29 de abr. de 2010

Cristo no Barco


por Paulo Fagundes


Meditação em Marcos 4.35-41

Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem (V. 35).

Podemos nos imaginar naquele barco com Jesus e seus discípulos em direção a terra dos gadarenos, onde o Mestre seria rejeitado antes de seguir para Cafarnaum. Nessa travessia o episódio em que vamos meditar, Jesus e os discípulos estão no barco enquanto outros barcos o seguia. Mas quem realmente o está seguindo? Pois diante das situações de dificuldades e perigos sentimentos de: desespero, angustia, aflição e incredulidade, acompanham o cristão como uma praga, e o homem teima em confiar na sua própria força e olhar para as circunstâncias como se dependesse dele mesmo, e fica procurando o que fazer ou onde encontrar a saída, mesmo pessoas que tem a convicção de que o Senhor está do seu lado ou no mesmo barco.

“Ora levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água”(V. 37).


A igreja desde o início teve muitos momentos em que seguia Jesus e ouvia suas palavras de salvação, mas se comportava como se a vida cristã fosse algo para ser vivido apenas e somente na teoria e nunca na prática, já que em determinados momentos da vida sentimos o cheiro da morte, e a morte nos assombra, é algo que não queremos enfrentar. A morte nos atormenta e nos coloca em cheque e somos tragados pela incredulidade, um pecado tão enraizado no homem e que nestes momentos quase sempre não consegue se livrar. Momento terrível no confronto da carne com o Espírito, em que a carne sai vitoriosa onde deveríamos deixar o Espírito prevalecer, mas somos vencidos pelas nossas próprias fraquezas e teimamos em não obedecer a ordem que foi dada ao salmista:“Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus;”(Sl 46.10).

A traiçoeira influência do mundo nas igrejas: “A Igreja deve estar no mundo como um navio no oceano; todavia, quando o oceano inunda o navio, este passa por gran des dificuldades, tendendo a afundar. Temo que o navio evan gélico esteja afundando. O mundo está se infiltrando tão rapidamente na Igreja, que ficamos imaginando por quanto tempo a embarcação poderá ficar flutuando. A Igreja, que é chamada para influenciar o mundo, encontra-se influencia da por ele.” (W. Lutzer) 

A Igreja já foi comparada muitas vezes como sendo um barco ou um navio e o mundo como o oceano. Aquele barco estava se enchendo de água, e os homens se comportavam como se não seguissem Jesus. Assim como as igrejas de hoje que como barcos estão cheias da água do oceano que é a influência do mundo, se entrar muita água no barco corre o perigo do barco afundar, e se uma igreja se deixa influenciar demais pelo mundo também afunda e o povo abandona a fé, se prostituindo e se tornando então meretriz, em vez de noiva.

Quem é que estava dormindo mesmo? “E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: mestre, não te importas que pereçamos?”(V. 38) 

Sabemos que embora o Senhor Jesus estivesse deitado pois o seu corpo precisava de descanso, o seu Espírito porém jamais dorme pois Ele tem o pleno conhecimento e poder sobre todas as coisas, no seu maravilhoso domínio e na sua infinita supremacia sobre todo o Universo. “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” (Mt 28.18) Na verdade quem dorme somos nós, quem dorme é o homem, quem dorme é a igreja com as novas e modernas teologias e metodologias quando deixa de lado o verdadeiro evangelho, quem dorme é quem não luta contra o pecado, e quem é vencido pela incredulidade, quem dorme é o mundo enquanto perece nas mãos de Satanás. Diante dos problemas ou das tempestades perdemos o controle do barco, remamos mas não saímos do lugar, tiramos a água e o barco se enche de água novamente, ficamos molhados e angustiados, depressivos,  com medo, nervosos e desesperados.

Enquanto o Salmista diz“Mas por amor de ti, somos entregues à morte continuamente, somos considerados como ovelhas para o matadouro. Desperta! Porque dormes Senhor? Desperta não nos rejeites para sempre!"(Sl 44.22-23).

Aqui vemos no clamor do salmista uma atmosfera diferente, que como cheiro do incenso sobe agradável ao Senhor, uma expressão de fé verdadeira, pois o salmista confiava plenamente na providência divina, diferentemente do que aconteceu no barco da travessia de Jesus com os discípulos.
Ele é quem governa todas as coisas no Universo: “E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. Então lhes disse: Por que sois assim tão tímidos?! Como é que não tendes fé? E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (V.39-41)

Esta foi uma pequena demonstração da supremacia e da providência que está em Cristo Jesus, onde devemos colocar toda a nossa esperança e confiança, deixando de lado a nossa arrogância que insiste em confiar na carne e entregar tudo nas mãos dEle. Que nosso Senhor mude nossas atitudes em momentos de pequenas ou grandes dificuldades, que mesmo na bonança e até nas grandes tempestades sejamos guiados pelo Espírito num testemunho que assim como o clamor do salmista seja agradável ao nosso Deus. 

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes estremeçam. (Sl 46.1-3)


28 de abr. de 2010

Uma Ponte Maldita - A. W. Tozer





A fé cristã, baseada no Novo Testamento, ensina ocompleto contraste entre a igreja e o mundo. Não é mais do que um lugar comum religioso dizer que o problema conosco hoje é que procuramos construir uma ponte sobre o abismo que há entre duas coisas opostas, o mundo e a igreja, e realizamos um casamento ilícito para o qual não há autorização bíblica. Na verdade, nenhuma união real entre o mundo e a igreja é possível. Quando a igreja se junta com o mundo, já não é mais a igreja verdadeira, mas apenas um detestável produto misturado, um objeto de gozação e desprezo para o mundo, e uma abominação para o Senhor.

