16 de mai. de 2010

A Palavra de Deus é Viva e Eficaz - João Calvino


A palavra de Deus é viva e eficaz - (Hb 4.12). Tudo o que ele diz aqui com relação à eficácia da Palavra é com o propósito de que soubessem que não poderiam desmerecê-la impunemente. É como se dissesse: Sempre que o Senhor se nos acerca com sua Palavra, ele está tratando conosco da forma mais séria, com o fim de mover todos os nossos sentidos mais profundos. Portanto, não há parte de nossa alma que não receba sua influência. Entretanto, antes de darmos um passo adiante, carece que consideremos se o apóstolo está falando da Palavra em termos gerais, ou se ele está fazendo, aqui, uma referência particular àqueles que crêem. E geralmente aceito que a Palavra de Deus não é igualmente eficaz em todos. Ela aplica seu poder nos eleitos, com o fim de humilhá-los através de um genuíno reconhecimento do que na verdade são, para que fujam e se escondam na graça de Cristo. Isso jamais aconteceria, se a Palavra não penetrasse as profundezas do coração. A hipocrisia, que se acha presente nos admiráveis e infinitamente tortuosos recantos dos corações humanos, deve ser erradicada. Devemos estar não só humildemente dispostos a espicaçar-nos e a afligir-nos, mas também a ser profundamente feridos, para que, prostrados pelo senso da morte eterna, aprendamos a morrer para nós mesmos. Jamais seremos renovados em toda a nossa mente (como Paulo requer em Efésios 4.23) até que nosso velho homem haja sido morto pelo gume dessa espada do Espírito. Eis a razão por que Paulo diz em outro lugar [Fp 2.17] que aqueles que crêem são oferecidos em sacrifício a Deus, visto que não podem ser trazidos à obediência a Deus senão pela morte de seus próprios desejos, bem como não podem ver a luz da sabedoria divina senão pela destruição de sua sabedoria carnal. Tudo isso não pode aplicar-se no caso dos incrédulos. Ou displicentemente desconsideram a Deus quando lhes fala, e dessa forma motejam dele, ou bradam contra sua doutrina e se levantam insidiosamente contra ela. Sendo a Palavrra de Deus semelhante a um martelo, o coração deles é semelhante a uma bigorna, de modo que sua dureza repele os golpes por mais fortes que sejam. Eles se acham muito longe para que a Palavra de Deus penetre neles, até ao ponto de dividir alma e espírito. Desse modo parece que essa cláusula deve restringir-se somente àqueles que crêem, visto que unicamente eles podem ser examinados no mais profundo de seu ser.
Em contrapartida, o contexto do apóstolo revela que este é um princípio geral que se aplica também aos incrédulos. Embora se oponham à Palavra de Deus com um coração de ferro ou de aço, não obstante devem necessariamente ser refreados por seu próprio sentimento de culpa. Riem, é verdade, mas é um riso sardônico, porque sentem como se estivessem sendo sufocados interiormente, e forjam toda espécie de evasivas com o intuito de evitar a aproximação do tribunal de Deus. Por mais indispostos que eles sejam, são arrastados para a presença dessa mesma Palavra que tão veementemente ridicularizam, para que sejam comparados apropriadamente com cães furiosos, que mordem e esganam a corrente a que se acham presos, embora sem qualquer efeito, porque ainda permanecem firmemente acorrentados. Além disso, embora o efeito dessa Palavra talvez não se revele imediatamente, no mesmo dia, contudo o resultado será inevitável, e aquele que a prega descobrirá que a ninguém a pregou em vão. Cristo certamente falou em termos de aplicação geral quando afirmou: "Quando ele vier convencerá o mundo..." [Jo 16.8]. O Espírito exerce esse juízo através da pregação do evangelho.
Finalmente, ainda quando a Palavra de Deus nem sempre manifeste esse poder nos homens, todavia ela, em alguma medida, o possui em si mesma. O apóstolo está discutindo, aqui, acerca da natureza e da função própria da Palavra para o propósito único, a fim de que saibamos que assim que ela soa em nossos ouvidos, nossas consciências são citadas acusativamente diante do tribunal de Deus. É como se dissesse: Se porventura alguém presume que a Palavra de Deus ecoa no vazio, ao ser proclamada, esse tal está fazendo uma grande confusão. Essa Palavra é algo vivo e cheio de poder secreto, a qual não deixa nada no homem que não seja tocado. A suma de tudo isso é que tão logo Deus abra seus santos lábios, todos os nossos sentidos também devem abrir-se para receber sua Palavra, porque não faz parte de sua vontade permitir que suas palavras sejam semeadas em vão, nem tampouco feneçam ou desapareçam no solo da vida, senão que desafiem eficazmente as consciências humanas, até que as tragam jungidas ao seu domínio. Ele, pois, dotou sua Palavra com tal poder, para que a mesma perscrute cada área de nossa alma, para revelar os escrutínios dos pensamentos, para decidir entre as afeições e para manifestar-se como juiz.
