Mas, sob todos estes, o assunto fundamental para João Calvino, desde o começo até o fim da sua vida, era a centralidade, a supremacia e a majestade da glória de Deus. Ele vê na carta de Sadoleto a mesma coisa que Newbigin vê no evangelicalismo moderno cheio de si.

Aqui está o que Calvino disse ao cardeal: "[Teu] zelo por uma vida santa [é] um zelo que mantém um homem inteiramente devoto a si mesmo e não o desperta, em nenhum momento, a santificar o nome de Deus". Em outras palavras, mesmo a verdade preciosa a respeito da vida eterna pode ser bastante distorcida e deslocar Deus do centro e do alvo. Esta era a principal contenda de Calvino com Roma. Isso sempre aparece em seus escritos. Ele continua e diz a Sadoleto o que ele deveria fazer — e o que Calvino almeja fazer toda sua vida — "colocar à frente [do homem], como motivo primordial de sua existência, zelo para demonstrar a glória de Deus".

Esse seria o tema apropriado de toda vida e trabalho de João Calvino - -zelo para ilustrar a glória de Deus. O significado essencial da vida e da pregação de João Calvino é que ele recuperou e incorporou uma paixão pela realidade e pela majestade absoluta de Deus. Meu desejo é que vejamos isso mais claramente. Benjamin Warfield disse o seguinte acerca de Calvino: "Nenhum homem jamais teve um senso tão profundo de Deus como ele". Eis aqui a chave para a vida e teologia de Calvino.

Geerhardus Vos, estudioso do Novo Testamento, em Princeton, no ano de 1891, perguntou: Por que, ao contrário de muitos outros ramos da cristandade, a teologia reformada foi capaz de compreender a plenitude da Escritura? Ele responde: "Porque a teologia da Reforma apropriou-se das Escrituras em sua raiz, em sua idéia mais profunda (...) Essa idéia arraigada que serviu como chave para desvendar os ricos tesouros das Escrituras foi a preeminência da glória de Deus na consideração de tudo o que havia sido criado". É essa orientação inflexível para a glória de Deus que dá coerência à vida de João Calvino e à tradição reformada que o seguiu. G. Vos disse que "o lema mais amplo da fé reformada, que a tudo abrange, é esse: a obra da graça no pecador é um espelho para a glória de Deus". Espelhar a glória de Deus é o sentido da vida e do ministério de João Calvino.

Quando Calvino chegou ao assunto da justificação em sua resposta a Sadoleto, ele disse: "Você (...) menciona a justificação pela fé, o tema primeiro e mais agudo da nossa controvérsia (...) Onde o conhecimento desse tema é removido, a glória de Cristo é extinta".8 Portanto, aqui podemos ver novamente o que é fundamental. Justificação pela fé é crucial. Mas há uma razão profunda que a torna tão crucial. A glória de Cristo está em jogo. Sempre que a compreensão da justificação é removida, a glória de Cristo é extinta. Esta sempre é a questão mais pro¬funda para Calvino. Que verdade e que comportamento irão "demonstrar a glória de Deus"?

Para Calvino, a necessidade da Reforma era fundamentalmente essa: Roma tinha "destruído a glória de Cristo de muitas maneiras — apelando aos santos para interceder, quando Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e o homem; adorando a Virgem Santa, quando somente Cristo deve ser adorado; oferecendo um contínuo sacrifício na Missa, quando o sacrifício de Cristo na cruz foi completo e suficiente", elevando a tradição ao nível das Escrituras e até mesmo tornando a palavra de Cristo dependente da palavra do homem para sua autoridade.  Calvino pergunta, no seu Comentário aos colossenses: "Por que acontece que sejamos 'levados pelos diversos ensinamentos estranhos' (Hb 13.9)?" E ele responde: "Porque a excelência de Cristo não é compreendida por nós". Em outras palavras, o grande guardião da ortodoxia bíblica por todos os séculos é a paixão pela glória e pela excelência de Deus em Cristo. Quando Deus não está no centro, tudo começa a mudar de lugar. Esse fato — não estar no centro - não prediz boas coisas para a fidelidade doutrinária em nossos próprios dias.

Portanto, a raiz unificante de todos os trabalhos de Calvino é sua paixão para expor a glória de Deus em Cristo. Aos 30 anos, descreveu uma cena imaginária na qual, ao final da sua vida, ao acertar as contas com Deus, dizia: "O Deus, o alvo a que dei primazia, e para o que diligentemente trabalhei, foi que a glória da tua bondade e da tua justiça (...) pudessem resplandecer claramente, para que a virtude e as bênçãos do teu Cristo (...) sejam plenamente expostas".

Vinte e quatro anos mais tarde, tendo permanecido inalterado em suas paixões e alvos, e um mês antes de dar, verdadeiramente, um relato a Cristo no céu (ele morreu com 54 anos), Calvino mencionou no seu último testamento: "Nada tenho escrito por ódio a ninguém, mas sempre tenho proposto com fidelidade o que considero contribuir para a glória de Deus".

