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5 de set. de 2010

A Inaptidão Espiritual do Homem - James Montgomery Boice


Nossa cultura tem nos ensinado que para a humanidade "todas as coisas são possíveis". Assim, a idéia de que precisamos da graça divina para nos acharmos corretos diante de Deus nos parece errada. Consideramos que sempre será possível corrigir nossos relacionamentos com o Todo-poderoso. Se necessário, nós mesmos toma-remos conta disto na hora certa.

Aqueles que pensam assim, não conseguem apreciar outra doutrina bíblica: a inaptidão espiritual do homem ou, como é às vezes dito, a escravidão da vontade humana. Isto é verdade diante da declaração de Paulo de que "não há quem busque a Deus" (Rm 3.11). A razão pela qual ninguém busca a Deus é que, à parte da obra anterior de Deus no coração de um indivíduo, ninguém pode buscar a Deus — porque ninguém quer fazê-lo. Esta questão tem sido amplamente discutida na história da igreja. Era o assunto principal no desacordo entre o grande Agostinho e o monge britânico Pelágio; entre Martinho Lutero e o humanista holandês Erasmus de Rotterdam; e entre Jacob Arminius e os seguidores de João Calvino. Contudo, a mais profunda e mais significante opinião jamais dada sobre o assunto da vontade e sua impotência foi por Jonathan Edwards em um tratado denominado "A Careful and Strict Inquiry into the Prevailing Notions of the Freedom of the Will",[Uma cuidadosa e rigorosa pesquisa sobre as noções prevalecentes quanto à liberdade da vontade].

A primeira coisa que Edwards fez foi definir a vontade. Pensamos em vontade como aquela coisa em nós que faz as escolhas. Edwards viu que isto não era correto e então, definiu a vontade como "aquilo pelo qual a mente escolhe alguma coisa". Isto pode não parecer grande diferença, mas é muito significativo. Pois significa que o que escolhemos não é determinado pela vontade em si (como se fosse um ente próprio) mas pela mente, o que significa que nossas esco¬lhas são determinadas pelo que pensamos ser o curso de ação mais desejável.

A segunda maior contribuição de Edwards foi sua discussão do que ele chamou "motivos". Ele destacou que a mente não é neutra. Ela pensa que algumas coisas são melhores do que outras e porque algumas coisas são melhores do que outras ela escolhe as coisas melhores. Se uma pessoa pensou que um curso de ação era melhor que outro e ainda assim escolheu a alternativa menos desejável, a pessoa seria irracional. Isto significa, falando apropriadamente, que a vontade é sempre livre. E livre para escolher (e sempre escolherá) o que a mente pensa ser melhor.

Mas o que a mente pensa ser o melhor? Aqui chegamos ao coração do problema. Quando confrontada com Deus, a mente de um pecador nunca pensa que seguir ou obedecer a Deus é uma boa escolha. Sua vontade é livre para escolher Deus. Nada a está impedindo. No entanto, ele se vira contra Deus, mesmo quando o evangelho é mais atraentemente apresentado. As pessoas não querem que Deus seja soberano sobre elas. Elas não querem que suas naturezas pecadoras sejam expostas. Suas mentes são erradas neste julgamento, é claro. A maneira como elas escolhem é, naturalmente, uma forma de alienação e miséria, o fim do qual é a morte. Mas os seres humanos pensam que o pecado é melhor, razão pela qual o escolheram. Portanto, a menos que Deus mude a maneira de pensarmos — o que ele faz em alguns pelo milagre do novo nascimento — nossas mentes sempre nos dirão para nos virarmos contra Deus — o que é precisamente o que fazemos.

  
As pessoas que rejeitam isto podem arguir: "Mas com certeza a Bíblia diz que qualquer que esteja destinado a vir a Cristo virá a ele. Jesus não nos convidou a vir? Jesus não disse, 'o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora'?" (Jo 6.37) Sim, isto foi o que Jesus disse, mas não é a questão aqui. Certamente, qualquer um que queira vir a Cristo pode vir a ele. Esta é a razão pela qual Edwards insistiu que a vontade não é escrava. Mas quem é que quer vir? A resposta é: Ninguém, exceto aqueles nos quais o Espírito Santo já realizou a obra inteiramente irresistível do novo nascimento, de tal forma que, como resultado deste milagre, os olhos espiritualmente cegos do homem natural são abertos para ver a verdade de Deus e a mente totalmente depravada do pecador, que em si mesmo não possui entendimento espiritual, é renovada para abraçar o Senhor Jesus Cristo como Salvador. Esta é a doutrina que pouquíssimos cristãos professos de nossos dias acreditam ou entendem, incluindo a grande maioria de evangélicos, o que é outra razão, talvez a mais séria, porque eles acham a graça entediante.