Aqui surge uma nova questão, se essa Palavra deve ser considerada como sendo a lei ou o evangelho. Os que entendem que o apóstolo está falando da lei, evocam estes testemunhos paulinos: que é um ministério de morte; que é a letra que mata [2 Co 3.6-7]; que não opera outra coisa senão ira [Rm 4.15], e outros da mesma natureza. Mas aqui o apóstolo realça seus efeitos divergentes. E, por assim dizer, um gênero de matança que faz viva a alma, e que se dá através do evangelho. Devemos entender, pois, que quando o apóstolo diz que ela é viva e eficaz, ele está a referir-se à doutrina geral de Deus. Paulo dá testemunho de tal efeito [2 Co 2.16], dizendo que de sua pregação exala um odor de morte para a morte daqueles que não crêem, bem como de vida para a vida dos fiéis, de modo que jamais fala em vão, sem que conduza alguns à salvação, compelindo outros à destruição. Esse é o poder de atar e desatar que o Senhor conferiu a seus apóstolos [Mt 18.18]. Esse é o poder do Espírito no qual Paulo se gloria [2 Co 10.4]. Aliás, ele jamais nos promete salvação em Cristo sem, em contrapartida, pronunciar vingança sobre os incrédulos que, ao rejeitarem a Cristo, trazem morte sobre si próprios.
Além do mais, é mister que observemos que o apóstolo, aqui, está a discutir a Palavra de Deus que nos é comunicada pelo ministério dos homens. São dementes e mesmo danosas todas as noções de que, não obstante a Palavra interna ser certamente eficaz, aquela que emana dos lábios humanos é morta e carente de qualquer efeito. Admito que a eficácia certamente não flui da língua humana, nem consiste em seu próprio som, senão que deve ser atribuída totalmente ao Espírito Santo; no entanto não impede o Espírito demanifestar seu poder na Palavra que é proclamada. Porque Deus mesmo não fala senão através dos homens; ele toma grande cuidado para que sua doutrina não seja recebida com descaso por seus ministros serem homens. E assim, quando Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus [Rm 1.16], deliberadamente distinguiu sua própria pregação com tal honra, a qual o apóstolo percebeu ser aprovada por alguns e rejeitada por outros. Ao ensinar-nos em outro lugar [Rm 10.8-10] que a salvação nos é conferida pelo ensinamento proveniente da fé, ele expressamente diz que essa é a doutrina que é anunciada. Vemos que Deus sempre recomenda publicamente a doutrina que nos é ministrada pelo esforço humano, com o propósito de induzir-nos a recebê-la com reverência.
Ao dizer que a Palavra é viva, é preciso entender tal expressão "em ralação aos homens". Isso se faz ainda mais evidente à luz do segundo adjetivo. Ele mostra que espécie de vida ela possui ao prosseguir chamando-a eficaz. objetivo do apóstolo era ensinar-nos o gênero de utilidade que a Palavra tem para nós. A Escritura faz uso da metáfora da espada em outras passagens, o apóstolo, porém, não se contenta com uma simples comparação. Ele diz que a Palavra de Deus é mais cortante que qualquer espada; aliás, uma espada de dois gumes, porque em sua época era freqüente o caso de espadas que só cortavam de um lado, e do outro não.
Penetra até... etc. O substantivo alma amiúde significa o mesmo que espírito, mas quando são ambos associados, a primeira inclui todas as afeições, enquanto que o último indica a faculdade a que chamam intelectual. Assim também em 1 Tessalonicenses 5.23, quando Paulo ora a Deus para que guardasse o espírito, a alma e o corpo deles incorruptíveis até à vinda de Cristo, ele quer dizer simplesmente que permanecessem puros e santos em sua mente e vontade e ações exteriores. Semelhantemente, quando Isaías diz [26.9]; "Com minha alma suspiro de noite por ti, e com o meu espírito dentro em mim", certamente que sua intenção era que seu esforço em buscar a Deus era tão profundo, que aplicava sua mente tanto quanto seu coração a tal intento. Estou consciente de que há aqueles que apresentam uma interpretação diferenciada. Mas espero que toda pessoa sensível esteja disposta a concordar comigo.
Voltemos à passagem que ora estamos a considerar. A Palavra de Deus penetra ao ponto de dividir alma e espírito. Significa que ela testa toda a alma de uma pessoa. Ela explora seus pensamentos e sonda sua vontade e todos os seus desejos. O mesmo significado se acha implícito na frase juntas e medulas. Significa que não há nada tão difícil ou sólido numa pessoa, nada tão profundamente oculto que a eficácia da Palavra não penetre até lá. Isso é o que Paulo diz em 1 Coríntios 14.24, ou seja: que a profecia tem o poder de convencer e julgar os homens, a fim de que os segredos docoração se manifestem. Visto que a função de Cristo é descobrir e trazer a lume os pensamentos que fluem dos recessos mais profundos do coração, em grande medida ele o faz através do evangelho.
A Palavra de Deus, portanto, é Kp itikóç (=discernidora), porque traz à mente humana a luz do conhecimento, como se a tirasse de um labirinto onde jazia outrora enredada. Não há trevas mais densas do que a incredulidade, e a hipocrisia nos cega de uma forma terrificante. A Palavra de Deus dissipa tais trevas e faz a hipocrisia bater em retirada. É daqui que emana o discernimento e o juízo que o apóstolo menciona, visto que os vícios que se ocultam sob a falsa fachada de virtudes começam agora a descortinar-se e sua aparência se desvanece. Ainda quando os réprobos fiquem por algum tempo ocultos em seus covis, descobrirão que até mesmo ali a luz da Palavra finalmente penetrou, de modo que não podem escapar do juízo divino. Daqui se ergue seu lamento e deveras seu furor, porquanto se não forem estremecidos pela Palavra, jamais perceberiam sua loucura. Tentam escapar ou evadir-se e evitar seu poder, ou ainda procedem como se não a tenham notado. Mas Deus não permite que logrem sucesso. Portanto, enquanto caluniam ou injuriam a Palavra de Deus, admitem, embora a contra gosto ou relutantemente, que sentem seu poder em seu íntimo. 