Fonte: [Josemar Bessa]

Conheceremos como Somos Conhecidos – George Whitefield



As glórias dos lugares celestiais entram na minha alma tão rapidamente, e em tão grande medida, que fico engolfado na contemplação delas. Irmãos, a referida redenção é inefável; o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração dos homens mais santos que existem, conceber quão grande ela é. Se eu fosse entreter-lhes durante eras inteiras com um relato dela, vocês, ao chegarem ao céu, teriam que dizer conforme a rainha de Sabá disse: "Nem metade, nem a milésima parte nos foi contada". Tudo quanto podemos fazer nesse caso é subir ao monte Pisga, e, com o olho da fé, contemplar uma vista distante da terra prometida. Podemos vê-la de longe, como Abraão viu a Cristo, e nos regozijar nela; mas aqui somente a conhecemos em parte.

Louvado seja Deus, porque virá um tempo em que o conheceremos conforme somos conhecidos, e Ele será tudo em todos. Senhor Jesus, completa o número dos Teus eleitos! Senhor Jesus, apressa a vinda do Teu reino!

E agora, onde estão os zombadores destes últimos dias, os quais consideram loucura a vida dos cristãos, e sem honra o fim deles? Infelizes! Vocês não sabem o que fazem! Se tivessem os olhos abertos e sentidos para discernir as coisas espirituais, vocês não profeririam todo tipo de maldades contra os filhos de Deus, mas os estimariam como as pessoas excelentes da terra, e invejariam a felicidade deles. Suas almas teriam fome e sede dessa felicidade; vocês também se tornariam fanáticos por amor a Cristo. Vocês se jactam da sua sabedoria; assim faziam os filósofos em Corinto. Todavia a sua sabedoria é estultícia aos olhos de Deus. Para o que lhes servirá a sua sabedoria, se não os tornar sábios para a salvação? Podem, com toda a sua sabedoria, propor um esquema mais consistente sobre o qual edificar suas esperanças da salvação, do que aquele que agora lhes foi proposto? Podem, com toda a força da razão natural, achar um meio melhor de aceitação com Deus, do que mediante a justiça do Senhor Jesus Cristo? É certo pensarem que suas próprias obras poderão dalguma maneira merecê-la ou obtê-la? Caso contrário, por que não querem crer nEle? Por que não se submetem à Sua justiça? Vocês podem negar que são todos criaturas caídas? Vocês não percebem que estão cheios de distúrbios, e que esses distúrbios os tornam infelizes? Não percebem que não podem transformar seus próprios corações? Já não fizeram resoluções muitas e muitas vezes, e suas corrupções não continuaram a ter domínio sobre vocês? Acaso não são escravos das suas concupiscências, e o diabo não os leva presos segundo a vontade dele? Por que razão não querem vir a Cristo para receberem a santificação? Vocês não desejam ter uma morte como a dos justos, a fim de que tenham um estado futuro igual ao deles? Estou convicto de que não podem agüentar a idéia de serem aniquilados, e muito menos de ficarem eternamente desgraçados. Apesar daquilo que fingem, vocês deverão confessar, se falarem a verdade, que suas consciências os acusam nos momentos mais graves, ainda que não queiram, e até mesmo constrangem vocês a reconhecer que o inferno não é nenhuma ficção. E por que, então, não querem vir para Cristo? Somente Ele pode obter para vocês a redenção eterna. Corram para Ele, pobres pecadores iludidos! Falta-lhes sabedoria; peçam-na a Cristo. Quem sabe, Ele a dará a vocês? Ele pode concedê-la, pois Ele é a sabedoria do Pai — é aquela sabedoria que foi desde a eternidade. Vocês não possuem justiça; recorram a Cristo, portanto. Ele é o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê. São ímpios; fujam para o Senhor Jesus. Ele está cheio de graça e de verdade, e da Sua plenitude poderão receber todos quantos nEle crêem. Parece que vocês têm medo de morrer; que esse fato os impulsione a Cristo, Ele tem as chaves da morte e do inferno; nEle há redenção abundante. Por isso, que o raciocinador enganado não se jacte do seu pretenso raciocínio. Seja o que for que pensem, é a coisa mais desarrazoàda no mundo deixar de crer em Jesus Cristo, a quem Deus enviou. Por que amigos, por que vocês hão de morrer? Por que não querem vir para Ele, a fim de terem vida? Ah, todos vocês que têm sede, venham às águas da vida e bebam gratuitamente; venham, comprem sem dinheiro e sem preço. Se aqueles privilégios abençoados que nosso texto menciona pudessem ser comprados com dinheiro, vocês poderiam dizer: somos pobres, e não podemos comprar; ou se fossem outorgados somente a pecadores de tal categoria ou posição social, vocês poderiam dizer: como poderão pecadores, tais como nós, esperar que sejam tão altamente favorecidos? Entretanto, Deus dá esses privilégios gratuitamente aos piores pecadores. Foram dados a nós, diz o apóstolo — a mim, um perseguidor, a vocês, coríntios, que eram impuros, beberrões, cobiçosos, idolatras. Por isso, cada miserável pecador pode perguntar: por que não a mim, então? Cristo teria uma só bênção para dar? E que dizer se Ele já abençoou a milhares de pessoas, ao desviá-las das suas iniqüidades? Todavia, Ele continua o mesmo. Ele vive para sempre a fim de interceder, e, portanto, abençoará a vocês, mesmo a vocês também. Embora, de modo semelhante a Esaú, vocês tenham sido profanos, e até agora tenham desprezado a primogenitura proveniente do seu Pai celestial, mesmo hoje, se crerem, Cristo Se tornará da parte de Deus para vocês "sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção".