Fonte:[Josemar Bessa ]

23 de ago. de 2010

Herdeiros da Ira de Deus – Thomas Watson – (1620-1686)



a. Sob o poder de Satanás

A primeira desgraça é que, pela natureza, estamos "sob o poder de Satanás", que é chamado de "o príncipe da potestade do ar" (Ef 2.2). Antes da queda, o homem era um cidadão livre, agora é um escravo; antes, um rei em seu trono, agora, está em grilhões. A quem o homem está escravizado? Aquele que é seu inimigo. Isso tornava pior o cativeiro de Israel. "Sobre eles dominaram os que os odiavam" (SI 106.41). Pelo pecado somos escravizados a Satanás, inimigo da humanidade, que escreve todas as suas leis com sangue. Os pecadores, antes da conversão, estão sob as ordens de Satanás; como o asno está sob o comando do condutor, assim ele conduz todos que labutam pelo mal. Assim que Satanás tenta, eles obedecem. Como o navio está sob o comando do piloto, que o guia pelos caminhos que quiser, assim é o pecador sob o comando de Satanás: e este sempre conduz o navio para o inferno. O maligno dirige todos os poderes e todas as faculdades do pecador.

i.       Satanás dirige o entendimento. Ele cega os homens com ignorância e. depois, dirige-os. Como os filisteus arrancaram os olhos de Sansão e, assim, o amarraram, Satanás pode fazer o que quiser com um homem ignorante, uma vez que ele não enxerga o erro em seu caminho, o mal pode guiá-lo a qualquer pecado. Você pode guiar um cego para onde quiser, pois todo o pecado está fundamentado na ignorância.

ii.      Satanás dirige a vontade. Embora ele não possa obrigar, pode, pela tentação, atrair. "Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos" (Jo 8.44). Ele toma os corações, e estes, passam a lhe obedecer. "Queimaremos incenso à Rainha dos Céus" (Jr 44.17). Quando o mal instiga um pecador com a tentação, ele irá atropelar e quebrar todas as leis de Deus, de maneira a obedecer Satanás. Onde está, então, o livre-arbítrio, quando Satanás exerce tal poder sobre a vontade? "E quereis satisfazer-lhe os desejos." Não há uma só parte do corpo que não esteja a serviço do mal: a cabeça planeja o pecado, as mãos o executam, os pés correm para executar a tarefa do maligno. Cícero dizia: "A escravidão é odiosa para um espírito nobre". Satanás é o pior tirano. A crueldade de um canibal ou de Nero é nada para ele. Outros tiranos governaram sobre o corpo, ele governa sobre a consciência. Outros tiranos mostraram alguma misericórdia para com seus escravos: ainda que trabalhassem nas galés, eles lhes davam carne, davam-lhes horas de descanso. Satanás é um tirano impiedoso: não dá descanso. Quanto pesar Judas suportou. O diabo não lhe deu nenhum descanso até que traísse Cristo e, depois, encharcasse as mãos em seu próprio sangue.

APLICAÇÕES

Primeira aplicação: veja nossa desgraça causada pelo pecado original, escravizados a Satanás. Efésios 2.2 diz que Satanás atua absolutamente nos filhos da desobediência. Que triste praga é para um pecador estar a serviço do mal. Exatamente como um escravo, se os senhores mandam que cave nas minas, quebre pedras nas pedreiras ou puxe os remos, ele tem de obedecer, não ousa recusar. Se o diabo manda que um homem minta ou roube, ele não se recusa e, o que é pior, voluntariamente obedece a esse tirano. Outros escravos são forçados contra sua vontade: "os filhos de Israel gemiam sob a servidão" (Êx 2.23). Os pecadores, porém, estão dispostos a serem escravos, não escolhem a liberdade, mas beijam seus grilhões.