Fonte: [O calvinista]

13 de mai. de 2010

O Discipulado e o Indivíduo – Dietrich Benhoeffer


Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. (Lc 14.26).

O chamado de Jesus ao discipulado faz do discípulo um indivíduo. Querendo ou não, ele tem que se decidir, tem que tomar sua decisão sozinho. Não é indivíduo espontaneamente; Cristo é que faz do ser humano chamado um indivíduo. Cada qual é chamado individualmente e tem que ser discípulo sozinho. Com receio desta solidão, o ser humano procura proteção junto às pessoas e coisas que o cercam. Apercebe-se, de súbito, de todas as suas responsabilidades e apega-se a elas. Encoberto por elas, deseja tomar sua decisão, mas não quer encontrar-se sozinho perante Jesus e ter que decidir-se com o olhar fixo somente nele. Mas, nesta hora, o ser humano chamado não pode ocultar-se por detrás de pai e mãe, mulher e filhos, povo e história. Cristo quer que o ser humano fique só, que nada mais enxergue senão aquele que o chamou.

No chamado de Jesus, encontra-se já realizado o rompimento com as circunstâncias naturais em que o ser humano vive. Não é o discípulo que provoca esse rompimento, mas o próprio Cristo já o concretizou ao pronunciar seu chamado. Cristo libertou o ser humano de sua relação imediata com o mundo e o transportou para uma relação imediata consigo mesmo. Ninguém pode seguir a Cristo sem que reconheça e confirme o rompimento já realizado. Não é a arbitrariedade de uma vida em teimosia, mas é o próprio Cristo que conduz o discípulo a este rompimento.

Por que isso precisa ser assim? Por que não haveria um crescimento contínuo, uma transição lenta, santificante, das ordens naturais para dentro da comunhão de Cristo? Qual o poder incômodo que vem se interpor entre o ser humano e as ordens de sua vida natural dadas por Deus? Não seria este rompimento um metodismo legalista? Não constitui ele o triste desprezo dos belos dons de Deus, que nada tem em comum com a liberdade cristã? De fato, algo se interpõe entre a pessoa que é chamada por Cristo e as circunstâncias de sua vida natural. No entanto, não se trata, de forma alguma, de um triste desprezador da vida, de uma lei da piedade; antes, é a vida, é o próprio Evangelho, o próprio Cristo. Com sua encarnação, Cristo colocou-se entre mim e as circunstâncias do mundo. Já não posso recuar: ele está de permeio. Privou a pessoa que foi chamada da relação imediata com tais circunstâncias. Ele quer ser o mediador, e tudo deve se processar através dele. Não se coloca apenas entre mim e Deus, mas está igualmente entre mim e o mundo, entre mim e os outros seres humanos e coisas. Ele é o Mediador, e isso não somente entre Deus e os seres humanos, mas também entre ser humano e ser humano, e entre o ser humano e a realidade. Porque todo o mundo foi criado através dele e para ele (Jo 1.3; 1 Co 8.6; Hb 1.2), ele é o único Mediador do mundo inteiro. Desde Cristo já não há nenhuma relação imediata, quer entre o ser humano e Deus, quer entre o ser humano e o mundo; Cristo quer ser o Mediador. É certo que se oferecem bastantes deuses que concedem ao ser humano um acesso imediato; o mundo procura, por todos os meios, ter uma relação imediata com o ser humano, mas é justamente nesse ponto que reside a inimizade contra Cristo, o Mediador. Tais deuses e o mundo querem arrebatar de Cristo o que ele lhes tirou, a exclusividade do relacionamento imediato com o ser humano.

O rompimento com as coisas imediatas do mundo nada mais é do que o reconhecimento de Cristo como Filho de Deus e Mediador. Nunca é um ato voluntário em que, por amor de qualquer ideal, um ser humano se liberta dos laços que o prendem ao mundo, um ideal menor que se troca por outro maior. Isso seria espírito entusiasta, arbitrariedade, sim, uma vez mais, uma relação imediata com o mundo. Somente o reconhecimento do fato consumado, é, que Cristo é o Mediador, separa o discípulo de Jesus do mundo dos seres humanos e das coisas. O chamado de Jesus, quando não compreendido como ideal, mas como Palavra do Mediador, realiza em mim esse rompimento já realizado com o mundo. Caso se tratasse de avaliação de ideais, sempre seria preciso procurar uma compensação, que, talvez, fosse a opção por um ideal cristão, mas que nunca poderia ser unilateral. Do ponto de vista do ideal, das "responsabilidades" da vida, não se justificaria uma desvalorização radical das ordens naturais da vida em relação ao ideal de vida cristão. Haveria, até, muito que dizer a favor de uma avaliação inversa - justamente, note-se, do ponto de vista de um idealismo cristão, de uma ética da responsabilidade ou consciência cristã! Todavia, como, de forma de ideais, avaliações ou responsabilidades, mas sim de fatos consumados e de seu reconhecimento, ou seja, da pessoa do próprio Mediador que se ergue entre nós e o mundo, por isso é que somente existe o rompimento com as coisas imediatas do mundo, por isso o discípulo deve tornar-se indivíduo perante o Mediador.

A pessoa que foi chamada por Jesus aprende, assim, que tem vivido iludida na sua relação com o mundo. Essa ilusão chama-se "relação imediata". Esta ilusão prejudicou-a na fé e na obediência. Agora, porém, sabe que já não pode ter relações imediatas nem nos laços mais estreitos de sua vida, nos laços de sangue com pai e mãe, com os filhos, irmãos e irmãs, no amor conjugai, nas responsabilidades históricas. Desde Jesus, já não existem para seus discípulos quaisquer relações imediatas naturais, históricas ou empíricas. Entre pai e filho, marido e mulher, entre o indivíduo e o povo, ergue-se Cristo, o Mediador, quer consigam reconhecê-lo, quer não. Não há para nós qualquer caminho ao semelhante que não seja o caminho através de Cristo, da sua Palavra e de nosso discipulado. A relação imediata é ilusão.

Como, porém, a ilusão merece ser odiada por nos ocultar a verdade, a relação imediata com as circunstâncias naturais da vida deve ser odiada por amor do Mediador, Jesus Cristo. Sempre que uma relação nos impeça de nos encontrarmos com Cristo como indivíduo, sempre que uma comunhão reivindique relações imediatas, deve ser odiada por amor de Cristo, pois cada relação imediata, consciente ou inconsciente, é ódio a Cristo, ao Mediador, até mesmo e em especial quando quer ser considerada cristã.