Mas preciso falar novamente aos crentes, cuja instrução, conforme salientei antes, este sermão visa especialmente. Vejam, irmãos, participantes da vocação celestial, que grandes bênçãos estão entesouradas para vocês em Cristo Jesus, seu cabeça, e os direitos que possuem ao crerem no Seu nome. Tomem cuidado, portanto, para andarem na dignidade da vocação com que foram chamados. Pensem freqüentemente nos grandes favores que receberam, e lembrem-se: vocês não escolheram a Cristo, mas Cristo escolheu a vocês. Revistam-se (como eleitos de Deus) de humildade de coração, e gloriem-se somente no Senhor, pois vocês nada possuem a não ser aquilo que receberam da parte de Deus. Por natureza, vocês eram tão estultos, tão legalistas, tão ímpios, e estavam numa condição tão condenável como os demais. Sejam misericordiosos, portanto, sejam corteses, e, visto que a santificação é uma obra progressiva, acautelem-se de pensar que já alcançaram tudo. Aquele que é santo, continue sendo santo; sabendo que aquele que é mais puro de coração, desfrutará futuramente da visão mais nítida de Deus. Que o pecado que habita em vocês seja sua preocupação diária; não somente lastimem e lamentem, mas cuidem de subjugá-lo diariamente pelo poder da graça divina. Olhem sempre para Jesus como sendo o consumador, e não somente o autor, da sua fé. Não se firmem na sua própria fidelidade, e sim na imutabilidade de Deus. Cuidem em não pensar que vocês estão firmes pelo poder do seu próprio livre-arbítrio. O amor eterno de Deus Pai deve ser a única esperança e consolo que vocês têm. Que esse amor os sustente em todas as provações. Lembrem-se de que os dons e a vocação de Deus são sem arrepen¬dimento; que Cristo, tendo amado vocês, os amará até o fim. E que isto constranja vocês a obediência, e os faça anelar por aquele tempo abençoado quando Ele será não somente sua sabedoria, justiça e santificação, mas também sua redenção completa e eterna. "Glória a Deus nas alturas!"

Fonte: [Ortopraxia]

John Bunyan e os Efeitos do Sofrimento (1628 – 1688)



- Escrevendo para a Igreja Afligida - 

A questão, então, que eu levanto, à luz dos sofrimentos de Bunyan, é esta: qual foi o fruto do sofrimento? O que produziu em sua própria vida e, através dela, na vida de outros?
O Sofrimento de Bunyan Confirmou-o em Seu Chamado como Escritor, Especialmente para a Igreja Afligida

Provavelmente, a maior distorção da vida de Bunyan no quadro que tenho pintado até agora, é que ele omite um dos maiores labores de sua vida, que foram os seus escritos. Livros haviam despertado sua própria busca espiritual e o haviam guiado. Livros seriam o seu maior legado à Igreja e ao mundo.

É claro que ele é famoso pelo Peregrino — "além da Bíblia, [é] provavelmente o livro mais vendido do mundo ... traduzido em mais de 200 idiomas". O livro foi um sucesso imediato, com três edições em 1678, o primeiro ano em que foi publicado. A princípio, foi desprezado pela elite intelectual, mas, como Lorde Macaulay destaca, "O Peregrino é, talvez, o único livro sobre o qual, após haverem passado cem anos, a minoria educada tem concordado com a opinião do povo comum".

A maioria das pessoas, entretanto, não sabe que Bunyan foi um escritor prolífico, antes e depois do Peregrino. O índice das obras de Bunyan feita por Christopher Hill lista cinqüenta e oito títulos. A variedade destes livros é notável: livros tratando de controvérsias (como aqueles abordando os Quakers e tratando de justificação e batismo), coleções de poemas, literatura infantil, e alegorias (como The Holy War [A Guerra Santa], e The Life and Death of Mr. Badman [A Vida e a Morte do Sr. Homem-mau]). A vasta maioria, entretanto, era de exposições doutrinárias práticas das Escrituras, feitas de sermões, com o objetivo de fortalecer, avisar e ajudar os peregrinos cristãos a percorrer de forma -bem sucedida seu caminho ao céu.