A obscuridade em que muitos (ou deveríamos dizer a maioria dos?) crentes andam hoje não é causada por falta de clareza da parte da Bíblia. Nada poderia ser mais claro do que os pronunciamentos das Escrituras sobre a relação do cristão com o mundo. A confusão que campeia nessa matéria resulta da falta de disposição de cristãos professos para levar a sério a Palavra do Senhor. O cristianismo está tão emaranhado no mundo que milhões nunca percebem quão radicalmente abandonaram o padrão do Novo Testamento. A transigência está por toda parte. O mundo está suficientemente caiado, encobrindo as suas faltas, para passar no exame feito por cegos que posam como crentes; e esses mesmos crentes estão eternamente procurando obter aceitação da parte do mundo. Mediante mútuas concessões, homens que a si mesmos se denominam cristãos manobram para ficar bem como homens que para as coisas de Deus nada têm, senão mudo desprezo.

Toda esta questão é espiritual, em sua essência. O cristão é o que não é por manipulação eclesiástica, mas pelo novo nascimento. É cristão por causa de um Espírito que nele habita. Só o que é nascido do Espírito é espírito. A carne nunca pode converter-se em espírito, não importa quantos homens considerados dignos da igreja nela trabalhem. A confirmação, o batismo, a santa comunhão, a profissão de fé - nenhum destes, nem todos estes juntos, podem transformar a carne em espírito, e tampouco podem fazer de um filho de Adão um filho de Deus. "E, porque vós sois filhos", escreveu Paulo aos gálatas, "enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.". E aos Coríntios, ele escreveu: "Examinai-vos a vós mesmos, se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados". E aos romanos: "Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele".

A terrível zona de confusão tão evidente em toda a vida da comunidade cristã, poderia ficar esclarecida num só dia, se os seguidores de Cristo começassem a seguir a Cristo em vez de uns aos outros. Pois o nosso Senhor foi muito claro em Seu ensino sobre o cristão e o mundo.

Numa ocasião, depois de receber não solicitado e carnal conselho de irmãos sinceros, mas não esclarecidos, o nosso Senhor respondeu: "O meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está presente. Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más". Ele identificou os Seus irmãos na carne com o mundo e disse que Ele e eles eram de dois espíritos diferentes. O mundo O odiava, mas não podia odiá-los porque não podia odiar-se a si próprio. Uma casa dividida contra si mesma não subsiste. A casa de Adão tem que permanecer leal a si própria, ou se romperá. Conquanto os filhos da carne possam brigar entre si, no fundo estão unidos uns aos outros. É quando o Espírito de Deus entra, que entra um elemento estrangeiro. "Se o mundo vos odeia", disse o Senhor aos Seus discípulos, "sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia.". Paulo explicou aos gálatas a diferença entre o filho escravo e o livre: "Como, porém outrora, o que nascera segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim também agora" (Gálatas 4:29).

Assim, através do Novo Testamento inteiro, é traçada uma aguda linha entre a igreja e o mundo. Não há meio termo. O Senhor não reconhece nenhum bonzinho "concordar para discordar" para que os seguidores do Cordeiro adotem os procedimentos do mundo e andem pelo caminho do mundo. O abismo que há entre o cristão e o mundo é tão grande como o que separou o rico de Lázaro. E, além disso, é o mesmo abismo, isto é, é o abismo que separa o mundo, dos resgatados do mundo; do mundo, dos que continuam caídos.

Bem sei, e o sinto profundamente quão ofensivo esse ensino deve ser para aquele bando de mundanos que mói e remói o rebanho tradicional. Não posso alimentar a esperança de escapar da acusação de fanatismo e intolerância que, sem dúvida, lançarão contra mim os confusos religionistas que procuram fazer-se ovelhas por associação. Mas bem podemos encarar a dura verdade de que os homens não se tornam cristãos associando-se com gente de igreja, nem por contato religioso, nem por educação religiosa; tornam-se cristãos somente por uma invasão da sua natureza, invasão feita pelo Espírito de Deus por ocasião do novo nascimento. E quanto se tornam cristãos assim, imediatamente passam a ser membros de uma nova geração, uma "raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus ... que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia" (I Pedro 2:9,10).

Com os versículos citados, não houve desejo de os citar fora do contexto, nem de focalizar a atenção num lado da verdade para desviá-lo de outro. O ensino desta passagem forma completa unidade com toda a verdade do Novo Testamento. É como se tirássemos um copo de água do mar. O que tiraríamos não seria toda a água do oceano, mas seria uma amostra real e em perfeito acordo como o restante.

A dificuldade que nós cristãos contemporâneos enfrentamos não é a de entender mal a Bíblia, mas a de persuadir os nossos indóceis corações a aceitarem as suas claras instruções. O nosso problema é conseguir o consentimento das nossas mentes amantes do mundo para termos Jesus como Senhor de fato, bem como de palavra. Pois uma coisa é dizer, "Senhor, Senhor", e outra completamente diferente é obedecer aos mandamentos do Senhor. Podemos cantar, "Coroai-O Senhor de todos", e regozijar-nos com os agudos e sonoros tons do órgão e com a profunda melodia de vozes harmoniosas, mas ainda não teremos feito nada enquanto não abandonarmos o mundo e não fizermos os nosso rostos na direção da cidade de Deus na dura realidade prática. Quando a fé se torna obediência, aí é de fato fé verdadeira.