A teologia erra grandemente quando se serve da mediação de Jesus entre Deus e os seres humanos para justificar as relações imediatas da vida. Se Cristo é o Mediador, diz-se, então carregou os pecados de todas as nossas relações imediatas com o mundo, justificando-nos nelas. Jesus é nosso Mediador para com Deus, para que, em sã consciência, possamos nos colocar novamente numa relação imediata com o mundo - esse mundo que crucificou a Jesus. Assim, o amor de Deus e o amor do mundo são reduzidos ao mesmo denominador. O rompimento com as circunstâncias do mundo transforma-se num mal-entendido "legalista" da graça de Deus, que queria poupar-nos justamente deste rompimento. As palavras de Jesus sobre o ódio às relações imediatas transformam-se, muito naturalmente, na alegre confirmação das "realidades do mundo dadas por Deus". A justificação do pecador converte-se, uma vez mais, em justificação do pecado.

Para o discípulo de Jesus, "realidades dadas por Deus" somente existem através de Jesus Cristo. Aquilo que não me é dado através de Cristo feito ser humano não me foi dado por Deus. O que não me é dado por amor de Cristo não vem de Deus. O agradecimento pelos dons da criação acontece através de Jesus Cristo, e a prece pela conservação graciosa desta vida realiza-se por amor dele. Aquilo pelo qual não posso agradecer por amor de Cristo, não o devo agradecer de modo algum, pois isso se torna pecado para mim. Também o caminho para "a realidade dada por Deus", que é meu semelhante com o qual convivo, passa por Cristo, ou então é um caminho transviado. Todas as nossas tentativas para lançar uma ponte sobre o abismo que nos separa dos outros, de vencer, por meio de laços naturais ou da alma, a distância intransponível, o caráter diferente e estranho dos outros seres humanos, todas essas tentativas têm que fracassar. Não há um caminho próprio de ser humano para ser humano. A mais amável tentativa de compreensão, a psicologia mais sofisticada, a franqueza mais natural não conduzem ao outro; não há qualquer relação imediata entre as almas. Cristo é o Mediador, e somente através dele é que há caminho para o próximo. Por isso: a intercessão é o caminho mais promissor para chegarmos aos outros, e a oração conjunta em nome de Cristo constitui a mais genuína comunhão.

Não há qualquer conhecimento verdadeiro dos dons de Deus sem o conhecimento do Mediador, por amor do qual tão-somente eles nos são dados. Não há nenhuma ação de graças genuína por povo, família, história e natureza sem um profundo arrependimento que dá exclusivamente a Cristo a honra suprema. Não há relação genuína com as realidades circunstanciais do mundo criado, não há responsabilidades genuínas no mundo, sem o reconhecimento do rompimento que já nos separou do mundo. Não há amor genuíno pelo mundo a não ser aquele amor com que Deus amou este mundo em Jesus Cristo. "Não amem o mundo" (1 Jo 2.15), mas: "Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (Jo 3.16).

É inevitável o rompimento com as relações imediatas. Se ele se realiza externamente, no rompimento com a família ou com o povo, ou sendo chamados a ostentar visivelmente o opróbrio de Cristo, a tomar sobre nós a acusação de misantropia (odium generis humani [ódio ao gênero humano]), ou se o rompimento permanece oculto, conhecido apenas por nós mesmos, mas com o espírito pronto a torná-lo visível a todo momento - isso não constitui diferença definitiva. Abraão constituiu-se no modelo para ambas as possibilidades. Teve que abandonar suas amizades e a casa paterna; Cristo colocou-se entre ele e seus parentes. O rompimento teve que tornar-se visível. Abraão tornou-se forasteiro por amor da terra prometida. Foi esse seu primeiro chamado. Mais tarde, Abraão recebeu a ordem de sacrificar seu filho Isaque. Cristo ergueu-se entre o pai da fé e o filho da promessa. Foi destruída aqui não somente a relação imediata natural, mas também a própria relação imediata espiritual. Abraão tinha que aprender que a promessa também não depende de Isaque, mas exclusivamente de Deus. Ninguém toma conhecimento deste chamado, nem mesmo os servos que acompanham Abraão ao local do holocausto. Abraão fica completamente só. Uma vez mais, ele é totalmente indivíduo, como quando saiu da casa paterna. Aceita o chamado tal como foi pronunciado; não procura interpretá-lo ou espiritualizá-lo; aceita a palavra de Deus e está pronto a obedecer. Contra toda relação imediata natural, contra toda relação imediata ética, contra toda relação imediata religiosa, ele vai ser obediente à Palavra de Deus. Leva o filho para o sacrificar; está disposto a concretizar de modo visível esse rompimento oculto, por amor do Mediador. Na mesma hora, torna a receber tudo aquilo que havia dado. Abraão recebe novamente o filho. Deus mostra-lhe uma vítima melhor que deverá substituir Isaque. Isso é uma mudança total. Abraão tornou a receber Isaque, mas passa a tê-lo de forma diferente. Tem-no, agora, graças ao Mediador, e também por amor dele. Como aquele que estava pronto a escutar e a pôr literalmente em prática a ordem de Deus, pode ter Isaque como se não o tivesse, pode tê-lo através de Cristo. Ninguém mais sabe disso. Abraão volta da montanha na companhia de Isaque, tal como subira, tudo, porém, estava mudado. Cristo se colocara entre pai e filho. Abraão tinha abandonado tudo e seguira a Cristo. E, no meio do discipulado, se permite a ele tornar a viver no mundo em que vivia antes. Exteriormente, tudo ficou como antes. Porém, as coisas antigas já passaram e tudo se fez novo. Tudo teve que passar através de Cristo.