Ele era um escritor, do começo ao fim. Ele já tinha escrito quatro livros antes de ser encarcerado, na idade de trinta e dois anos, e num único ano — 1688, o ano em que morreu — cinco livros foram publicados. Isto é algo extraordinário para um homem que não tinha educação formal. Ele não sabia grego nem hebraico e não tinha nenhum diploma de teologia.. Isto era algo tão humilhante em seus dias, que seu pastor, John Burton, saiu em sua defesa, escrevendo o prefácio de seu primeiro livro em 1656 (quando Bunyan tinha vinte e oito anos): "Este homem não foi escolhido de uma universidade secular, mas de uma universidade celestial, a Igreja de Cristo... Pela graça de Deus, ele adquiriu estes três diplomas celestiais, ou seja, união com Cristo, a unção do Espírito e experiências das tentações de Satanás, o que capacita um homem para aquela obra poderosa da pregação do Evangelho, mais do que toda erudição universitária e diplomas que se possa obter"

Os sofrimentos de Bunvan deixaram sua marca em todos os seus escritos. George Whitefield disse, a respeito do Peregrino, "Tem cheiro de prisão. Foi escrito quando o autor estava confinado na cadeia de Bedford. E os ministros nunca pregam ou escrevem tão bem como quando estão debaixo da cruz: o Espírito de Cristo e da glória repousa sobre eles".

O cheiro da aflição estava na maioria das coisas que Bunyan escreveu. De fato, eu suspeito que uma das razões pelas quais os Puritanos ainda são lidos hoje, com tanto proveito, é que toda a experiência deles, ao contrário da nossa, foi de perseguição e sofrimento. Para nossa cultura alegre, isto pode, por vezes, parecer sombrio, mas no dia em que você ouvir que está com câncer, ou que seu filho está cego, ou que um tumulto popular se aproxima, você vai deixar os livros leves e se voltará para os mais pesados, que, foram escritos no precipício da eternidade, onde a fragrância do céu e o fedor do inferno estão, ambos, no ar.

Os escritos de Bunyan eram uma extensão de seu ministério pastoral, principalmente para seu rebanho em Bedford, que vivia em constante perigo de assédio e prisão. Seus sofrimentos o capacitaram adequadamente para a tarefa. Isto nos leva ao segundo efeito dos sofrimentos de Bunyan que eu gostaria de mencionar.

Os Sofrimentos de Bunyan Aprofundaram Seu Amor por Seu Rebanho e Deram ao Seu Labor Pastoral a Fragrância da Eternidade

Seus escritos estão cheios de respeito ao seu povo. Por exemplo, após três anos na prisão, ele escreveu um livro para seu próprio rebanho, chamado Comportamento Cristão, que terminava desta forma:

Assim, tenho eu, em poucas palavras, escrito para vocês, antes de morrer, uma palavra para provocá-los à fé e à santidade, pois desejo que vocês, após a minha morte, tenham a vida que está reservada para todos aqueles que crêem no Senhor Jesus, e amam uns aos outros. Apesar de que, então, descansarei de meus labores, e estarei no paraíso, como seguramente creio; não é lá, mas aqui, que devo fazer o bem a vocês. Portanto, eu, sem saber a brevidade da minha vida, nem os obstáculos que daqui por diante possa ter em servir ao meu Deus e vocês, tomei esta oportunidade para apresentar-lhes estas poucas linhas, para sua edificação.

Em sua autobiografia, escrita mais ou menos até a metade, durante seu tempo de confinamento, ele falou de sua igreja e » dos possíveis efeitos que seu martírio teria sobre eles: "Freqüentemente disse, diante do Senhor, que, se o ser enforcado sem demora diante de seus olhos, for o meio de despertar neles a verdade, e confirmá-los nela, consentiria nisto com satisfação". Na verdade, muitos de seu rebanho se juntaram a ele na prisão e Bunyan ministrou-lhes ali. Ele ecoou as palavras de Paulo, quando descreveu seus profundos sentimentos por eles: "Na minha pregação tenho sentido, realmente, muita dor; tenho tido dores, como de parto, para dar filhos para Deus".