O espírito do mundo é forte, e gruda em nós tão entranhadamente como cheiro de fumaça em nossa roupa. Ele pode mudar de rosto para adaptar-se a qualquer circunstância e assim enganar muito cristão simples, cujos sentidos não são exercitados para discernir o bem e o mal. Ele pode brincar de religião com todas as aparências de sinceridade. Ele pode ter acessos de sensibilidade de consciência , e até pode confessar os seus maus caminhos pela imprensa pública. Ele louvará a religião e bajulará a igreja por seus fins. ele contribuirá para as causas de caridade e promoverá campanha para distribuir roupas aos pobres. Basta que Cristo guarde distância e que nunca afirme o Seu senhorio sobre ele. Positivamente isso não durará. E para com o verdadeiro Espírito de Cristo, só mostrará antagonismo. A imprensa do mundo (que é seu real porta-voz) raramente dará tratamento justo a um filho de Deus. Se os fatos a compelem a uma reportagem favorável, o tom tende a ser condescendente e irônico. Ressoa nela a nota de desdém.

Tanto os filhos deste mundo como os filhos de Deus foram batizados num espírito, mas o espírito do mundo e o Espírito que habita nos corações dos homens nascidos duas vezes, acham-se tão distanciados um do outro com o céu do inferno. Não somente são o completo oposto um do outro, mas também estão em extremo combate um contra o outro, mas também estão em agudo antagonismo um contra o outro. Para um filho da terra as coisas do Espírito são, ou ridículas, caso em que ele se diverte, ou sem sentido, caso em que ele se aborrece. "Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente."

Na Primeira Epístola de João duas palavras são empregadas uma e outra vez,, as palavras eles e vós, e elas designam dois mundos totalmente diversos; vós refere-se aos escolhidos, que deixaram tudo para seguir a Cristo. O apóstolo não se põe genuflexo, de joelhos, ante o deus de Tolerência (cujo culto se tornou na América uma espécie de religião de segunda capa); João é grosseiramente intolerante. Ele sabe que a tolerância pode ser simplesmente outro nome para a indiferença. Exige-se vigorosa fé para aceitar o ensino do experimentado João. É muito mais fácil apagar as linhas de separação e, assim, não ofender ninguém. Generalidades piedosas e o emprego de nós para significar tanto cristãos como descrentes, é muito mais seguro. A paternidade de Deus pode ser ampliada para incluir toda gente, desde Jack, o Estripador, até Daniel, o Profeta. Assim, ninguém fica ofendido e todos se sentem banhados e prontos para o céu. Mas o homem que se reclinara sobre o peito de Jesus não foi enganado assim tão facilmente. Ele traçou uma linha para dividir em dois campos a raça humana, para separar dos salvos os perdidos, dos que se afundarão no desespero final os que subirão para a recompensa eterna. De um lado estão eles — aqueles que não conhecem a Deus; de outro, vós (ou, com uma mudança de pessoa, nós), e entre ambos está um abismo moral largo demais para qualquer homem atravessar.

Eis aqui o modo como João o declara: "Filhinhos, vós sois de Deus, e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro". Uma linguagem como esta é clara demais para confundir qualquer pessoa que honestamente queira conhecer a verdade. Nosso problema não é de entendimento, repito, mas de fé e obediência. A questão não é teológica: Que é que isto ensina?

É moral: Estou disposto a aceitar isto e arcar com as coseqüências? Posso agüentar o olhar frio? Tenho coragem de enfrentar os acerbos ataques movidos pelos modernistas? Ouso provocar o ódio dos homens que se sentirão apontados por minha atitude? Tenho suficiente independência mental para desafiar as opiniões da religião popular e de acompanhar um apóstolo? Ou, em resumo, posso persuadir-me a tomar a cruz com o seu sangue e com o seu opróbrio?

O cristão é chamado para ficar separado do mundo, mas precisamos ter certeza de que sabemos o que queremos dizer (ou, mais importante, o que Deus quer dizer) com o mundo. É provável que o façamos significar alguma coisa externa apenas, perdendo, assim, o seu significado real. Cartas, bebidas, jogos — estas coisas não são o mundo; são simples manifestações externas do mundo. A nossa luta não é apenas contra os procedimentos do mundo, mas contra o espírito do mundo. Porquanto o homem, salvo ou perdido, essencialmente é espírito. O mundo, no sentido neotestamentário do termo, é simplesmente a natureza humana não regenerada onde quer que esta se encontre, quer no bar, quer na igreja. O que quer que brote da natureza decaída, ou seja edificado sobre ela ou dela receba apoio, é o mundo, seja moralmente vil ou moralmente respeitável. Os antigos fariseus, a despeito da sua zelosa dedicação à religião, eram da própria essência do mundo. Os princípios espirituais sobre os quais eles contruíram o seu sistema foram retirados, não do alto, mas de baixo. Eles empregaram contra Jesus as táticas dos homens. Subornavam os homens para dizerem mentiras em defesa da verdade. Para defender Deus, agiam como demônios. Para proteger a Bíblia, desafiavam os ensinamentos da bíblia. Eles sabotavam a religião para salvá-la. Davam rédeas soltas ao ódio cego em nome da religião do amor. Vemos aí o mundo com todo o seu cruel desafio a Deus. Tão feroz foi esse espírito, que não descansou enquanto não levou à morte o próprio Filho de Deus. O espírito dos fariseus era ativa e maliciosamente hostil ao Espírito de Jesus, pois cada qual era uma espécie de destilação de ambos os respectivos mundos dos quais provinham.