Esta é a outra possibilidade de ser indivíduo, de ser discípulo de Cristo no seio da comunidade, no meio do povo, na casa paterna, no contato com os bens e a propriedade. Mas quem foi chamado a essa existência foi Abraão, aquele que antes atravessara ele próprio a barreira do rompimento visível, e cuja fé se tornou padrão para o Novo Testamento. Gostaríamos muito de generalizar esta possibilidade de Abraão, gostaríamos de entendê-la de maneira legalista, e, colocarmo-nos, sem mais nem menos, a nós próprios nesta situação. Esta também seria exatamente nossa existência cristã: seguir a Cristo em plena posse de nossos bens materiais e assim ser indivíduo. Certo, porém, é que o caminho do rompimento externo é bem mais fácil para o cristão do que carregar silenciosamente este rompimento na fé. Quem não sabe estas coisas, quem não o aprendeu através das Escrituras ou da experiência, engana-se com certeza ao enveredar pelo outro caminho. Cairá, de novo, na relação direta e perderá a Cristo.

Nós não temos liberdade de escolher esta ou aquela possibilidade. De acordo com a vontade de Jesus, seremos arrancados da relação imediata de uma ou de outra forma e deveremos tornar-nos indivíduos, visível ou ocultamente.

O mesmo Mediador, porém, que nos fez indivíduos constitui também o fundamento de uma comunhão totalmente nova. Ele está entre mim e os outros. Separa, mas une também. E certo que, assim, fica cortado todo e qualquer caminho imediato de mim para alguém outro; o discípulo, porém, aprende o novo e verdadeiro acesso ao semelhante, que, a partir de agora, passará pelo Mediador.

Então Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tomou Jesus: Em verdade lhes digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e no mundo por vir a vida eterna. Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros. (Mc 10.28-31).

Jesus está falando aqui a pessoas que se tornaram indivíduos por amor dele, que, a seu chamado, tudo abandonaram e podem afirmar a respeito de si mesmas: "Eis que nós tudo deixamos e te seguimos". A estas é dada a promessa de uma nova comunhão. De acordo com as palavras de Jesus, receberão, já neste tempo, o cêntuplo do que abandonaram. Jesus refere-se à sua Igreja, que se encontra nele. Quem abandona seu pai por amor de Jesus encontra, com certeza, outro pai, encontra irmãos e irmãs, sim, até mesmo campos e casas lhe estão preparados. Todos entram sozinhos no discipulado, mas ninguém fica sozinho nele. A pessoa que ousa tomar-se indivíduo, confiante na Palavra, recebe a comunhão da Igreja. Toma a encontrar-se numa comunhão visível, que a compensa cem vezes por aquilo que perdeu. Cem vezes? Sim, pelo fato de, agora, ter tudo tão-somente através de Jesus, do Mediador, o que naturalmente significa "com perseguições". "Cem vezes" - "com perseguições", esta é a graça da Igreja que segue o Senhor sob a cruz. Esta é, pois, a promessa para os discípulos, a de se tomarem membros da comunidade da cruz, povo do Mediador, povo sob a cruz.

Estavam de caminho para Jerusalém, e Jesus ia adiante dos seus discípulos. Estes se admiravam e o seguiam tomados de apreensões. E Jesus, tornando a levar à parte os doze, passou a revelar-lhes as coisas que lhe deviam sobrevir. (Mc 10.32).

Como para confirmar a seriedade de seu chamado ao discipulado e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de ser discípulo por forças próprias e ainda a promessa de lhe pertencerem sob muitas perseguições, Jesus sobe para Jerusalém, para a cruz, e os que o seguem admiram-se e espantam-se com o caminho para o qual os chama. 

Fonte: [Josemar Bessa]

O Arrependimento e a Reforma - J. I. Packer


- A época da Reforma foi um período da História cristã em que entendeu-se bem a vida de arrependimento. A redescoberta de Lutero da justificação pela fé, baseada na obra consumada de Cristo, em sua expiação em nosso lugar, levou-o a desafiar a idéia popular de que o arrependimento nada mais era do que a formalidade da confissão e absolvição sacramental, com a execução de qualquer "penitência" que o sacerdote viesse a impor. Embora nunca oficialmente endossadas, estas noções receberam a aprovação para serem praticadas e o consenso; o desafio de Lutero foi oportuno e extremamente necessário. Como já vimos, ele afirmou que o arrependimento devia ser uma atividade constante e permanente, e argumentou que, como a fé, o arrependimento tem de ser um exercício do coração.

Quem entendeu esta concepção e a adotou foi John Bradford que, em 1555, aos quarenta e cinco anos de idade, foi amarrado a uma estaca e queimado em Londres como parte da campanha lançada pela Rainha Maria para livrar a Inglaterra dos protestantes. Bradford só tinha seis anos de conversão. No entanto, durante esse tempo, ganhou distinção entre os reformadores ingleses como pregador e como um homem notavelmente santo, para quem o arrependimento era um modo de vida. Thomas Sampson, amigo que o levou à fé, escreveu o prefácio da segunda edição do Sermão de Arrependimento de Bradford (Em Dois Sermões..., 1574). Trazendo o seguinte cabeçalho: "Ao Leitor Cristão, Thomas Sampson deseja a felicidade de uma conversão rápida e completa ao Senhor", este prefácio compartilha um aspecto da realidade e do segredo da santidade de Bradford. "Mestre Bradford foi um modelo", escreve Sampson, "deste (...) arrependimento que (...) foi ensinado por ele, que eu, que o conheci particularmente, tenho de louvar a Deus por ele, uma vez que, entre os homens, poucos conheci como ele".

Ele continua a explicar seu parecer com palavras que merecem ser transcritas neste livro:

(...) aprouve a Deus, com grande rapidez, prepará-lo para o martírio no qual, por meio de Cristo, ele veio a receber a coroa da vida. No entanto, (...) a constante meditação, a prática do arrependimento e a fé em Cristo, que o guardou pela graça de Deus e foi notavelmente praticada todos os dias de sua vida, ajudaram-no muito em sua caminhada.