Segunda aplicação: trabalhemos para sair dessa condição deplorável na qual o pecado nos afunda, saindo debaixo do poder de Satanás. Se qualquer um de seus filhos fosse feito escravo, você daria grandes somas de dinheiro para resgatar sua liberdade. Quando, então, suas almas estão escravizadas, não devemos lutar para libertá-las? Promova o evangelho. O evangelho proclama alegria para os cativos. O pecado prende os homens, porém o evangelho os liberta. A pregação de Paulo era "para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus" (At 26.18). A estrela do evangelho guia a Cristo e, se tiverem Cristo, então serão livres, embora não da existência do pecado, mas da tirania de Satanás. "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" (Jo 8.36). Vocês desejam ser reis para reinarem no céu e vão deixar que Satanás reine em vocês? Não pensem em ser reis quando morrerem e escravos enquanto viverem. A coroa de glória é dos vencedores, não dos cativos. Então, saia da jurisdição de Satanás, deixe que seus grilhões de pecado sejam eliminados pelo arrependimento.

b. Herdeiros da ira de Deus

"Éramos por natureza filhos da ira." A explanação que Tertuliano faz dessa passagem está errada, pois ele entende a expressão "filhos da ira" de maneira subjetiva, ou seja, sujeitos à ira e à cólera, transgressores freqüentes na irascível faculdade de um espírito irado. Por "filhos da ira", o apóstolo, passivamente, quer dizer herdeiros da ira, expostos à cólera de Deus. O Senhor, no passado, foi um amigo, porém, o pecado quebrou os laços de amizade. Agora, o sorriso de Deus se transformou numa carranca. Julgados no tribunal, fomos feitos filhos da ira. "Quem conhece o poder da tua ira?" (SI 90.11). "Como o bramido do leão, assim é a indignação do rei" (Pv 19.12). Como o coração de Hamã não deve ter tremido, quando o rei, enfurecido, levantou-se durante o banquete (Et 7.7).

A ira de Deus, todavia, é infinita, outras iras são somente fagulhas: em Deus, a ira não é passional, como em nós; é, antes, uma ação da santa vontade de Deus, pela qual ele execra o pecado e decreta a sua punição. Essa ira é muito triste e é ela que acirra a aflição desta vida, como quando vem a doença, atendendo à cólera de Deus, e a consciência entra em agonia. A mistura do fogo com a saraiva deixa a situação mais terrível (Ex 9.24). Portanto, a mistura da ira de Deus com a aflição produz algo torturante: é um cravo a mais no jugo. A ira de Deus, mesmo só ameaçadora (como o aguaceiro suspenso nas nuvens) fazia as orelhas de Eli tinirem; o que dizer, então, de quando a ira é efetuada? É terrível quando o rei avalia e censura um traidor, mas, é muito mais terrível quando ele o manda para o cavalete ou para ser moído na roda. "Quem conhece o poder da ira de Deus?"

Enquanto formos filhos da ira não podemos fazer nada com as promessas, elas são como a árvore da vida, produzindo muitos tipos de fruto, mas da qual não temos o direito de tirar nem uma só folha. "Filhos da ira" (Ef 2.3), "estranhos às alianças da promessa" (Ef 2.12). As promessas são como uma fonte selada. Enquanto estivermos no estado natural, não vemos nada a não ser a espada flamejante, como diz o apóstolo: "Pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador" (Hb 10.27). Enquanto formos filhos da ira, estamos todos "debaixo da maldição" (Gl 3.10). Como o pecador pode comer e beber estando em tal condição? É como Dâmocles, no banquete, que ao sentar para a refeição principal tinha uma espada sobre sua cabeça, pendurada somente por um fio, por isso não podia comer. Assim é a espada da ira e da maldição de Deus, suspensa a todo o tempo sobre o pecador. Lemos sobre um rolo voador, cheio de maldições (Zc 5.3). Um rolo com maldições vai contra cada pessoa que vive e morre em pecado. A maldição de Deus arruina tudo por onde passa. Há uma maldição sobre o nome do pecador, uma maldição sobre sua alma, uma maldição sobre seu estado e sobre sua posteridade, uma maldição sobre a lei. É muito triste se tudo o que o homem comer se transformar em veneno; assim, o pecador come e bebe a própria condenação à mesa de Deus. É assim antes da conversão. Como o amor de Deus transforma qualquer coisa amarga em doce, do mesmo modo a maldição de Deus transforma tudo o que for doce em amargo.