Os mestres atuais que situam o Sermão do Monte nalguma outra dispensação que não esta e, assim, liberam a igreja do seu ensino, mal percebem o mal que fazem. Pois o Sermão do Monte dá em resumo as características do Reino dos homens regenerados. Os bem-aventurados pobres que choram seus pecados e têm sede de justiça são verdadeiros filhos do Reino. Com mansidão mostram misericórdia para com os seus inimigos; com sincera simplicidade contemplam a Deus; rodeados de perseguidores, abençoam, e não amaldiçoam. Com modéstia escondem as suas boas obras e com paciência aguardam a visível recompensa de Deus. Livremente renunciam aos seus bens terrenos, em vez de usar a violência para protegê-los. Eles acumulam os seus tesouros no céu. Evitam os elogios e esperam o dia da prestação final de contas para saber quem é maior no Reino do céu.

Se esta é uma visão bem precisa das coisas, que podemos dizer quando cristãos disputam entre si lugar e posição? Que podemos responder quando os vemos famintamente procurando homenagens e louvor? Como podemos desculpar a paixão por publicidade, tão claramente evidente entre os líderes cristãos? Que dizer da ambição política nos círculos cristãos? E das febris mãos estendidas para mais e maiores "oferendas de amor"? Que dizer do desavergonhado egoísmo entre os cristãos? Como explicar o grosseiro culto do homem que habitualmente infla um ou outro líder popular dando-lhe somas endinheiradas, beijo dado por aqueles que se propõe como fiéis pregadores do Evangelho?

Há só uma resposta a essas perguntas, é simplesmente que nessas manifestações vemos o mundo, e nada senão o mundo. Nenhuma apaixonada declaração de "amor" às "almas" pode transformar o mal em bem. Estes são os mesmos pecados que crucificaram Jesus.

Também é verdade que as mais grosseiras manifestações da natureza humana decaída fazem parte do reino deste mundo. Diversões organizadas com ênfase em prazeres frívolos, os grandes impérios edificados em hábitos viciosos e inaturais, o irrestrito abuso dos apetites normais, o mundo artificial denominado "alta sociedade" - todas estas coisas são do mundo. Todas fazem parte daquilo de que a carne consiste, daquilo que se edifica sobre a carne e que há de perecer com a carne. E dessas coisas o cristão deve fugir. Todas essas coisas ele tem que pôr para trás e nelas não deve tomar parte. Contra elas deve pôr-se serena, mas firmemente, sem transigência e sem temor.

Portanto, que o mundo se apresente em seus aspectos mais feios, quer em suas formas mais sutis e refinadas, devemos reconhecê-lo pelo que ele é, e repudiá-lo categoricamente. Precisamos fazer isso, se é que desejamos andar com Deus em nossa geração como Enoque o fez na sua. Um rompimento puro e simples com o mundo é imperativo. "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus" (Tiago 4:4). "Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo" (I João 2:15,16). Estas palavras de Deus não estão diante de nós para nossa consideração; estão aí para nossa obediência, e não temos direito de nos entitularmos cristãos se não as seguimos.

Quanto a mim, temo qualquer tipo de movimento religioso entre s cristãos que não leve ao arrependimento, resultando numa aguda separação do crente e o mundo. Suspeito de todo e qualquer esforço de avivamento organizado, que seja forçado a reduzir os duros termos do Reino. Não importa quão atraente pareça o movimento, se não se baseia na retidão e não é cuidado com humildade, não é de Deus. Se explora a carne, é uma fraude religiosa e não deve receber apoio de nenhum cristão temente a Deus. Só é de Deus aquele que horna o Espírito e prospera às expensas do ego humano. "Como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor".


A. W. Tozer

Fonte: [Josemar Bessa]

John Piper - O que é um entendimento "Reformado" do Evangelho?


Fonte: [Youtube]

Por Que O Justo Sofre? - R.C. Sproul


No âmago da mensagem do livro de Jó, acha-se a sabedoria que responde à questão a respeito de como Deus se envolve no problema do sofrimento humano. Em cada geração, surgem protestos, dizendo: “Se Deus é bom, não deveria haver dor, sofrimento e morte neste mundo”. Com este protesto contra as coisas ruins que acontecem a pessoas boas, tem havido tentativas de criar um meio de calcular o sofrimento, pelo qual se pressupõe que o limite da aflição de uma pessoa é diretamente proporcional ao grau de culpa que ela possui ou pecados que comete.
No livro de Jó, o personagem é descrito como um homem justo; de fato, o mais justo que havia em toda a terra. Mas Satanás afirma que esse homem é justo somente porque recebe bênçãos de Deus. Deus o cercou e o abençoou acima de todos os mortais; e, como resultado disso, Satanás acusa Jó de servir a Deus somente por causa da generosa compensação que recebe de seu Criador.


Da parte do Maligno, surge o desafio para que Deus remova a proteção e veja que Jó começará a amaldiçoá-Lo. À medida que a história se desenrola, os sofrimentos de Jó aumentam rapidamente, de mal a pior. Seus sofrimentos se tornam tão intensos, que ele se vê assentado em cinzas, amaldiçoando o dia de seu nascimento e clamando com dores incessantes. O seu sofrimento é tão profundo, que até sua esposa o aconselha a amaldiçoar a Deus, para que morresse e ficasse livre de sua agonia. Na continuação da história, desdobram-se os conselhos que os amigos de Jó lhe deram — Elifaz, Bildade e Zofar. O testemunho deles mostra quão vazia e superficial era a sua lealdade a Jó e quão presunçosos eles eram em presumir que o sofrimento indescritível de Jó tinha de fundamentar-se numa degeneração radical do seu caráter.