Ele se gloriava no privilégio de ser ministro do Evangelho. Isto, também, fluía de seu sofrimento. Se tudo vai bem e se tudo o que importa é este mundo, o pastor pode sentir inveja das pessoas prósperas que empregam seu tempo no ócio. Mas, se o sofrimento abunda, e se a prosperidade é uma capa para encobrir a verdadeira condição espiritual de pessoas perdidas que são folgazonas e amantes da diversão, então, ser um pastor pode ser, talvez, o mais importante e glorioso de todos os trabalhos. Bunyan achava que era: "Meu coração tem sido tão envolto na glória desta obra excelente, que me considerei mais abençoado e honrado por Deus por isto, do que se ele me tivesse feito o imperador do mundo cristão, ou o senhor de toda a glória da terra sem isto".

Ele amava seu povo, ele amava seu trabalho, e ele permaneceu com ele e com eles até o fim de sua vida. Ele serviu a eles e serviu ao mundo, da paróquia de uma vila com talvez 120 membros.

Os Sofrimentos de Bunyan Abriram seu Entendimento para a Verdade de que a Vida Cristã é Difícil, e que Seguir a Jesus Significa Ir Contra o Vento

Em 1682, seis anos antes de sua morte, ele escreveu um livro intitulado The Greatness of the Soul (A Grandeza da Alma), baseado em Marcos 8.36-37, "Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou o que o homem poderia dar em troca de sua alma?" Ele diz que seu alvo é "despertar vocês, levantar vocês de suas camas de tranqüilidade, segurança e prazer, e fazer com que se ajoelhem diante dele, para suplicar-lhe a graça para ficarem preocupados quanto à salvação de suas almas". Com isto, ele não se refere à conversão, mas ao processo de perseverança. "Mas aquele que perseverar até o fim será salvo" (Mc 13.13). Ele ouve Jesus avisando-nos de que a vida com ele é difícil:

Seguir-me não é como seguir ... alguns outros mestres. O vento é sempre contrário, e a ira espumante do mar deste mundo e suas ondas, altas e orgulhosas, golpeiam continuamente os lados do barco ou do navio em que eu mesmo, minha causa e meus seguidores nos encontramos; portanto, que não ponha o pé nesta nau aquele que não deseja correr riscos, e que tem receio de se arriscar a morrer afogado.

Dois anos mais tarde, comentando João 15.2 ("Todo ramo ... que dá fruto ele poda"), ele diz, "E a vontade de Deus que aqueles que vão para o céu, cheguem lá, de forma custosa ou com dificuldades. É com dificuldade que o justo se salva. Isto é, eles serão salvos, mas com grande dificuldade, para que possa ser o mais doce possível".

Os sofrimentos de Bunyan fizeram com que ele sentisse intensamente estas coisas - e que fosse paciente. Você pode ouvir a empatia dele para com pessoas que estão em conflito, nestas palavras tipicamente terrenas, num livro de 1678, chamado Come and Welcome to Jesus (Venha e Receba a Jesus Cristo):

Aquele que vem a Cristo, não pode, é verdade, sempre ir em frente tão rápido quanto gostaria. Pobre alma que está vindo a Cristo, tu és como o homem que gostaria de andar a cavalo a todo galope, mas cujo cavalo mal pode trotar. O desejo de sua mente não pode ser julgado pelo passo lerdo do matungo vagaroso que ele está montando, mas pelos puxões, chutes e esporeadas que ele dá, montado no cavalo. Tua carne é como este matungo lerdo, que não galopará seguindo a Cristo, mas que será moroso, ainda que o céu e tua alma estejam em jogo.

Parece-me que Bunyan sabia o equilíbrio de Filipenses 2.12-13, "Assim, meus amados, ... desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele". Primeiro, ele publica um livro chamado Saved by Grace (Salvo pela Graça) baseado em Efésios 2.5, "pela graça vocês são salvos". E no mesmo ano, ele dá continuidade com um livro intitulado The Strait Gate (A Porta Estreita), baseado em Lucas 13.24, "Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão".

Os sofrimentos de Bunyan lhe haviam ensinado, em primeira mão, as palavras de Jesus: "Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! Poucos são os que a encontram" (Mt 7.14).

Os Sofrimentos de Bunyan Fortaleceram Sua Certeza de que Deus é Soberano sobre Todas as Aflições de Seu Povo, e que ele os Levará em Segurança ao Lar

Sempre houve, como há hoje, pessoas que tentam resolver o problema do sofrimento, negando a soberania de Deus — isto é, o governo providencial de Deus sobre Satanás, a natureza e o coração do homem. Mas é notável como muitos dos que defendem a doutrina da soberania de Deus sobre o sofrimento, têm sido os que mais sofreram e que mais encontraram nesta doutrina o maior conforto e ajuda.

Bunyan estava entre estes. Em 1684 ele escreveu uma exposição bíblica para seu povo sofredor, baseada em IPedro 4.19, "Por isso, também aqueles que sofrem de acordo com a vontade de Deus devem entregar suas vidas ao seu fiel Criador e praticar o bem". O livro foi intitulado Seasonable Counsel, or Advice to Sufferers (Conselho Oportuno, ou Recomendação aos Sofredores). Ele toma a frase "de acordo com a vontade de Deus" e expõe a soberania de Deus ali implícita para o conforto de seu povo.