Observe nossa desgraça por causa da queda. "Herdeiros da ira." E esse um estado em que devemos descansar? Se um homem ficar sob a ira do rei não irá se esforçar para se reintegrar a seu favor? Fujamos da ira de Deus. E para onde podemos fugir, senão para Jesus Cristo? Não existe nada mais que nos proteja da ira de Deus. "Jesus, que nos livra da ira vindoura" (lTs 1.10).

Fonte: [Josemar Bessa]

9 de mai. de 2010

Deus tem Inimigos?


Por Jorge Fernandes Isah

É interessante que afirmamos o tempo todo ser satanás e o réprobo inimigos de Deus. Damos tanta atenção a alguns aspectos que existe uma legião de crentes capaz de considerar o diabo como um inimigo de Deus, estando no mesmo pé de igualdade, à Sua altura; quase como se fosse um “Deus”. Mas biblicamente, o que nos é dito? Eles são rivais? De certo modo, é verdade. Mas Deus tem inimigos? Sob qual ponto de vista Ele tem inimigos?

A palavra inimigo quer dizer:

1) Segundo o Priberan: adj. s. m. 1. Hostil, contrário a. 2. Que aborrece ou quer mal. 3. Que milita em facção oposta. 4. Com quem se anda em guerra. s. m. 5. Pop. Diabo.

2) Segundo o Michaelis: adj (lat inimicu) 1. Que não é amigo. 2. Adverso, contrário, hostil. 3.Indisposto, malquistado. 4. Adversário. sup abs sint: inimicíssimo. sm 1. Pessoa que tem inimizade a alguém. 2. Nação, tropa, gente com quem se está em guerra. 3. O diabo, o demônio. 4. O que tem aversão a certas coisas.

Definido o termo, há dois aspectos a serem ponderados:
1)  Num sentido, Deus tem inimigos, como a própria Bíblia afirma. Se considerarmos que satanás e os réprobos fazem oposição a Ele, desobedecendo-o, em rebeldia, entendemos que há inimizade entre eles. Como os desejos do diabo e dos ímpios serão sempre contrários aos divinos, podemos declarar que o Senhor tem inimigos. E, na verdade, Deus odeia tudo quanto eles fazem [logo, odeia-os também], porque suas ações são sempre antagônicas à santidade e perfeição divinas.

2) Em outro sentido, não há como sustentar a afirmação. Por que? Tanto o diabo como os réprobos foram criados com um propósito claro e definido. Como criaturas, estão sujeitos à vontade do Criador, e não são seres autônomos que podem fazer o que lhes “der na telha”, mas estão a cumprir rigorosamente todo o plano soberano de Deus, sem que nenhum dos seus atos e vontade estejam alheios a Ele, que os mantém sob o Seu serviço, às Suas ordens, como subordinados e completamente dependentes dEle. Portanto, o Senhor não tem inimigos, mas subalternos.

Parece algo conflituoso, mas não é. Veja bem: do ponto de vista de se oporem a Deus, de trabalharem contra, dando vazão à natureza rebelde, e assim desobedecê-lo, satanás e os réprobos são inimigos. Mas dentro do decreto eterno, onde todas as coisas, inclusive os anjos caídos e os ímpios, encontram-se na categoria de forjados, talhados e moldados pelo Criador para cumprirem Seus santos e perfeitos desígnios... sendo como tudo o mais criação e criaturas; sendo o poder delas proveniente, secundário e ordenado; sendo o Senhor Todo-Poderoso e não havendo“força” que possa confrontá-lo, nem impedi-lo de realizar qualquer dos seus propósitos... Deus não tem inimigos. Deve-se frisar que mesmo os atos pecaminosos e frontalmente contrários a Deus, executados pelas criaturas, foram por Ele determinados e ordenados antes da fundação do mundo.

Qual demônio ou mesmo legiões de demônios, homem ou elemento da natureza pode agir livremente e eficientemente impugná-lo? Quando digo livremente, estou a dizer a possibilidade de uma vontade neutra, sem coerção ou influências, o que, entre as criaturas, é impossível. Todos, sem exceção, até mesmo Adão e Eva no Éden estão sujeitos a algum tipo de constrangimento; quanto aos elementos da natureza, eles não têm vontade, logo, não lhes é possível fazer escolhas.