Eliú fez discursos que traziam consigo alguns elementos da sabedoria bíblica. Todavia, a sabedoria final encontrada neste livro não provém dos amigos de Jó, nem de Eliú, e sim do próprio Deus. Quando Jó exige uma resposta de Deus, Este lhe responde com esta repreensão: “Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber” (Jó 38.2, 3). O que resulta desta repreensão é o mais vigoroso questionamento já feito pelo Criador a um ser humano. A princípio, pode parecer que Deus estava pressionando Jó, visto que Ele diz: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?” (v. 4) Deus levanta uma pergunta após outra e, com suas perguntas, reitera a inferioridade e subordinação de Jó. Deus continua a fazer perguntas a respeito da habilidade de Jó em fazer coisas que lhe eram impossíveis, mas que Ele podia fazer. Por último, Jó confessa que isso era maravilhoso demais. Ele disse: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (42.5-6).


Neste drama, é digno observar que Deus não fala diretamente a Jó. Ele não diz: “Jó, a razão por que você está sofrendo é esta ou aquela”. Pelo contrário, no mistério deste profundo sofrimento, Deus responde a Jó revelando-se a Si mesmo. Esta é a sabedoria que responde à questão do sofrimento — a resposta não é por que tenho de sofrer deste modo particular, nesta época e circunstância específicas, e sim em que repousa a minha esperança em meio ao sofrimento.


A resposta a essa questão provém claramente da sabedoria do livro de Jó: o temor do Senhor, o respeito e a reverência diante de Deus, é o princípio da sabedoria. Quando estamos desnorteados e confusos por coisas que não entendemos neste mundo, não devemos buscar respostas específicas para questões específicas, e sim buscar conhecer a Deus em sua santidade, em sua justiça e em sua misericórdia. Esta é a sabedoria de Deus que se acha no livro de Jó.


Fonte:[Vemver textos]

24 de abr. de 2010

C.H. Spurgeon - Hindhead


Extraído do Sword and Trowel de Julho de 1869

NUM DOS DIAS MAIS QUENTES de um Julho abafado, dois de nós, cansados e desgastados de uma longa e empoeirada caminhada pela estrada de Portsmouth, chegamos finalmente ao topo do Hindhead. Nenhuma árvore ou arbusto à vista, e o sol derramando sem remorso um dilúvio de fogo; não havia sinal de sombra, exceto por uma enorme cruz de pedra que guarnecia o cume do Hindhead. Aquela cruz foi elaboradamente adornada com inscrições em latim, e era precisa e clássica no formato; mas sua sombra   estreita demais para fornecer cobertura perfeita mesmo para um, menos ainda para dois. A sombra era mais refrescante, mas não havia o bastante, e um viajante poderia, queimado como estava, ficar em pé ou deitado sob os raios ardentes do sol, pois não havia lugar para ele na sombra fresca. Assim deve ser com o evangelho de Jesus, como demonstrado por alguns ministérios. Jesus é anunciado eloquentemente, mas a liberdade de Sua graça e o poder abundante de Seu sangue não são aplicados; ou pode ser que a Teologia Sistemática seja o ídolo do pregador, e Cristo é reduzido à crença; o rigor da doutrina é alimentado, mas o Cristo que é anunciado não possui nenhuma amplitude de amor, nenhuma amplidão de sombra para o repouso de pecadores cansados. Ao mesmo tempo, muitos removem o caráter sólido da expiação completamente e, enquanto objeta abrangência, nos dá ao invés de uma cruz de granito, uma mera neblina sem nenhuma sombra. A verdadeira ideia escritural da expiação é: “A sombra de uma grande rocha numa terra cansada.” O lema do Evangelho de Jesus é: “E ainda há lugar.”

Ah, a bendita sombra da cruz de Cristo! Todos os rebanhos do Senhor deitam-se sob ela, e descansam em paz; milhões de almas são por ela libertas do calor da vingança, e inúmeras mais nela encontrarão um abrigo da ira vindoura. Querido leitor, você está na sombra do Crucificado? Ele se põe entre Deus e sua alma para desviar de você os raios ardentes da justiça, que os seus pecados tão ricamente merecem, suportando-os Ele mesmo? Se você perecer pela necessidade de abrigo não será porque faltou lugar para você em Cristo, pois nenhum pecador jamais foi lançado fora por esta razão, e nenhum jamais será. Se você morrer no calor feroz da ira divina, você só poderá culpar a si mesmo, pois há a sombra da grande propiciação, fria e refrescante, e a todo momento ela é acessível por simples fé. Se você se recusa a crer, e se considera indigno da salvação, seu sangue jazerá em sua própria porta. Venha, agora, para o abrigo certo e bendito, a fim de que a insolação do desespero não o murche. Uma vez sob a sombra de Jesus, o sol não te afetará durante o dia, nem a lua durante a noite; tu habitarás sob a sombra do Todo-Poderoso. “O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita” (Sl. 121:5). Deixe aquele que alegremente encontra o abrigo da cruz cantar e orar de todo o seu coração.



“Onde está a sombra daquela rocha
Que do sol defende seu rebanho!
De alegria eu me alimentaria entre suas ovelhas,
Entre elas descanso, entre elas durmo.”

