11 de ago de 2010

A Cruz como Satisfação – J. Montgomery Boice



Começo com satisfação porque satisfação tem a ver com o caráter de Deus o qual temos ofendido. Tem a ver com pecado. Satisfazer significa fazer uma reparação pelo dano feito, fazer emendas, ou providenciar compensação. Neste caso o dano é à lei e honra de Deus. Não podemos entender a cruz até que levemos a sério a honra de Deus.

Anselmo de Canterbury era um italiano que se estabeleceu na França mas foi apontado arcebispo da Inglaterra em 1093, vinte e sete anos depois da conquista normanda. Sua maior contribuição à teologia foi à doutrina da Expiação num trabalho intitulado Cur Deus Homo? Que significa "Por que o Deus-Homem?" ou, para colocar em linguagem mais coloquial, "Por que Deus se tornou homem?" O livro explica a Encarnação pela Cruz, argumentando que Deus se tornou homem para fazer uma expiação pelo pecado como o único funda-mento possível para nossa salvação.

Anselmo começou com uma definição de pecado, a qual explicou como uma ofensa infinita do homem contra a honra de Deus. E "não atribuir a Deus o que lhe é devido" (i, xi). Sendo uma desobediência indesculpável da conhecida vontade de Deus, o pecado o insulta. "Nada é menos tolerável, na ordem das coisas, do que a criatura tirar a honra devida ao Criador e não retribuir o que tirou" (i, xiii). Deus deve agir justamente e, "se não cabe a Deus fazer qualquer coisa injustamente ou fora de ordem, não pertence à sua liberdade ou amor ou vontade perdoar sem punição ao pecador que não retribui a Deus o que tomou" (i, xii); "Deus não mantém nada mais justo do que a honra de sua dignidade" (i, xiii), escreveu Anselmo.
Mais tarde escritores chamaram a atenção para os perigos em tal linguagem — imaginar um padrão fora de Deus que deva ser satisfeito ou restringir o significado da Cruz a uma simples transação de débito. Mas Anselmo não era tão simplista assim. Ele sabia que o padrão que precisava ser satisfeito é o próprio caráter de Deus, o que ele é em si mesmo mas expressa externamente em sua lei. Ele também sabia que a linguagem a respeito de pagar um débito é somente metafórica. O que é importante é que no início de seu trabalho Anselmo chamava a atenção para um ponto absolutamente indispensável — que para entender a Cruz devemos começar considerando a seriedade do pecado. Se não entendemos a seriedade do pecado, consideraremos que tudo o que Deus precisa fazer é nos perdoar e, na verdade, que ele nos deve o perdão. "Nós perdoamos outras pessoas," pensamos. "Por que Deus não deveria apenas nos perdoar?"

Isto é o que está por trás das bem conhecidas palavras do filósofo francês Voltaire, que expressou a visão superficial de Deus que a maioria dos modernos têm, quando gracejou: "Dieu pardonnera, c'est son métier!" ("Deus perdoará; este é o trabalho dele!"). Mas Deus não pode "apenas perdoar", e só pensar assim já é uma ofensa. Emil Brunner compreendeu bem quando disse a respeito da observação de Voltaire que nunca houve "um comentário tão ímpio". Por que? Porque "não existem condições humanas nas quais tenhamos o direito de querer que Deus nos perdoe como era de se esperar". Anselmo disse que se qualquer um imagina que Deus pode simplesmente nos perdoar, aquela pessoa "não tem ainda considerado que peso pesado o pecado é" (nondum considerasti quanti ponderis sit peccatum, i, xxi).

O que pode ser feito? Obviamente Deus deve nos salvar. Não podemos conseguir salvação por nós mesmos, porque nós mesmos fomos quem procuramos o problema em primeiro lugar. E nós o fizemos por causa de nossa rebelião contra os decretos de Deus. Além do mais, sofremos pelas conseqüências do pecado em tal nível que até nossa vontade é limitada; portanto, não podemos nem querer agradar a Deus, muito menos agradá-lo. Por outro lado, disse Anselmo — aparentemente contradizendo-se neste primeiro ponto —, a sal¬vação deve ser conseguida pelo homem, pois o homem é o que tem errado com Deus e quem então deve fazer o errado certo. Dada esta situação, a salvação pode somente ser alcançada por aquele que é ambos: Deus e homem, isto é, por Jesus Cristo:

Não seria correto para a restauração da natureza humana ser deixada arruinada e... isto não poderia ter sido feito a menos que o homem pagasse o que devia a Deus pelo pecado. Mas o débito era tão grande que, enquanto o homem sozinho o devia, somente Deus poderia pagá-lo, de forma que a mesma pessoa devia ser homem e Deus. Assim era necessário a Deus assumir a humanidade na unidade de sua pessoa, de forma que quem em sua própria natureza tinha que pagar e não era capaz, pôde estar em uma pessoa que era... A vida deste homem foi tão sublime, tão preciosa, que foi suficiente para pagar o que era devido pelos pecados do mundo todo, e infinitamente mais.

A doutrina de Anselmo não deve ser mal entendida, como muitos teólogos a tem mal interpretado, em alguns casos intencionalmente. Se pudermos manter em nossas mentes a questão da satisfação, devemos nos lembrar de que é Deus quem inicia e leva a cabo esta ação. Se esquecermos disto, podemos nos achar pensando em Deus de alguma forma remota com relação à Expiação e então somente requerendo-a de alguma pobre vítima como um preço arbitrário pago para satisfazer sua honra ferida ou um conceito abstrato de justiça. Deus não é rígido, severo e cruel. Pelo contrário, é pelo imenso mas inexplicável amor de Deus que ele projetou e então executou a Expiação. Entretanto, a doutrina de uma satisfação feita por Deus Filho para Deus Pai em favor dos pecadores é o ponto inicial essencial para o entendimento do significado da cruz, porque é somente o conceito de satisfação que leva o pecado a sério. Pecado é uma ofensa infinita contra o caráter absolutamente justo de Deus, e qualquer plano adequado de salvação deve satisfazer a Deus antes de tudo. Os melhores teólogos sempre viram isto.

Martinho Lutero expressou isto quando escreveu: "Desde que todos nós, nascidos em pecado e inimigos de Deus, nada merecemos a não ser a ira eterna e o inferno de tal forma que tudo o que somos e podemos fazer é detestável, e não há maneira de sair deste apuro... portanto outro homem teve de entrar em nosso lugar, a saber Jesus Cristo, Deus e homem, e teve de satisfazer e fazer pagamento pelo pecado através de seu sofrimento e morte."

Este é o significado essencial de textos tais como:

...o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10.45).

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (Gl 3.13).

...sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (IPe 1.18,19).

Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra (Ap 5.9,10).

Cada um destes versos fala de pagar um preço necessário, satisfazendo uma exigência apropriada, ou fazendo uma compra. Assim, cada um tem a ver com providenciar satisfação a Deus pelo débito que temos com ele.

Fonte: [Josemar Bessa]

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