Deve-se entender que a natureza caída do homem exerce influência nele, e ele se opõe pela força da sua natureza, a qual o leva a escolher se rebelar. Com isso não quero dizer que o homem é escravo de sua natureza, no sentido de dominá-lo à força, mas o intelecto, as vontades e decisões trabalham em comum acordo, em sintonia, cumprindo o intento de se rebelar contra Deus assim como a natureza pecaminosa do homem quer fazê-lo.

Por eficiência, digo que se refere ao fato do homem se rebelar e levar a melhor contra Deus, tendo a mais insignificante e irrisória possibilidade de vitória. Ninguém pode derrotá-lo. Ainda que alguns achem possível, e o diabo especialmente parece disposto e empenhado em infligir-lhe um revés... Como isso aconteceria?

Criaturas não-eternas não podem vencer o Eterno. Criaturas não-infalíveis não podem vencer o Infalível. Criaturas não-soberanas não podem vencer o Soberano. Criaturas não-santas não podem vencer o Santo. Criaturas não-perfeitas não podem vencer o Perfeito. Em todos os aspectos, satanás e os réprobos já estão derrotados, antes mesmo da fundação do mundo; na verdade, foram criados para a perdição eterna, a derrocada inevitável, sem a menor chance de vitória.

Portanto, pode Deus ter inimigos? Sim e não. Não há nenhum paradoxo ou mistério nesta assertiva. Apenas são faces diferentes de uma mesma moeda, na qual Deus usa de uma linguagem antropomórfica para que entendamos a Sua relação como Criador com a obra de Suas mãos: anjos, homens e a natureza. No fundo, tudo se resume em: ainda que Deus tenha inimigos, eles nada podem fazer contra Ele, pois, na condição de servos, resta-lhes obedecê-lo ainda que na desobediência. Se quisesse, o Senhor já tê-los-ia destruído, assim como tudo o que criou e que pode ser chamado e colocado no rol de "inimigo".

Deus não tem inimigos pois não há ninguém, nem força alguma capaz de confrontá-lO; algo que possa, de alguma forma e alheio ao Seu controle, opor-se deliberadamente. Ou seja, nada se resolve sem a aquiescência divina; nenhum ato é possível independente dEle; mesmo o mal, o pecado, a rebeldia, a obstinação pecaminosa, todos foram traçados e estão diante dos Seus olhos eternamente.

E assim, quer por bem ou por mal, o homem, seja natural ou espiritual, glorifica-lo-á,  assentindo ou não, na salvação ou condenação, pois toda a vontade decretiva divina se cumprirá inexorável e infalivelmente. Por que, no fim, toda a criação objetiva a glória de Deus.

E Ele é e será glorificado; ontem, hoje, sempre.



Fonte: [Kálamos]

21 de abr. de 2010

A Pessoa com a Bíblia: Culpada – Francis Schaeffer


  • O Deus que já não honramos mais.
  • Por que Deus nos protegeria?

Enquanto Paulo começa em Romanos 2.17 falando diretamente aos judeus, lembre-se de que, hoje em dia, eles representam um povo com a Bíblia. Será que, no nosso caso, que temos a Bíblia em nossas estantes, nós que contamos com a igreja no nosso meio, nós que temos uma cultura gerada pela Reforma, temos o bastante para a salvação?

Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, repousas na lei e te glorias em Deus. (2.17)

"Repousas na lei" deve nos lembrar do que acabamos de ler em Sofonias 3.11. Paulo está falando ao povo que se tornou soberbo em razão de o "santo monte" (Sf 3.11)encontrar-se bem no meio deles. E eles "repousam" neste fato.

... que conheces a sua vontade... (2.18a)

Mas o que os judeus tem? Eles têm a Bíblia. Como dirá Paulo mais tarde, "Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus" (3.1-2). A principal vantagem que os judeus tiveram em relação a todas as demais pessoas era que eles tinham a Bíblia. Eles conheciam a vontade de Deus (2.18). Eles confiavam nisto(2.17). Contudo, havia aí um problema muito sério: ter esta bênção tão especial os tornou soberbos. E aí é precisamente que muitas pessoas se encontram hoje. Repare em todas aquelas catedrais da Europa. As pessoas ouvem os sinos da catedral. Não basta? Elas têm suas crianças batizadas, crismadas, confirmadas. Elas realizam seus casamentos na igreja. Não basta?