De meu caderno. —C. H. S

Por: C. H. Spurgeon
Original: Hindhead. Website: spurgeon.org
Tradução: voltemosaoevangelho.com
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21 de abr. de 2010

John Piper - 10 razões por que sou grato pela Bíblia inspirada por Deus





1. A Bíblia desperta a fé, a origem de toda a obediência.
Portanto, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo. (Romanos 10:17)
2. A Bíblia liberta-nos do pecado.
Saberás a verdade, e a verdade fará com que sejas livre. (João 8:32)
3. A Bíblia liberta-nos de Satanás.
E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser manso para com todos, apto a ensinar, paciente quando enganado, instruindo com mansidão os que resistem, se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, e tornarem a despertar e desprendendo-se dos laços do diabo, em que a vontade dele, estão presos. (2 Timóteo 2:24-26)
4. A Bíblia santifica.
Santifica-os naverdade; a Tua palavra é a verdade. (João 17:17)
5. A Bíblia liberta-nos da corrupção e dá poder à divindade.
O Seu poder divino concedeu-nos tudo relacionado com a vida e a divindade, através da verdadeira sabedoria Dele que nos chamou pela sua própria glória e excelência. Pelas quais Ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que há no mundo pelo desejo. (2 Pedro 1:3-4)
6. A Bíblia oferece amor.
E peço isto, que o vosso amor abunde mais e mais em ciência e todo o conhecimento. (Filipenses 1:9)
Ora o fim do mandamento é o amor de um coração puro e de uma boa consciência e de uma fé não fingida. (1 Timóteo 1:5)
7. A Bíblia salva.
Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas, porque fazendo isto te salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem. (1 Timóteo 4:16)
Portanto, no dia de hoje vos protesto que estou limpo do sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus. (Actos 20:26-27)
[Eles] perecerão, porque eles não recerberam o amor da verdadede maneira a serem salvos. (2 Tessalonicenses 2:10)
8. A Bíblia dá alegria.
Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo. (João 15:11)
9. A Bíblia revela o Senhor.
E continuou o Senhor a aparecer em Silo, porquanto o Senhor se manifestava a Samuel em Silo pela palavra do Senhor. (1 Samuel 3:21)
10. Portanto, a Bíblia é a fundação para a minha casa e vida alegre e o ministério e esperança da eternidade com Deus.

Por John Piper. © Desiring God. Website: desiringGod.org
Original: 10 Reasons Why I Am Thankful for the God-Breathed Bible
Tradução: Olivia Monteiro. Websie: pt.gospeltranslations.org

A Pessoa com a Bíblia: Culpada – Francis Schaeffer


  • O Deus que já não honramos mais.
  • Por que Deus nos protegeria?

Enquanto Paulo começa em Romanos 2.17 falando diretamente aos judeus, lembre-se de que, hoje em dia, eles representam um povo com a Bíblia. Será que, no nosso caso, que temos a Bíblia em nossas estantes, nós que contamos com a igreja no nosso meio, nós que temos uma cultura gerada pela Reforma, temos o bastante para a salvação?

Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, repousas na lei e te glorias em Deus. (2.17)

"Repousas na lei" deve nos lembrar do que acabamos de ler em Sofonias 3.11. Paulo está falando ao povo que se tornou soberbo em razão de o "santo monte" (Sf 3.11)encontrar-se bem no meio deles. E eles "repousam" neste fato.

... que conheces a sua vontade... (2.18a)

Mas o que os judeus tem? Eles têm a Bíblia. Como dirá Paulo mais tarde, "Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus" (3.1-2). A principal vantagem que os judeus tiveram em relação a todas as demais pessoas era que eles tinham a Bíblia. Eles conheciam a vontade de Deus (2.18). Eles confiavam nisto(2.17). Contudo, havia aí um problema muito sério: ter esta bênção tão especial os tornou soberbos. E aí é precisamente que muitas pessoas se encontram hoje. Repare em todas aquelas catedrais da Europa. As pessoas ouvem os sinos da catedral. Não basta? Elas têm suas crianças batizadas, crismadas, confirmadas. Elas realizam seus casamentos na igreja. Não basta?

E a mesma mentalidade é encontrada nos Estados Unidos. Temos uma das maiores porcentagens de pessoas freqüentadoras de igrejas de todos os tempos - maior até do que nos tempos em que as pessoas realmente acreditavam em alguma coisa! Ainda assim, Deus está dizendo aos judeus lá do primeiro século, mas igualmente a muitas pessoas do nosso próprio tempo, que toda essa herança judaica (ou cristã) não representa mais do que um grão de areia. Tudo isso só condena você ainda mais!

Se, porém, tu que tens por sobrenome judeu, repousas na lei e te glorias em Deus; que conheces a sua vontade, e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; que estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade; tu, pois, que ensinas a ou trem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Dizes que não se deve cometer adultério, e o cometes? Abominas os ídolos, e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa. (2.17-24)

Que terrível! Lá estão os judeus, que haviam sido destinados a revelar a imagem do Deus vivo a um mundo perdido (2.19-20), e não obstante eles só conseguiam ver a sua missão como um motivo para soberba (2.17, 23).Vemos o mesmo problema entre os cristãos de hoje. O que você acha que é para um missionário a coisa mais difícil de encarar no início de um ministério novo? Não conheço um único missionário que discordasse que o maior problema que tem de enfrentar é o dos que estiveram lá antes deles e que passaram ser associados à palavra cristão nas mentes das pessoas do local. Quando Livingston tentou pregar o evangelho na África, teve de encarar o fato de que as pessoas relacionavam o Cristianismo aos portugueses, que foram traficantes de escravos naquela parte do mundo. Até recentemente, o maior problema que os missionários enfrentavam nas regiões muçulmanas era que os muçulmanos, que não devem beber vinho, associavam os cristãos aos mercadores que lucravam com a venda daquela mercadoria que eles mesmos não podiam comercializar. Quando pessoas com a Bíblia - sejam elas judias ou cristãs - têm este tipo de comportamento, ao invés de irradiarem luz estão disseminando a escuridão.