(...) nosso Bradford tinha suas práticas e exercícios diários de arrependimento. Fez para si uma lista de todos os (sic) pecados terríveis que, em sua vida de ignorância, havia cometido e a colocava diante de seus olhos quando ia orar em particular para que, ao vê-la e lembrar-se dela, ele pudesse: erguer-se para oferecer a Deus o sacrifício de um coração contrito, buscar a convicção da salvação em Cristo pela fé, agradecer a Deus por tê-lo chamado das veredas da iniqüidade e pedir que a graça superabundasse em uma vida santa que fosse aceitável e agradável a Deus.

Tamanho era o exercício contínuo da consciência que fazia em suas orações particulares que ele não se contentava com sua oração a menos que sentisse no íntimo algum peso no coração pelo pecado cometido, e a cura daquela ferida pela fé, sentindo o restabelecimento salvador de Cristo, que trazia uma mudança de mente que o levava a sentir ódio do pecado e amor em obedecer à boa vontade de Deus (...).

(...) Vamos aprender, com o exemplo de Bradford, a orar melhor, ou seja, orar com o coração, e não apenas com os lábios (...) como disse Cipriano: "Deus ouve o coração, e não a voz". Ou seja, não apenas a voz sem o coração, porque isto não passa de um movimento dos lábios (...).

Este era mais um de seus exercícios: ele costumava fazer uma efemérides (ou seja, um diário) ou um registro, no qual escrevia todas as coisas notáveis que ouvia ou via a cada dia que passava. No entanto, (...) ele escrevia de tal forma que uma pessoa podia observar naquele livro os sinais de um coração impressionado. Pois se via ou ouvia algo bom sobre uma pessoa, por meio daquela percepção, ele queria ver aquilo se concretizar em sua própria vida, e acrescentava uma pequena oração em que pedia misericórdia e graça para ser aperfeiçoado. Se ouvia ou via algum mal ou miséria, ele anotava isso como uma coisa que seus próprios pecados procuravam, e ainda (ou melhor, sempre) adicionava (...) "Senhor, tenha misericórdia de mim".

[Este exercício parece ser a origem de uma história posterior que não foi confirmada de que Bradford, quando via criminosos sendo levados para a execução, dizia: "Ali segue, senão pela graça de Deus, John Bradford".!

Ele costumava anotar no mesmo livro pensamentos maus que apareciam em sua mente; desde a inveja que sentia do bem que tinham outros homens, pensamentos de ingratidão, de não dar a Deus toda a glória pelas coisas que ele fazia à dureza e insensibilidade de coração quando via outros em dores e aflições. E assim, ele fez para si, e a seu respeito, um livro de práticas diárias de arrependimento (...)?

De acordo com Sampson, o arrependimento foi o tema central de Bradford durante os seis anos de sua vida cristã. Ele o pregou e viveu (suas últimas palavras, segundo nos conta Sampson, como "chamas de fogo a brotar de seus olhos" foram "Arrepende-te, Inglaterra"3). Por seu envolvimento, como um dos membros da equipe do Sir John Harríngton, em um ato de fraude "para o detrimento do rei" nos dias que antecederam a sua conversão, Bradford insistiu na restituição: "Ele jamais poderia se calar até que, pelo conselho de Mestre Latimer [Hugh Latimer, que foi bispo de Worcester, cujo sermão sobre restituição foi o primeiro a mexer com a sua consciência] fosse feita uma restituição. Isso teria de acontecer" - embora a fraude tivesse sido cometida por Harrington, e não por ele, e foi Harrington, no final, que teve de pagar- "ele, de boa vontade, abriu mão e absteve-se de todo o patrimônio particular que tinha na terra." Assim, "sua vida foi uma prática e um exemplo, uma provocação ao arrependimento."

Então, Bradford, em seu ministério, insistiu na necessidade do arrependimento não somente na pregação pública, mas também em assuntos particulares e com seus companheiros. Pois com quem quer que estivesse, ele livremente reprovaria qualquer pecado e má conduta que viesse de uma pessoa, principalmente dos blasfemadores, obscenos (...). E, em fazendo isto com muita graça e majestade cristã, ele sempre conseguia fechar a boca dos contraditores. Uma vez que falava com poder, mas com tamanha doçura, eles podiam enxergar o mal que praticavam como algo ruim e prejudicial para eles mesmos, e entender que ele fazia o bem ao lutar para conduzi-los a Deus.

A descrição que Sampson faz de Bradford, escrita dezenove anos após o reformador ter sido queimado, é fascinante em muitos aspectos. Em primeiro lugar, ela narra o que parece ter sido a primeira aparição de um diário pessoal espiritual, que revela Bradford como o pioneiro de um tipo de escrita que, mais tarde, se tornou uma especialidade dos puritanos - ou seja, uma escrita que, com efeito, faz do diário um confessionário particular, cujo objetivo é fazer com que uma pessoa seja sincera consigo mesma e com Deus. (E difícil ser sincero quando os nossos próprios pecados e tolices estão em foco, como já observamos; fazer um diário, como fez Bradford, pode ser de grande ajuda aqui. Isto era um fato nos dias dele, e ainda o é nos nossos dias.) Em segundo lugar, há um grande fascínio pela luz que as palavras de Sampson lançam sobre o próprio Bradford, e seu senso vivido da santidade e graciosidade de Deus.