E a mesma mentalidade é encontrada nos Estados Unidos. Temos uma das maiores porcentagens de pessoas freqüentadoras de igrejas de todos os tempos - maior até do que nos tempos em que as pessoas realmente acreditavam em alguma coisa! Ainda assim, Deus está dizendo aos judeus lá do primeiro século, mas igualmente a muitas pessoas do nosso próprio tempo, que toda essa herança judaica (ou cristã) não representa mais do que um grão de areia. Tudo isso só condena você ainda mais!

Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, repousas na lei e te glorias em Deus; que conheces a sua vontade, e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; que estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade; tu, pois, que ensinas a ou trem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Dizes que não se deve cometer adultério, e o cometes? Abominas os ídolos, e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa. (2.17-24)

Que terrível! Lá estão os judeus, que haviam sido destinados a revelar a imagem do Deus vivo a um mundo perdido (2.19-20), e não obstante eles só conseguiam ver a sua missão como um motivo para soberba (2.17, 23).Vemos o mesmo problema entre os cristãos de hoje. O que você acha que é para um missionário a coisa mais difícil de encarar no início de um ministério novo? Não conheço um único missionário que discordasse que o maior problema que tem de enfrentar é o dos que estiveram lá antes deles e que passaram ser associados à palavra cristão nas mentes das pessoas do local. Quando Livingston tentou pregar o evangelho na África, teve de encarar o fato de que as pessoas relacionavam o Cristianismo aos portugueses, que foram traficantes de escravos naquela parte do mundo. Até recentemente, o maior problema que os missionários enfrentavam nas regiões muçulmanas era que os muçulmanos, que não devem beber vinho, associavam os cristãos aos mercadores que lucravam com a venda daquela mercadoria que eles mesmos não podiam comercializar. Quando pessoas com a Bíblia - sejam elas judias ou cristãs - têm este tipo de comportamento, ao invés de irradiarem luz estão disseminando a escuridão.

Normalmente associamos a palavra missionário ao Cristianismo, mas os judeus dos tempos do Antigo Testamento eram todos, em certo sentido, chamados para ser missionários. O livro de Jonas é o melhor exemplo disso. Quando pensamos em Jonas, é claro que pensamos no grande peixe, mas a história de Jonas é importante, principalmente, como exemplo do fracasso de Israel em proclamar a sua mensagem missionária. Jonas foi chamado a pregar em Nínive, mas ao invés de aceitar este chamado missionário, ele pegou um barco que estava zarpando na direção oposta a Nínive.

Ezequiel também fala do fracasso de Israel em sua missão: "Assim diz o SENHOR Deus: Esta é Jerusalém; pu-la no meio das nações e terras que estão ao redor dela. Ela, porém, se rebelou contra os meus juízos, praticando o mal mais do que as nações, e transgredindo os meus estatutos mais do que as terras que estão ao redor dela" (Ez 5.5-6a).Deus pôs Jerusalém no meio das outras nações com certo propósito. O propósito de Israel era falar da existência de Deus e de seu caráter e chamar as outras nações para Deus. Jonas é um bom exemplo do fracasso de Israel em fazer isso, mas ele não é, sob hipótese alguma, o único. Os judeus deviam ser um testemunho de Deus, mas, ao invés disso, diz Ezequiel, eles representaram exatamente o contrário. Desde os tempos do cativeiro na Babilônia, os judeus foram espalhados pelo mundo conhecido. Se eles apenas tivessem ficado firmes em Deus! Mas, como Jonas ilustra, e Ezequiel disse, e Paulo está dizendo em 2.17-24, eles fizeram exatamente o oposto. Quando Salomão dedicou o Templo, ele declarou que o mesmo se tornaria a "Casa de Oração de todos os povos" (veja 2Cr 6.32; Is56.7; Mt 21.13). Mas acabou ocorrendo precisamente o contrário.
O templo devia ser um testemunho ao mundo de que Deus existe, de que ele realmente está aí. A realidade de Deus deveria ser vista por meio da retidão de vida das pessoas que ministravam na sua casa. Também deveria se tornar manifesta pela forma como Deus protegia o seu povo na batalha. Sendo este um mundo caído, a nação escolhida por Deus necessitaria de tempos em tempos da sua proteção na batalha, e sua intenção era oferecer a eles esta proteção, como teste¬munho para as nações. Mas, devido ao seu pecado, Deus parou de protegê-los e todas as nações podiam agora dizer "o Deus deles é igualzinho a todos os outros". A imoralidade de Israel levou todas as outras nações a blasfemar (2.24) contra Deus. Israel deveria ser uma demonstração viva do fato de que Deus está aí. Ao invés disso, em razão de seu pecado e conseqüente serre de derrotas na batalha, as outras nações diziam que "o Deus de Israel não está aí".