Normalmente associamos a palavra missionário ao Cristianismo, mas os judeus dos tempos do Antigo Testamento eram todos, em certo sentido, chamados para ser missionários. O livro de Jonas é o melhor exemplo disso. Quando pensamos em Jonas, é claro que pensamos no grande peixe, mas a história de Jonas é importante, principalmente, como exemplo do fracasso de Israel em proclamar a sua mensagem missionária. Jonas foi chamado a pregar em Nínive, mas ao invés de aceitar este chamado missionário, ele pegou um barco que estava zarpando na direção oposta a Nínive.

Ezequiel também fala do fracasso de Israel em sua missão: "Assim diz o SENHOR Deus: Esta é Jerusalém; pu-la no meio das nações e terras que estão ao redor dela. Ela, porém, se rebelou contra os meus juízos, praticando o mal mais do que as nações, e transgredindo os meus estatutos mais do que as terras que estão ao redor dela" (Ez 5.5-6a).Deus pôs Jerusalém no meio das outras nações com certo propósito. O propósito de Israel era falar da existência de Deus e de seu caráter e chamar as outras nações para Deus. Jonas é um bom exemplo do fracasso de Israel em fazer isso, mas ele não é, sob hipótese alguma, o único. Os judeus deviam ser um testemunho de Deus, mas, ao invés disso, diz Ezequiel, eles representaram exatamente o contrário. Desde os tempos do cativeiro na Babilônia, os judeus foram espalhados pelo mundo conhecido. Se eles apenas tivessem ficado firmes em Deus! Mas, como Jonas ilustra, e Ezequiel disse, e Paulo está dizendo em 2.17-24, eles fizeram exatamente o oposto. Quando Salomão dedicou o Templo, ele declarou que o mesmo se tornaria a "Casa de Oração de todos os povos" (veja 2Cr 6.32; Is56.7; Mt 21.13). Mas acabou ocorrendo precisamente o contrário.
O templo devia ser um testemunho ao mundo de que Deus existe, de que ele realmente está aí. A realidade de Deus deveria ser vista por meio da retidão de vida das pessoas que ministravam na sua casa. Também deveria se tornar manifesta pela forma como Deus protegia o seu povo na batalha. Sendo este um mundo caído, a nação escolhida por Deus necessitaria de tempos em tempos da sua proteção na batalha, e sua intenção era oferecer a eles esta proteção, como teste¬munho para as nações. Mas, devido ao seu pecado, Deus parou de protegê-los e todas as nações podiam agora dizer "o Deus deles é igualzinho a todos os outros". A imoralidade de Israel levou todas as outras nações a blasfemar (2.24) contra Deus. Israel deveria ser uma demonstração viva do fato de que Deus está aí. Ao invés disso, em razão de seu pecado e conseqüente serre de derrotas na batalha, as outras nações diziam que "o Deus de Israel não está aí".

Para aplicar um termo neotestamentário à situação de Jonas, por causa de ele tomar a direção oposta, o evangelho não foi pregado a Nínive (até que Jonas se arrependesse). Devido ao pecado tão freqüente de Israel, o bom caráter de Deus não era mostrado ao mundo. Como Isaías expressou, ao invés de trazer à tona algo equiparável a um nascimento espiritual, Israel só conseguiu constatar que "o que demos à luz foi vento" (Is 26.18).

Infelizmente, o mesmo pode muitas vezes ser aplicado aos cristãos de hoje. Mais do que freqüentemente as pessoas de outras religiões que vieram a ter contato com cristãos afastaram-se com repulsa. Praticamente todos os líderes de seitas do mundo de hoje foram formados nas nossas universidades e delas saíram intocados e sentindo repulsa. Ao mesmo tempo, Deus muitas vezes também retirou a sua mão protetora, permitindo que os povos pautados pelo Cristianismo caíssem sob a influência de ideologias tais como o comunismo ateísta ou religiões pagãs do oriente. Nossa situação é perfeitamente paralela àquela dos judeus nos tempos bíblicos. Tanto os judeus daquela época quanto os cristãos de hoje falharam em manifestar para todo o mundo o fato de que Deus realmente existe. Por isso, como Ezequiel prossegue dizendo, "assim serás objeto de opróbrio e ludibrio, de escarmento e espanto às nações que estão ao redor de ti, quando eu executar em ti juízos com ira e indignação, em furiosos castigos. Eu, o SENHOR, falei" (Ez5.15).

Que triste situação. Lá estão as nações; elas deveriam estar olhando para Israel e vendo que Deus existe. Mas ao invés disso, Deus teve de julgar Israel. De fato ele usou estas mesmas nações inimigas para julgar Israel. Ao invés de olhar para Israel e reconhecer a Deus, eles destruíram Israel, ao mesmo tempo em que blasfemavam contra o seu Deus. E é isso precisamente que Paulo está dizendo emRomanos 2: "Em cada área da vida em que você deveria ter sido um testemunho; ao invés disso, você se mostrou pecaminoso e orgulhoso, e por isso Deus teve que avisá-lo. E isso, por sua vez, levou as outras nações a blasfemar contra o seu Deus".