 J. I. Packer

Fonte:[ Josemar Bessa]

Arrependimento – J. I. Packer


- O Cristão Muda Radicalmente -

Anunciei primeiramente... que se arrependessem
e se convertessem a Deus, praticando obras
dignas de arrependimento.
ATOS 26.20

A palavra arrependimento no Novo Testamento significa mudança da mente, de forma que as idéias, valores, metas e costumes são alterados e toda a vida é vivida de modo diferente. A mudança é radical, tanto interior como exterior¬mente; ânimo e opinião, vontade e afetos, conduta e estilo de vida, motivos e propósitos são todos envolvidos. Arrependi¬mento significa começo de uma nova vida.

O chamado ao arrependimento era a primeira mensagem na pregação de João Batista (Mt 3.2), de Jesus (Mt 4.17), dos Doze (Mc 6.12), de Pedro no Pentecoste (At 2.38), de Paulo aos gentios (At 17.30; 26.20), e do Cristo glorificado a cinco das sete igrejas da Ásia (Ap 2.5,16,22; 3.3,19). Ele foi parte do resumo feito por Jesus do evangelho que deveria ser levado ao mundo (Lc 24.47). Ele corresponde a constantes apelos dos profetas do Velho Testamento a Israel para que se voltasse para Deus, de quem se desviara (por exemplo, Jr 23.22; 25.4,5; Zc 1.3-6). O arrependimento é sempre apontado como cami¬nho para a remissão de pecados e restauração ao favor de Deus, e a impenitência é indicada como a estrada para a ruína (por exemplo, Lc 13.1-8).

O arrependimento é fruto da fé, que é, ela própria, fruto da regeneração. Contudo, na vida real, o arrependimento é inseparável da fé, sendo o aspecto negativo (a fé é o aspecto positivo) de voltar-se para Cristo como Senhor e Salvador. A idéia de que pode haver fé salvadora sem arrependimento, e que uma pessoa pode ser justificada por aceitar Jesus como Salvador, e ao mesmo rejeitá-lo como Senhor, é uma ilusão destrutiva. A fé reconhece Cristo como o que Ele realmente é, nosso rei designado por Deus, como também nosso sacerdote dado por Deus, e a verdadeira confiança nele como Salvador será expressa em submissão a Ele também como Senhor. Recusar isto é procurar a justificação por meio de uma fé impenitente, que não é fé.

Sobre arrependimento, diz a Confissão de Westminster:

Movido pelo reconhecimento e sentimento, não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade do pecado como contrários à santa natureza e justa lei de Deus; apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados, que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com Ele em todos os caminhos dos seus mandamentos. (XV. 2)

Esta declaração ressalta o fato de que o arrependimento incompleto, às vezes chamado "contrição" (remorso, auto-acusação, pesar pelo pecado gerado por medo do castigo, sem qualquer vontade ou determinação de renunciar ao pecado) é insuficiente. O verdadeiro arrependimento é "contrição", como exemplificado por Davi no Salmo 51, tendo em seu coração um sério propósito de não mais pecar, mas sim viver doravante uma vida que mostre que o arrependimento foi completo e real (Lc 3.8; At 26.20). Arrepender-se de qualquer vício significa tomar a direção oposta, praticar as virtudes mais diretamente contrárias a ele.


Fonte:[Ortopraxia]

12 de mai. de 2010

O Escriba e o Maior dos Mandamentos - J. C. Ryle







Este texto (Marcos 12.28-34) contêm uma conversa entre nosso Senhor Jesus Cristo e "um dos escribas". Pela terceira vez, em um único dia, vemos nosso Senhor sendo testado com uma pergunta difícil. Tendo silenciado os fariseus e os saduceus, foi-Lhe solicitado que decidisse sobre uma questão acerca da qual havia muitas divergências de opinião entre os judeus. Essa pergunta foi: "Qual é o principal de todos os mandamentos?" Temos razão para agradecer a Deus por terem sido propostas tantas questões a nosso Senhor. Sem elas, talvez, nunca teriam sido proferidas as admiráveis palavras de sabedoria contidas nas três respostas de nosso Senhor. Aqui, como em muitos outros casos, vemos como Deus pode converter o mal em bem. Deus pode fazer com que os mais maliciosos assaltos de seus inimigos redundem em bem para a sua igreja e em louvor para Si mesmo. Ele faz a inimizade dos fariseus, saduceus e escribas instruir o seu povo. Os três questionadores, neste capítulo de Marcos, pouco podiam imaginar que as suas astuciosas perguntas haveriam de redundar em tão grande benefício para toda a cristandade. "Do comedor saiu comida" (Jz 14.14).

Nestes versículos, observemos quão elevado é o padrão ensinado por nosso Senhor acerca dos deveres para com Deus e para com os homens. A indagação apresentada por aquele escriba foi, realmente, muito abrangente: "Qual é o principal de todos os mandamentos?" É provável que a resposta que ele recebeu foi muito diferente da que esperava. Seja como for, se ele pensava que nosso Senhor lhe recomendaria a observância de alguma cerimônia ou formalidade externa, estava enganado. Antes, ele ouviu essas solenes palavras: "Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo".

Quão notável foi a descrição feita por nosso Senhor, acerca dos sentimentos com que devemos considerar tanto a Deus quanto ao nosso próximo! Não é que meramente devamos obedecer a Deus e abster-nos de praticar o mal contra o próximo. Em ambos os casos, o nosso dever vai mais além disso. Porquanto a ambos devemos o amor, a mais forte e a mais abrangente de todas as afeições. Uma regra como essa inclui tudo. Ela torna todos os pequenos detalhes desnecessários. Coisa alguma faltará intencionalmente onde houver o amor.

Novamente, quão notável foi a descrição de nosso Senhor acerca da medida com que devemos amar tanto a Deus quanto ao próximo! Devemos amar a Deus mais do que a nós mesmos, com todas as energias do nosso homem interior. Nunca poderemos amar demais a Deus. Devemos amar ao próximo como a nós mesmos, tratando com ele em todas as áreas, conforme gostaríamos que ele tratasse conosco. A maravilhosa sabedoria dessa distinção é simples e clara. Facilmente podemos errar no tocante às nossas afeições para com outras pessoas, pensando a respeito delas ou a mais ou a menos. Portanto, precisamos amá-las como a nós mesmos, nem mais nem menos. Também não podemos errar em nossos afetos para com Deus, por amá-Lo em excesso. Ele é digno de tudo quanto Lhe possamos dar. Portanto, devemos amar a Deus de todo o nosso coração.