Para aplicar um termo neotestamentário à situação de Jonas, por causa de ele tomar a direção oposta, o evangelho não foi pregado a Nínive (até que Jonas se arrependesse). Devido ao pecado tão freqüente de Israel, o bom caráter de Deus não era mostrado ao mundo. Como Isaías expressou, ao invés de trazer à tona algo equiparável a um nascimento espiritual, Israel só conseguiu constatar que "o que demos à luz foi vento" (Is 26.18).

Infelizmente, o mesmo pode muitas vezes ser aplicado aos cristãos de hoje. Mais do que freqüentemente as pessoas de outras religiões que vieram a ter contato com cristãos afastaram-se com repulsa. Praticamente todos os líderes de seitas do mundo de hoje foram formados nas nossas universidades e delas saíram intocados e sentindo repulsa. Ao mesmo tempo, Deus muitas vezes também retirou a sua mão protetora, permitindo que os povos pautados pelo Cristianismo caíssem sob a influência de ideologias tais como o comunismo ateísta ou religiões pagãs do oriente. Nossa situação é perfeitamente paralela àquela dos judeus nos tempos bíblicos. Tanto os judeus daquela época quanto os cristãos de hoje falharam em manifestar para todo o mundo o fato de que Deus realmente existe. Por isso, como Ezequiel prossegue dizendo, "assim serás objeto de opróbrio e ludibrio, de escarmento e espanto às nações que estão ao redor de ti, quando eu executar em ti juízos com ira e indignação, em furiosos castigos. Eu, o SENHOR, falei" (Ez5.15).

Que triste situação. Lá estão as nações; elas deveriam estar olhando para Israel e vendo que Deus existe. Mas ao invés disso, Deus teve de julgar Israel. De fato ele usou estas mesmas nações inimigas para julgar Israel. Ao invés de olhar para Israel e reconhecer a Deus, eles destruíram Israel, ao mesmo tempo em que blasfemavam contra o seu Deus. E é isso precisamente que Paulo está dizendo emRomanos 2: "Em cada área da vida em que você deveria ter sido um testemunho; ao invés disso, você se mostrou pecaminoso e orgulhoso, e por isso Deus teve que avisá-lo. E isso, por sua vez, levou as outras nações a blasfemar contra o seu Deus".

O que nós, que somos parte da cristandade do século 20, podemos fazer, além de nos vestirmos de pano de saco e nos cobrir de cinzas e dizer "amém. A que ponto foi que chegamos. Somos motivo de blasfêmia. Deus já não nos pode proteger"? Até os nossos dias, todas as maiores nações "cristãs" da história ficaram sabendo da verdade, mas acabaram deliberadamente por dar-lhe as costas. Tudo o que podia ser dito contra os judeus dos tempos de Paulo pode ser dito agora contra nós. Ao invés de sermos missionários, temos dado motivos de blasfêmia aos incrédulos. Nós não apenas deixamos de pregar a mensagem positiva da salvação, mas estamos pregando, ao invés disso, uma mensagem contrária, e temos dado motivos aos incrédulos para se desviarem de um Deus que nós já não honramos.