O que nós, que somos parte da cristandade do século 20, podemos fazer, além de nos vestirmos de pano de saco e nos cobrir de cinzas e dizer "amém. A que ponto foi que chegamos. Somos motivo de blasfêmia. Deus já não nos pode proteger"? Até os nossos dias, todas as maiores nações "cristãs" da história ficaram sabendo da verdade, mas acabaram deliberadamente por dar-lhe as costas. Tudo o que podia ser dito contra os judeus dos tempos de Paulo pode ser dito agora contra nós. Ao invés de sermos missionários, temos dado motivos de blasfêmia aos incrédulos. Nós não apenas deixamos de pregar a mensagem positiva da salvação, mas estamos pregando, ao invés disso, uma mensagem contrária, e temos dado motivos aos incrédulos para se desviarem de um Deus que nós já não honramos.

Alguns capítulos adiante, Ezequiel diz o seguinte aos habitantes de Judá, o reino do extremo sul: "Também Samaria não cometeu metade de teus pecados; pois tu multiplicaste as tuas abominações mais do que elas, e assim justificaste a tuas irmãs, com todas as abominações que fizeste. Tu, pois, leva a tua ignomínia, tu que advogaste a causa de tuas irmãs, pelos teus pecados, que cometeste mais abomináveis do que elas; mais justas são elas do que tu; envergonha-te logo também, e leva a tua ignomínia, pois justificaste a tuas irmãs" (Ez 16.51-52).Então, no versículo 56: "Não usaste como provérbio o nome Sodoma, nos dias de tua soberba". E, mais adiante, no versículo 61: "Então, te lembrarás dos teus caminhos e te envergonharás quando receberes as tuas irmãs, assim as mais velhas como as mais novas, e tas darei por filhas". Em outras palavras, Ezequiel está dizendo que os judeus dos seus dias eram piores até mesmo do que os notórios sodomitas. Jesus mesmo disse algo semelhante dos judeus do seu próprio tempo, que "se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje" (Mt 11.23).

É neste ponto em que estamos em nossa própria cultura cristã hoje. Eu não aprecio o comunismo, mas eu acredito que a China comunista não é tão má aos olhos de Deus quanto a nossa própria cultura. Nós, que vivemos no norte da Europa e na América do Norte, desde a Reforma temos sido em muito abençoados pelas luzes da verdade. Entretanto, nós nos desviamos deliberadamente dela. Quando eu ouço Paulo perguntar aos judeus da sua época:"vocês estão achando que serão salvos, só porque são judeus, enquanto que, na verdade, vocês têm sido um motivo de blasfêmia para as nações?" Tenho certeza de que Deus está fazendo a mesma pergunta aos que se chamam cristãos no norte da Europa e na América do Norte hoje em dia. Estamos sendo um motivo de blasfêmia. Isso não é nenhuma desculpa para o outro lado, o das pessoas sem a Bíblia; como vimos anteriormente (1.18—2.16), elas serão condenadas do mesmo jeito. Mas não temos desculpa alguma. Não podemos dizer "nós é que estamos certos. Certamente Deus vai nos proteger". Por que ele deveria? Somos uma blasfêmia contra Ele!

Paulo declarou que tanto os gentios quanto os judeus de seus dias estavam sob a ira de Deus. Em 3.9-20 ele dirá a mesma coisa, em maiores detalhes, chegando ao ponto mais alto com esta con-clusão tão citada: "pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (3.23), que é uma outra forma de dizer que "todos estão sob a ira de Deus". Ou como em Isaías: "Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas" (Is 53.6). Quem precisa de Salvador? O gentio pecou; o judeu pecou. O homem sem a Bíblia pecou; o homem com a Bíblia pecou. Quem precisa do Salvador? A resposta nos parece agora bastante simples, não é? Todo mundo, homens e mulheres, precisam do Salvador! E, se quisermos viver no mundo como ele é, e não em algum mundo de faz de conta, teremos de viver sob estas condições. Quando as pessoas nos perguntam:"Quem precisa de Salvador?", devemos responder muito calmamente, muito sobriamente, e com real compaixão que "todos pecaram e carecem da glória de Deus".

Quando consideramos que Paulo estava falando de todos os judeus e de todos os gentios como sendo pessoas igualmente pecadoras aos olhos de Deus, é importante que nós, os cristãos de hoje, não olhemos para trás, para os leitores do primeiro século, como se nos encontrássemos acima deles. Como Paulo nos lembra em Efésios 2.3, nós"éramos por natureza filhos da ira", não passávamos do pior e mais desnorteado tipo de pecador. Todos nós temos estado sob a ira de Deus. Se tivermos aceitado Cristo como nosso Salvador, a ira de Deus já não estará mais sobre nós. Mas isso não se deve a alguma coisa de nós mesmos, alguma coisa que esteja embutida em nossa herança genética, ou em nossa cultura cristã. Se não estamos sob a ira de Deus neste preciso momento, isso se deve tão somente ao fato de que, devido à sua graça, Cristo morreu por nós e, igualmente pela sua graça, nós o aceitamos como Salvador. Não podemos supor termos sido resgatados graças à bondade inerente de qualquer um que ainda se encontra sob a ira de Deus. Sempre que analisamos a ira de Deus contra o mundo pecaminoso, a postura certa é a que diz: "Eu já estive nesta posição eu mesmo, e lá eu mereceria estar, se não fosse a obra consumada de Jesus Cristo". É somente no espírito desta humilde constatação que ousamos prosseguir.

                                                                                                                             Francis Schaeffer

Fonte: [Josemar Bessa]

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