O que será feito não é o que os inimigos desejam nem o que decidiram, mas o que Deus deseja e o que ele determina.... E, como nenhum inimigo pode trazer sofrimento sobre uma pessoa, contrariamente à vontade de Deus, assim também ninguém pode se salvar das mãos dos inimigos, quando Deus [determinou] entregá-lo para sua glória         [como Jesus mostrou a Pedro "o tipo de morte com a qual Pedro iria glorificar a Deus", João 21.19]. Sofreremos ou deixaremos de sofrer conforme lhe agrada.

Assim, Deus tem designado as pessoas que sofrerão, o tempo, o lugar e o modo de seu sofrimento.

John Piper



Fonte: [Josemar Bessa]

18 de out de 2010

Como O Pai traz os homens a Cristo – C. H. Spurgeon



"Ninguém pode vir mim, se o Pai que me enviou não o trouxer."

Como, pois, traz o Pai os homens ? Os teólogos arminianos geralmente dizem que Deus traz os homens por meio da pregação do evangelho. Mui certo; a pregação do evangelho é o instrumento para trazer os homens, porém deve haver algo mais do que isto. Deixe-me perguntar: a quem Cristo dirigiu essas palavras ? Ao povo de Cafarnaum, onde Ele havia pregado com freqüência, onde havia anunciado com tristeza e dor as maldições da Lei e os convites do evangelho. Naquela cidade havia feito muitos grandes sinais e obrado muitos milagres. De fato, por causa de tais ensinamentos e semelhantes milagres atestados a eles, que Ele declarou que Tiro e Sidon teriam se arrependido a muito tempo atrás em panos de saco e cinzas, se eles tivessem sido abençoados com tais privilégios. Assim pois, se a pregação do próprio Cristo não bastou para trazer aqueles homens a Ele, é impossível crer que o Pai intentará trazer-lhes simples e totalmente por meio da pregação. Não, irmãos; deveis notar que Ele não disse que ninguém pode vir se o ministro não lhe trouxer, porém se o Pai não lhe trouxer. Desde logo, existe tal coisa como ser trazido pelo Evangelho e ser trazido pelo ministro, sem haver sido trazido por Deus. Porém, certamente é uma atração divina a que se quer indicar com isto; ser trazido pelo Altíssimo Deus – a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade enviando a Terceira, o Espírito Santo, para induzir os homens a vir a Cristo. Há outros que mudam de postura e dizem com desprezo: "Então, crês ti que Cristo arrasta aos homens para Ele apesar de que não queiram ?" Recordo haver-me encontrado uma vez com um que me disse: "Senhor, você prega que Cristo pega as pessoas pelos cabelos da cabeça e as traz para Ele". Eu perguntei-lhe se ele poderia referir a data do sermão onde preguei tão extraordinária doutrina, porque se ele pudesse, eu ficaria muito agradecido. Contudo, ele não pode. Porém eu lhe disse: Cristo não traz as pessoas para Si pelos cabelos de suas cabeças, eu creio que Ele as traz totalmente pelo coração tão poderosamente como sua caricatura sugeriu. Notai que no trazer do Pai não há compulsão alguma; Cristo nunca compeliu qualquer homem a vir para Ele contra sua vontade. Se um homem estiver indisposto para ser salvo, Cristo não o salva contra sua vontade.

Como, então, o Espírito Santo lhe traz ? Fazendo-lhe disposto. É verdade que Ele não usa a "persuasão moral"; Ele conhece um método íntimo de alcançar o coração. Ele vai na secreta origem do coração, e Ele sabe como, por algumas misteriosas operações, volver a vontade em uma direção contrária, de maneira que, como Ralph Erskine paradoxalmente colocou isto, o homem seja salvo "com pleno consentimento contra sua vontade"; isto é, seja salvo contra sua velha vontade. Mas ele é salvo com pleno consentimento, porque ele tem sido feito desejoso no dia do poder de Deus. Não imaginem que qualquer homem vá ao céu chutando e esforçando-se durante todo o caminho contra a mão que o leva. Não concebam a idéia de que qualquer homem será mergulhado em banho no sangue do Salvador, enquanto ele esteja aspirando apartar-se do Salvador. Oh, não. É completamente certo que, no princípio, todo homem se recusa a ser salvo. Quando o Espírito Santo coloca sua influência no coração, se cumpre a Escritura: "Leva-me tu; correremos após ti" (Cantares de Salomão 1:4). Seguimo-LO enquanto Ele nos leva, contentes de obedecer a voz que uma vez desprezamos. Porém, a essência da questão repousa na mudança da vontade. Como ocorre isto, nenhuma carne o sabe; é um daqueles mistérios que são claramente percebidos como um fato, mas cuja causa nenhuma língua pode contar, e nenhum coração adivinhar.