Alguns capítulos adiante, Ezequiel diz o seguinte aos habitantes de Judá, o reino do extremo sul: "Também Samaria não cometeu metade de teus pecados; pois tu multiplicaste as tuas abominações mais do que elas, e assim justificaste a tuas irmãs, com todas as abominações que fizeste. Tu, pois, leva a tua ignomínia, tu que advogaste a causa de tuas irmãs, pelos teus pecados, que cometeste mais abomináveis do que elas; mais justas são elas do que tu; envergonha-te logo também, e leva a tua ignomínia, pois justificaste a tuas irmãs" (Ez 16.51-52).Então, no versículo 56: "Não usaste como provérbio o nome Sodoma, nos dias de tua soberba". E, mais adiante, no versículo 61: "Então, te lembrarás dos teus caminhos e te envergonharás quando receberes as tuas irmãs, assim as mais velhas como as mais novas, e tas darei por filhas". Em outras palavras, Ezequiel está dizendo que os judeus dos seus dias eram piores até mesmo do que os notórios sodomitas. Jesus mesmo disse algo semelhante dos judeus do seu próprio tempo, que "se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje" (Mt 11.23).

É neste ponto em que estamos em nossa própria cultura cristã hoje. Eu não aprecio o comunismo, mas eu acredito que a China comunista não é tão má aos olhos de Deus quanto a nossa própria cultura. Nós, que vivemos no norte da Europa e na América do Norte, desde a Reforma temos sido em muito abençoados pelas luzes da verdade. Entretanto, nós nos desviamos deliberadamente dela. Quando eu ouço Paulo perguntar aos judeus da sua época:"vocês estão achando que serão salvos, só porque são judeus, enquanto que, na verdade, vocês têm sido um motivo de blasfêmia para as nações?" Tenho certeza de que Deus está fazendo a mesma pergunta aos que se chamam cristãos no norte da Europa e na América do Norte hoje em dia. Estamos sendo um motivo de blasfêmia. Isso não é nenhuma desculpa para o outro lado, o das pessoas sem a Bíblia; como vimos anteriormente (1.18—2.16), elas serão condenadas do mesmo jeito. Mas não temos desculpa alguma. Não podemos dizer "nós é que estamos certos. Certamente Deus vai nos proteger". Por que ele deveria? Somos uma blasfêmia contra Ele!

Paulo declarou que tanto os gentios quanto os judeus de seus dias estavam sob a ira de Deus. Em 3.9-20 ele dirá a mesma coisa, em maiores detalhes, chegando ao ponto mais alto com esta con-clusão tão citada: "pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (3.23), que é uma outra forma de dizer que "todos estão sob a ira de Deus". Ou como em Isaías: "Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas" (Is 53.6). Quem precisa de Salvador? O gentio pecou; o judeu pecou. O homem sem a Bíblia pecou; o homem com a Bíblia pecou. Quem precisa do Salvador? A resposta nos parece agora bastante simples, não é? Todo mundo, homens e mulheres, precisam do Salvador! E, se quisermos viver no mundo como ele é, e não em algum mundo de faz de conta, teremos de viver sob estas condições. Quando as pessoas nos perguntam:"Quem precisa de Salvador?", devemos responder muito calmamente, muito sobriamente, e com real compaixão que "todos pecaram e carecem da glória de Deus".

Quando consideramos que Paulo estava falando de todos os judeus e de todos os gentios como sendo pessoas igualmente pecadoras aos olhos de Deus, é importante que nós, os cristãos de hoje, não olhemos para trás, para os leitores do primeiro século, como se nos encontrássemos acima deles. Como Paulo nos lembra em Efésios 2.3, nós"éramos por natureza filhos da ira", não passávamos do pior e mais desnorteado tipo de pecador. Todos nós temos estado sob a ira de Deus. Se tivermos aceitado Cristo como nosso Salvador, a ira de Deus já não estará mais sobre nós. Mas isso não se deve a alguma coisa de nós mesmos, alguma coisa que esteja embutida em nossa herança genética, ou em nossa cultura cristã. Se não estamos sob a ira de Deus neste preciso momento, isso se deve tão somente ao fato de que, devido à sua graça, Cristo morreu por nós e, igualmente pela sua graça, nós o aceitamos como Salvador. Não podemos supor termos sido resgatados graças à bondade inerente de qualquer um que ainda se encontra sob a ira de Deus. Sempre que analisamos a ira de Deus contra o mundo pecaminoso, a postura certa é a que diz: "Eu já estive nesta posição eu mesmo, e lá eu mereceria estar, se não fosse a obra consumada de Jesus Cristo". É somente no espírito desta humilde constatação que ousamos prosseguir.

                                                                                                                             Francis Schaeffer

Fonte: [Josemar Bessa]

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