Guardemos sempre em nossas mentes essas duas grandiosas regras e usemo-las dia após dia em nossa jornada nesta vida. Vejamos nessas regras um sumário de tudo quanto devemos ter por alvo em nossa prática diária, no tocante a Deus e aos homens. Por meio delas, testemos cada\ dificuldade de consciência que tenhamos de enfrentar, quanto ao que é certo ou errado. Feliz é o homem que se esforça por moldar a sua vida de conformidade com essas duas regras.

Dessa breve exposição do verdadeiro padrão de conduta, aprendamos quão grande é a necessidade que todos, por natureza, temos da expiação e da mediação de nosso Senhor Jesus Cristo. Onde estão o homem ou a mulher que seriam capazes de dizer, com verdade, que eles têm amado perfeitamente a Deus e têm amado perfeitamente aos seus semelhantes? Onde está a pessoa, neste mundo, que, necessariamente, não se declare "culpada", quando julgada por uma lei como essa? Não admira que as Escrituras digam: "Não há justo, nem sequer um... visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei" (Rm 3.10,20). Somente a grosseira ignorância a respeito dos requisitos de Deus leva as pessoas a desvalorizarem o evangelho. A pessoa que tem a visão mais nítida sobre a lei moral será sempre a que tem o mais elevado senso do valor do sangue expiatório de Cristo.

Observemos também, nestes versículos, até onde um homem pode avançar na religião, sem, contudo, ser um verdadeiro discípulo de Cristo. O escriba, nesta passagem, evidentemente era um homem dotado de um conhecimento superior ao da maioria dos outros escribas. Ele percebia coisas que muitos escribas e fariseus de modo algum perceberam. As suas próprias palavras servem de forte comprovação desse fato: "Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele; e que amar a Deus de todo o coração, de todo o entendimento, e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios". Por si mesmas, essas palavras são admiráveis e duplamente marcantes, quando nos lembramos quem as proferiu e a que geração aquele homem pertencia. Não admira que logo em seguida leiamos que nosso Senhor disse: "Não estás longe do reino de Deus".

Contudo, não devemos fechar os olhos para o fato que, em parte alguma da Bíblia, somos informados que aquele homem veio a tornar-se um dos discípulos de nosso Senhor. Quanto a esse particular, só há um doloroso silêncio. A passagem paralela, no Evangelho de Mateus, não projeta qualquer luz sobre esse caso. As demais porções do Novo Testamento coisa alguma dizem a respeito dele. Somos deixados a extrair a triste conclusão de que, como o jovem rico, aquele escriba não conseguiu tomar a decisão de desistir de tudo e seguir a Cristo. Ainda podemos concluir que, tal como fizeram as principais autoridades mencionadas algures, ele também amou "mais a glória dos homens do que a glória de Deus" (Jo 12.43). Em suma, embora não "longe do reino de Deus", ele mui provavelmente nunca entrou nele e morreu fora do reino de Deus.

Casos como o daquele escriba, infelizmente, são muito comuns. Há milhares de pessoas, por toda a parte, que se assemelham a ele. Pessoas que muito percebem e muito compreendem acerca da religião verdadeira; no entanto, vivem e morrem indecisos. Poucas coisas há que sejam tão negligenciadas quanto essa. As pessoas participam de atividades religiosas, mas nunca se convertem e nunca são salvas. Que possamos notar bem o caso desse escriba e ter cuidado!

Que jamais confiemos as nossas esperanças de salvação ao mero conhecimento intelectual. Vivemos em uma época em que há grande perigo de fazê-lo dessa forma. A educação faz as crianças familiarizarem-se com muitos assuntos religiosos sobre os quais os seus pais eram totalmente ignorantes. Todavia, a educação, por si, jamais fará uma pessoa tornar-se cristã aos olhos de Deus. Não apenas devemos conhecer com as nossas mentes as doutrinas fundamentais do evangelho; também compete-nos acolhê-las no coração, deixando-nos guiar por elas em nossas vidas. Não descansemos até que nos encontremos dentro do reino de Deus, até que nos tenhamos arrependido verdadeiramente, até que tenhamos crido realmente e até que tenhamos sido feitos novas criaturas em Jesus Cristo. Se, porventura, descansarmos satisfeitos, somente por não estarmos "longe do reino de Deus", finalmente descobriremos que estamos proibidos de entrar nele para sempre.

Fonte:[Ortopraxia]

10 de mai. de 2010

A Nova e a Velha Cruz - A. W. Tozer


Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais. Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior.

A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai.
A nova cruz não se opõe a raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendemos bem, considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ele continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita em entoar hinos e a assistir filmes religiosos em lugar de cantar canções obscenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente.


A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contrário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento é mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.


A nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar num modo de vida mais limpo e agradável, resquardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: “Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo”; e declara ao egoísta: “Venha e Vanglorie-se no Senhor”.  Para o que busca emoções, chama: “Venha e goze da emoção da fraternidade cristã”. A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público. A filosofia por trás disto pode ser até sincera, mas sua sinceridade não impede que seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz. A velha cruz é um símbolo de morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano.


O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. Estava indo para o seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia. A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressuscitando-o em novidade de vida. O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.


Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócios, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato. Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possui-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele. 



O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado que quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagravo severo de Deus e reconhecer que merece a morte. Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o Salvador ressurreto e receber dEle a vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo. Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda a pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos. Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.

Fonte:
[Vemver tv blog]
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