De qualquer forma, a forma aparente na qual o Espírito Santo opera, podemos lhes contar. A primeira coisa que o Espírito Santo faz quando entra no coração do homem é esta: Ele o encontra com uma muito boa opinião de si mesmo: e não há nada que impeça tanto ao homem vir a Cristo como o ter uma boa opinião de si mesmo. Porque, diz o homem: "Eu não quero ir a Cristo. Tenho uma justiça tão boa como qualquer um poderia desejar. Sinto que posso entrar no céu por meus próprios méritos". O Espírito Santo desnuda o seu coração, permite-lhe ver o repugnante câncer que está corroendo sua vida, lhe descobre toda a negridão e corrupção daquela fonte do inferno – o coração humano -, e então o homem permanece perplexo. "Jamais pensei que eu fosse assim. Oh ! aqueles pecados que considerava como pequenos, tem crescido em imensa estatura. O que eu tinha por um montículo de terra, tem se tornado uma montanha; o que era antes o hissopo na parede, tem agora se tornado o cedro do Líbano". "Oh", diz o homem dentro de si, "tentarei me reformar; farei tantas boas obras que lavarei aquelas negras ações. Então vem o Espírito Santo e mostra-lhe que ele não pode fazer isto; tira todo seu fantasioso poder e força de tal forma que o homem cai sobre seus joelhos em agonia, e clama: "Oh ! uma vez pensei que poderia salvar a mim mesmo por minhas boas obras, porém agora percebo que:

"Poderia minha lágrimas eternamente derramar,
Poderia meu zelo não conhecer descanso,
Tudo isto meu pecado não poderia expiar,
Tu, deves me salvar, e somente Tu."


Então o coração se desfaz e o homem se encontra pronto ao desespero. E diz: "Eu nunca poderei ser salvo. Nada pode me salvar." Então, vem o Espírito Santo e mostra ao pecador a cruz de Cristo, e ungindo seus olhos com colírio celestial Lhe diz: "Olhai para aquela cruz; aquele Homem morreu para salvar pecadores; você sente que és um pecador; Ele morreu para te salvar." E Ele capacita o coração a crer, e para vir a Cristo.


E quando ele vem para Cristo, por esta doce atração do Espírito, encontra "uma paz com Deus, que excede todo o entendimento, o qual guardará seu coração e pensamentos em Cristo nosso Senhor." Agora, podeis claramente perceber que tudo isto pode ocorrer sem qualquer compulsão. O homem é trazido tão voluntariamente que parece que não foi trazido; e ele vem para Cristo com pleno consentimento, com tão pleno consentimento como se nenhuma influência secreta jamais houvesse sido exercida em seu coração. Porém, esta influência deve ser exercida, ou se não, nunca teria existido nem jamais existiria qualquer homem que pudesse ou tampouco quisesse vir ao Senhor Jesus Cristo.


Fonte:[Charles Haddon Spurgeon]

2 de out de 2010

O escândalo da Cruz – Martyn Lloyd-Jones


Houve tempo em que era verdade dizer que as multidões. . . reconheciam a veracidade do Evangelho. . . mas deixavam de pô-lo em prática. Pode ser que foram além e se opuseram às suas exigências morais e éticas mais estritas. Mas assim mesmo lhe estavam pagando tributo e erguendo barricadas de defesa para o pecado e a fraqueza delas mesmas. Naqueles dias o Evangelho era reconhecido como algo que apresenta o melhor modo de vida. . .

Essa foi a situação outrora. Já não é assim, porém. . . a atitude geral para com o Evangelho mudou completamente. . . hoje ele está sofrendo ativos ataques e oposição. Na verdade, chegamos a um estágio ulterior àquele; ele está sendo ridicularizado e menosprezado. A pretensão, hoje em dia, é que o Evangelho é uma coisa que nenhuma pessoa instruída e razoável pode aceitar ou crer. É posto na categoria de folclore e superstição. . . Tudo isso pode ser provado, contesta-se, pelo avanço do saber, pelo resultado dos descobrimentos científicos, e pela luz que a psicologia lançou sobre a natureza humana e seu estranho comportamento. Certos aspectos do ensino moral do Evangelho são aceitos e elogiados, havendo, contudo, quem rejeite até isso, mas, quanto às reivindicações centrais do Evangelho . . .todas estas coisas são rejeitadas com desdém e sarcasmo.

Segundo o homem moderno, a salvação deve ser buscada no pleno uso das capacidades e poderes humanos que podem ser exercitados pelo saber e pela educação. O homem deve salvar-se a si próprio; o homem pode salvar-se a si próprio. . . E se alguém se aventura. . . a dizer que o Evangelho é a única esperança da humanidade. . . aos berros lhe dirão que ele é lunático ou doido.

