12 de ago de 2010

Cinco coisas que a mortificação não significa – John Owen (1616 –1683)



i) Mortificar o pecado não é destruí-lo completamente e erradicá-lo do coração. É certo dizermos que esse é o alvo da mortificação, no entanto trata-se de um alvo que não atingiremos nesta vida. Não há dúvida de que o cristão pode esperar triunfos maravilhosos sobre o pecado com a ajuda do Espírito e da graça de Cristo, e isso, de tal maneira que ele pode obter vitória quase constante sobre o pecado. Contudo, não deve esperar a destruição total e a erradicação do pecado nesta vida. Paulo nos assegura disso em Filipenses, capítulo 3. Paulo sabia que a despeito de tudo o que havia alcançado, ainda não era perfeito (v. 12). Este conhecimento não impediu que "um corpo de humilhação" (ou seja, um corpo que ainda tem o pecado habitando nele) fosse transformado pelo poder de Cristo na Sua volta (v. 21).

Deus opera para que por nós mesmos não sejamos completos em coisa alguma, a fim de que em todas as coisas sejamos completos em Cristo (Col. 2:10).

ii)      Mortificar o pecado não é tentar mascará-lo (e isto, na verdade, não precisaria ser dito!). E triste se dizer que uma pessoa pode exteriormente abandonar a prática de muitos pecados enquanto ainda tem o desejo de praticá-los. Outras pessoas podem pensar que ela é uma pessoa transformada. Mas tal pessoa só fez acrescentar aos seus outros pecados o maldito pecado da hipocrisia e, dessa forma, se pôs num caminho mais acertado para o inferno.

iii)     Mortificar o pecado não significa necessariamente cultivar uma natureza quieta e sossegada. Muitas pessoas são, por natureza, abençoadas com um temperamento agradável. São pessoas que sabem levar a vida e não se inclinam a perder o controle. Ora, tais pessoas podem cultivar e melhorar sua natureza agradável pela disciplina, pela consideração e pela prudência e dar a si mesmas e aos outros a aparência de serem muito espirituais. O grande problema é que uma pessoa pode ser perturbada pela ira e pela paixão apenas raramente, enquanto outra pessoa tem que lutar com esses pecados ou paixões todos os dias; mesmo assim pode ser que a segunda pessoa tenha feito mais para mortificar o pecado do que a primeira pessoa. Que a primeira pessoa se julgue por seu egoísmo, sua incredulidade, sua inveja, ou algum pecado espiritual semelhante. Isso lhe dará uma compreensão melhor do seu verdadeiro estado diante de Deus.

iv)     Um pecado não é mortificado quando é tão somente desviado numa outra direção. Simão abandonou sua prática de magia por algum tempo; mas sua ambição e sua cobiça que lastreavam-se por trás dela permaneceram e atuaram de outra maneira (veja Atos 8:9-24). A despeito da sua aparente nova maneira de viver (v. 13) ele ainda se encontrava "em fel de amargura e laço de iniqüidade" (v. 23). Quem quer que seja que substitua o mundanismo pelo orgulho, ou a sensualidade pelo legalismo, não precisa pensar que o pecado supostamente deixado para trás foi mortificado!

v) A vitória ocasional sobre o pecado não significa mortificação. Olhemos para dois exemplos disso:

(a)     Certo pecado se manifesta e traz terror à consciência - o terror de um eventual escândalo bem como o medo do desprazer de Deus. Isso pode produzir o efeito de acordar a pessoa de uma dormência espiritual, e por algum tempo ela evidencia uma atitude de total aborrecimento de tal pecado e de estar de sobreaviso a seu respeito. O pecado, porém, permanece como antes, não foi mortificado. O pecado é como um inimigo que sorrateiramente entrou no acampamento e matou um dos capitães. Os guardas, imediatamente, se colocam em alerta e por todo o acampamento procuram encontrar o inimigo. O inimigo se esconde enquanto os guardas vasculham o acampamento. Durante certo tempo pode parecer que o inimigo foi expulso; mas ele não foi molestado c aguarda a oportunidade de proceder da mesma maneira outra vez.

(b)     Num tempo de algum juízo, calamidade ou aflição que oprime, o coração se preocupa em como se aliviar dessas coisas. Uma pessoa pode crer que tal alívio só será obtido lidando com o seu pecado, e resolve abandoná-lo. O pecado, porém, é tão enganoso que se contenta em permanecer quieto por algum tempo, dando a aparência de ter sido mortificado. Está, contudo, longe de ter sido mortificado e mais cedo ou mais tarde se manifestará, vivo, novamente. No Salmo 78:32-37 há uma excelente ilustração de tudo isto. Quando as provações vieram, essas pessoas foram rápidas em se voltar para o Senhor. Fizeram-no "fervorosamente" com zelo e diligência; entretanto seus pecados não haviam sido mortificados, (vs. 34,37).

Dessa e de muitas outras maneiras as pobres almas podem se enganar e pensar que têm mortificado seus maus desejos quando realmente os pecados ainda estão vivos e estão esperando por ocasiões adequadas para irromperem e perturbarem a sua paz.

Fonte: [Josemar Bessa]

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