Todavia, é precisa e exatamente isso que afirmamos hoje, como Paulo o fez há tanto tempo. . . Não hesitamos em proclamar que a única esperança dos homens está em crer no Evangelho de Cristo.

The Plight of Man and the Power of God, p. 76-9-

1 de out de 2010

O que foi impossível à lei. - João Calvino


 - ( Rm 8.3 ) -

O Senhor nos justificou em Cristo, movido por sua soberana misericórdia. Tal coisa é impossível à lei fazer. Todavia, visto que esta cláusula é por demais notável, examinemos cada uma de suas partes.

O apóstolo afirma em termos claros que os nossos pecados foram expiados pela morte de Cristo, visto que era impossível que a lei nos conferisse a justiça. Daqui se infere que muito mais nos é ordenado na lei do que somos capazes de fazer. Se fôssemos capazes de cumprir a lei, não teria sido necessário buscar remédio em outra fonte. Portanto, é simplesmente absurdo medir a força humana pelos preceitos da lei, como se Deus, ao ordenar o que é justo, houvera considerado o caráter e a extensão de nossas faculdades.

No que estava enferma pela carne. Para que ninguém imaginasse que o apóstolo estava sendo irreverente, acusando a lei de enferma, ou restringindo-a às simples observâncias cerimoniais, ele expressamente afirma que esta defecção não era devido a alguma falha na lei, e, sim, às corrupções de nossa carne. E preciso admitir que, se alguém pudesse satisfazer a lei divina em termos absolutos, então o mesmo seria justo diante de Deus. Portanto, o apóstolo não nega que a lei seja suficiente para justificar-nos no que respeita à doutrina, visto que a mesma contém a norma perfeita de justiça. Contudo, visto que nossa carne não atinge essa justiça, todo o poder da lei falha e se desvanece. Por isso não é difícil refutar o erro ou, antes, a ilusão daqueles que imaginam que Paulo está privando somente as cerimônias da virtude de justificar. Porquanto Paulo expressamente põe a culpa em nós mesmos, e declara que ele não encontra falha na própria doutrina da lei.

Além do mais, é preciso que entendamos a enfermidade da lei no sentido em que o apóstolo usualmente toma a palavra, a qual significa não simplesmente uma leve fraqueza, e, sim, impotência. Ele adota este sentido com o fim de enfatizar que não é absolutamente a função da lei conceder justiça. Vemos, pois, que estamos inteiramente excluídos da justiça de Cristo, visto que não pode haver justiça em nós mesmos. Tal conhecimento é especialmente necessário, porque jamais seremos vestidos com a justiça de Cristo, a menos que antes saibamos com certeza que não possuímos em nós qualquer justiça que mereça chamar-se nossa. A palavra carne é sempre usada no mesmo sentido, significando nós próprios. A corrupção, pois, de nossa natureza torna a lei de Deus de nenhuma utilidade para nós. Embora nos mostre o caminho da vida, ela não nos impede de nos precipitarmos de ponta cabeça na morte.

Isso fez Deus enviando seu próprio Filho. Ele agora mostra a maneira como nosso Pai celestial nos restaurou à justiça por intermédio de seu Filho. O Pai condenou o pecado na carne de Cristo, ou seja: ao cancelar o escrito de dívida [Cl 2.14], ele aboliu a culpa que nos mantinha condenados na presença de Deus. A condenação proveniente do pecado nos trouxe para a justiça, porque, visto que nossa culpa foi desfeita, estamos absolvidos, de sorte que Deus nos considera justos. Em primeiro lugar, contudo, Paulo afirma que Cristo foi enviado, a fim de lembrar-nos que a justiça de forma alguma reside em nós, já que devemos buscá-la nele. E em vão que os homens confiam em seus próprios méritos, porquanto são justos somente através do beneplácito de outro, ouse apropriam da justiça procedente da expiação que Cristo efetuou em sua carne. Cristo, diz ele, veio na semelhança de carne pecaminosa. Embora a carne de Cristo fosse incontaminada por qualquer mancha, ela tinha a aparência de pecaminosidade, visto que levava em si o castigo devido aos nossos pecados. Certamente, a morte manifestava, na carne de Cristo, cada partícula de seu poder, como se sua carne se sujeitasse [espontaneamente] à morte. Visto que nosso Sumo Sacerdote tinha que aprender, de experiência própria, o que significa participar da fraqueza [Hb 4.15], aprouve a Cristo carregar nossas enfermidades, a fim de poder inclinar-se para nós com mais compaixão. Neste aspecto, também, transpareceu nele uma certa semelhança [—imago] com a nossa natureza pecaminosa.

Fonte: [O Calvinista]

Como lidar com filosofias competidoras? - John Piper


Fonte: [Youtube]

A Doutrina Da Eleição | John Piper


Fonte: [Youtube]
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